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SAÚDE

Guerra ao mosquito: conheça cinco armas contra o Aedes em estudo no Brasil

03 janeiro 2016 - 20h00

O Brasil declarou guerra ao mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, febre amarela, chikungunya e zika. Em diversas cidades do país já é possível ver homens fardados tentando exterminar o inimigo. Em outra frente de batalha, pesquisadores testam formas de erradicar o inseto ou impedir a transmissão das doenças. O UOL explica, abaixo, como está o andamento dos principais estudos.

Entre as ideias, há de mosquitos transgênicos, larvicidas que são carregados pelos próprios insetos e Aedes com bactérias que os tornam incapazes de transmitir a dengue ou o zika vírus. Vale o alerta dos pesquisadores: nenhuma técnica conseguirá sozinha "fazer milagre" e eliminar o mosquito. O objetivo é desenvolver novas técnicas que possam turbinar as formas de combate já conhecidas.

1. Aedes transgênico

Mosquitos machos, que não transmitem doenças, são geneticamente modificados pela Oxitec, empresa de origem inglesa com filial em Campinas (SP), para que seu corpo produza em excesso uma proteína que causa a sua morte. Eles são liberados no ambiente e reproduzem com fêmeas selvagens. A prole terá os genes do pai e morrerá antes da vida adulta, quando vira vetor de doenças.

A tática já foi testada em Juazeiro e Jacobina, na Bahia, e em Piracicaba (SP), até aqui com sucesso. Na Bahia, onde o teste é feito há mais tempo, a redução de insetos variou entre 80% e 100%, a depender da semana em que os dados foram coletados. Os testes seguem em Jacobina, e o governo do Estado afirmou no fim de novembro que quer expandir a ação para as 20 cidades mais afetadas por doenças transmitidas pelo inseto.

"Já vimos que a técnica funciona. Queremos aumentar a escala e ir para cidades maiores", explicou Gustavo Trivelatto, gerente do projeto. Uma das barreiras para a utilização em larga escala está na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A agência analisa desde o início do ano - diz que em caráter prioritário e que em contato com entidades internacionais - o pedido da Oxitec para comercializar seu produto.

2. Aedes transgênico infértil

O Laboratório de Mosquito Geneticamente Modificado trabalha em uma variação da linhagem da Oxitec. Assim como a empresa de Campinas, o mosquito macho tem mudanças em seus genes. No entanto, no caso deste projeto, o macho é estéril e sequer produz filhotes.

A pesquisa, sob supervisão da pesquisadora da USP Margareth Capurro, está em fase intermediária. O próximo passo, que deve ocorrer em breve, é fazer testes laboratoriais para saber se, em competição com o Aedes selvagem, o transgênico consegue reproduzir com as fêmeas. Na sequência, os estudos precisam ser seguidos com testes primeiramente locais para ver o resultado em pequenas comunidades e bairros.

Os dois projetos de transgênicos são vistos com desconfiança por ativistas, entre eles a ONG inglesa Gen Watch. Uma das alegações é de que ocorre escape de fêmeas na soltura dos machos - só os mosquitos fêmeas são capazes de picar e transmitir doenças. "Temos um controle de qualidade rigoroso. Se a gente chegar a 0,02% de fêmeas em uma amostra, fazemos tudo de novo. Elas também têm uma vida curta por serem produzidas em laboratório, não se tornam vetores", afirmou Trivelatto, da Oxitec.

3. Aedes infértil sem transgenia

Em pesquisa da Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em Viena, na Áustria, os mosquitos tornam-se inférteis após a aplicação de radiação em suas gônadas. O Brasil deve receber em janeiro ou fevereiro um equipamento radiador - o país já tem alguns que podem ser usados. Margareth Capurro, com seu laboratório e em parceria com a biofábrica Moscamed, está à frente dessa parceria.

Primeiramente, os mosquitos serão radiados para ficarem estéreis. Na sequência, já podem ser libertados no ambiente para competir com mosquitos selvagens e, assim, evitar a reprodução de parte das fêmeas. O prosseguimento da pesquisa e a construção de uma biofábrica são o que falta para uso em larga escala. Por não serem transgênicos, não precisam de aprovação da Anvisa, de acordo com a professora.

4. DST de mosquito

A bactéria Wolbachia é implantada em mosquitos machos e ovos de Aedes em estudo do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, ligado à Fiocruz. Na reprodução com a fêmea, o inseto transmite a bactéria. A Wolbachia é passada de mãe para filho e reduz a transmissão de vírus.

Atualmente, bairros da Ilha do Governador (RJ) e de Niterói (RJ) recebem o projeto. Poucas semanas depois das primeiras liberações no fim de 2014 e início de 2015, 65% dos mosquitos no ambiente continham a bactéria. Novas liberações foram feitas em 2015, e pouco mais de 50% dos mosquitos estão infectados.

"A avaliação de impacto sobre o número de casos de dengue está prevista para fases futuras, em que será necessário realizar o estudo em áreas mais amplas, levar em consideração a mobilidade das pessoas bem como a sazonalidade da dengue, entre outros fatores", disse Luciano Moreira, coordenador do projeto.

5. Mosquito-agente

Nesta pesquisa da Fiocruz de Manaus, armadilhas com uma pasta de larvicida são colocadas próximas a criadouros de mosquitos. Ao entrarem em contato com a pasta, os insetos também se tornam "agentes" contra a dengue e levam o larvicida no corpo para outros recipientes.

O resultado em bairro de Manaus foi positivo: os insetos foram capazes de levar o inseticida a locais de até 400 m de distância e as larvas foram mortas. Também houve teste em Manacapuru (AM), cidade de 94 mil habitantes. As armadilhas (mais de mil) foram espalhadas. Em áreas onde a média era de 1.500 mosquitos recolhidos, o número caiu para 20.

Agora, está prevista a criação de um protocolo para espalhar essa ferramenta para outras localidades. "Uma coisa é fazer em uma cidade pequena, outra é dimensionar o estudo para 3 milhões de habitantes, como Manaus. Tem que redimensionar o estudo e ver como aplicar", contou Sérgio Luz, um dos responsáveis pelo projeto.

Ecossistema pode ser atingido?

Com exceção do estudo que envolve a Fiocruz do Rio de Janeiro, todas as pesquisas visam diminuir a população do inseto. Isso gera mais polêmica entre ativistas, que falam de possível entrada do Aedes albopictus, outra espécie do mosquito, e de mudanças no ecossistema. Os pesquisadores negam.

"A invasão de uma espécie sobre a outra é a mesma coisa que você falar que saiu a vacina de dengue e depois surgiu zika. Não é que surgiu um vírus pior, ele já existe lá. Não tem chance. O mosquito também não é alimento único de uma espécie de pássaro e é urbano, o ecossistema não seria afetado", diz Margareth Capurro.

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