Quando eu estava na faculdade, aprendi que o maior patrimônio de uma empresa de comunicação é a confiança do leitor. O que diferencia o jornalismo de verdade de um aparato de propaganda é a credibilidade conquistada pela independência editorial, pela pluralidade de vozes e pela busca da verdade, mesmo quando ela contraria interesses de poderosos. Infelizmente, a grande mídia brasileira perdeu credibilidade ao alinhar-se ao poder, distorcer fatos e omitir verdades, minando a democracia e a confiança do público. (Luciano Trigo, escritor e jornalista)
Evidentemente, não é o caso do jornal Douradosnews, uma honrosa exceção na qual tenho o privilégio de contribuir, mas é o que vem acontecendo nos últimos anos com muitos grandes veículos aqui no Brasil. A chamada grande mídia ou grande imprensa nacional, outrora marcada pela diversidade editorial, parece ter feito um pacto quase explícito com o poder vigente. O que se observa hoje é o alinhamento a uma narrativa hegemônica: existe uma convergência entre as grandes redações do país e os interesses do campo político dominante no cenário federal.
PERDEU CREDIBILIDADE? Não há aqui somente afinidades ideológicas. Com a crise dos modelos tradicionais de financiamento, muitos veículos de comunicação se tornaram dependentes de verbas públicas e do alinhamento político a governos, perdendo sua autonomia e a própria possibilidade de exercer sua função crítica. Essa dependência financeira corrói a independência profissional, transformando repórteres em porta-vozes do poder e o jornalismo em extensão do discurso oficial. O resultado é a queda contínua da credibilidade com o consumidor...
O Supremo Tribunal Federal (STF), instituição que deveria ser a guardiã da legalidade, está hoje "blindado" contra qualquer crítica mais incisiva de grandes jornais, mesmo diante dos comportamentos mais questionáveis (ou, na opinião de muitos especialistas, de arbitrariedades flagrantes). Por sua vez, o grupo que mais simboliza o uso da máquina pública em benefício próprio, incluindo políticos condenados por corrupção em julgamentos históricos, foi reabilitado com o apoio dos mesmos veículos que denunciavam esses políticos em um passado recente!
QUEREM NOS ENGANAR? A consequência inevitável é a perda de confiança. O leitor não é bobo: percebe a manipulação, mesmo quando não domina os meandros do jornalismo. Ele enxerga a seleção enviesada de notícias, os silêncios eloquentes, as distorções de manchetes e as inversões de foco. Quando um veículo insiste em esconder escândalos envolvendo figuras ligadas ao governo, mas dá repercussão estrondosa a qualquer deslize de opositores políticos, fica claro que não se trata mais de informação, mas de militância. (Fonte: gazetadopovo)
Foi justamente por isso que boa parte da população migrou para meios alternativos: redes sociais, sites independentes e canais no YouTube. Não por acreditar que estes são perfeitos e imunes a erros, mas simplesmente porque deixaram de confiar na grande mídia. O rótulo de "fake news", usado e abusado pelo poder vigente contra seus adversários, tornou-se amargamente irônico, porque, aos olhos do leitor comum, são justamente os grandes jornais e emissoras nacionais que praticam a omissão seletiva e a narrativa deformada. (Luciano Trigo, escritor e jornalista)
TENTAM NOS MANIPULAR? Essa erosão de confiança não ocorreu de forma súbita, mas por meio de práticas reiteradas ao longo dos anos. Vamos citar algumas? Seleção das pautas: notícias ruins para o grupo no poder são suavizadas ou minimizadas. Já qualquer suspeita contra adversários políticos ganha manchetes e editoriais inflamados. Escolha das palavras nos títulos: uma operação policial contra um aliado do governo pode virar "PF investiga suposto esquema", enquanto uma mera suspeita contra um opositor torna-se "PF flagra esquema criminoso".
Silêncio estratégico: alguns fatos simplesmente não são noticiados. Declarações polêmicas de poderosos desaparecem. Enquadramento enviesado: quando não dá para ignorar o tema, ele é enquadrado de forma a favorecer a narrativa dominante. Protestos contra o STF, por exemplo, são imediatamente rotulados como "atos antidemocráticos", enquanto manifestações pró-governo recebem cobertura simpática, como "festa da democracia". O 8 de janeiro de 2023 ilustra todas essas práticas: os atos em Brasília foram prontamente acusados de "terrorismo".
FATOS OU NARRATIVAS? Desde o início, o 8 de janeiro foi classificado como "golpe" pela narrativa oficial, apesar das evidências em contrário, suspeitas de infiltrações e do fato de que a maioria dos participantes eram apenas cidadãos comuns protestando. Embora tratando-se de um episódio condenável de atos de vandalismo por parte de alguns (a minoria), a cobertura da imprensa tradicional deixou de lado perguntas incômodas: por que as forças de segurança falharam? Houve conivência? E assim o governo foi cuidadosamente protegido dos questionamentos...
Essa aliança entre a imprensa e o poder é incompatível com a democracia (que alegam defender). Primeiro, porque mina a pluralidade de ideias e o livre pensar, já que somente uma narrativa é admitida. Todo mundo que discorda é tratado de "extremista". Já reparou como a imprensa repete "extrema direita" e nunca fala em "extrema esquerda"? É uma contaminação da notícia que só fortalece a concentração de poder. O STF, ao se tornar protagonista político, deveria ser fiscalizado de maneira ainda mais rigorosa pela mídia, mas ambos se tornaram parceiros?
É TUDO PROPAGANDA? Essa relação de proteção mútua lembra modelos autoritários nos quais não existe distinção entre Estado e imprensa, apenas propaganda oficial do governo federal. O jornalismo deveria formar cidadãos críticos, capazes de avaliar diferentes versões dos fatos. Quando existe apenas uma versão autorizada, a sociedade se infantiliza, perde o senso de discernimento e se torna mais vulnerável a manipulações. Ao sufocar a pluralidade e demonizar o dissenso, a grande mídia colabora para um ambiente de polarização cada vez mais tóxico.
Em todos os regimes autoritários, a imprensa sempre foi a primeira a ser cooptada ou silenciada. A diferença, no caso atual, é que a adesão foi voluntária. Por medo de perder patrocínios, verbas estatais ou prestígio junto ao sistema, muitos veículos de comunicação escolheram o caminho da submissão. Essa escolha, contudo, tem um custo altíssimo no médio e longo prazo: a perda da própria relevância. A erosão da confiança na mídia é péssima para a sociedade e para as próprias empresas de comunicação. Aos poucos, elas veem sua audiência minguar...
VAMOS SOBREVIVER? Se essa tendência não for revertida, o futuro do Brasil será sombrio. Sem jornalismo independente, a democracia se torna um simulacro, no qual existem eleições, mas o debate público é manipulado. O cidadão, por sua vez, buscará refúgio nas brechas que escaparem do aparato de censura, na falta de canais confiáveis para expressar suas críticas e frustrações. Os riscos – polarização, erosão democrática, cinismo social – demandam urgência: uma imprensa independente é vital para a sobrevivência da democracia. (Fonte: revistaoeste)
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Rodolpho Barreto - Crédito: Divulgação