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Felipão volta para o Brasil em 2011, diz Jornal

17 dezembro 2009 - 10h40

No início dos anos 80, Chico Buarque cantava: "Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto... eu tô voltando/põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama... eu tô voltando." Emocionava Tô voltando, um hino de boas-vindas aos brasileiros que, enfim, ganhavam o direito de retornar, sem medo da repressão. Eram tempos de anistia, de filhos desgarrados que faziam as malas e largavam na Europa parte da angústia e das marcas provocadas pelos Anos de Chumbo.
Com ligeira adaptação, e sem deturpar uma obra-prima de Paulo Cesar Pinheiro e Maurício Tapajós (não, a música não é Chico), Luiz Felipe Scolari antecipa 2011: "Pode preparar aquele churrasco e põe o chimarrão pra esquentar... que eu tô voltando."
O técnico campeão do mundo em 2002 e quarto colocado em 2006 ensaia o regresso, após exílio voluntário e regiamente pago, que começou em 2003 ao assumir a seleção portuguesa e que deve acabar em dezembro de 2010 no Bunyodkor, do Usbequistão. "É projeto familiar", revela, em entrevista ao Estado, em breve passagem por São Paulo, cidade que escolheu para ser novamente porto de chegada: "Minha mulher e meu filho mais novo topam voltar, se for para São Paulo. É para cá que viremos", garante. Os grandes que se mexam e flertem desde já...
O desafio usbeque está a meio caminho ("Quero ajudar na expansão desse centro"), a ânsia por títulos não é o que o move atualmente ("É bom ganhar, mas já passei dessa fase") e o momento é de curtir o que cultivou. Felipão se considera bem-amado. "Vejo que as pessoas se aproximam de mim porque gostam e não porque sou técnico deste ou daquele time", constata. "É carinho gratificante", festejou, antes da homenagem que recebeu da Câmara Portuguesa de Comércio e que o tirou por algumas horas das férias no Sul, numa viagem de bate-volta Porto Alegre- São Paulo-Porto Alegre. "Tenho de voltar, porque não posso perder aulas na autoescola", diverte-se. A carteira de habilitação venceu e, depois de dirigir no Japão, na Arábia, em Portugal, no Usbequistão, agora tem de fazer reciclagem. "São doze horas, com todo o ritual", comenta, com um pfff! seguido de careta que lhe é tão característica.
Toda vez que vem ao Brasil a saudade bate, a idade provoca reflexões. Os filhos estão encaminhados (o mais velho mora e trabalha em Portugal, o mais jovem quer estudar nos EUA). Daí a vontade de interromper a fase andarilha e aquietar-se, com a mulher. "Tenho 61 anos, com 65 deixo de ser técnico", programa Felipão, impaciente com o desgaste provocado pela função que o consagrou. O desejo de mudança, no entanto, não significa o fim da relação com o futebol - não sairá de cena totalmente. "Poderei ter outra atividade esportiva", imagina. Consultor, coordenador, cartola, pouco importa. "Desde que seja algo para preencher o tempo e que não me tolha." Contatos não lhe faltam nem informações. Felipão discorre sobre os times brasileiros como se não estivesse fora há sete anos: sabe de novidades e bastidores.
Antes de deixar lugar no banco para outros, pretende fechar carreira no Mundial brasileiro, em 2014. "Quero dirigir uma seleção", pondera. "Qualquer uma, sem preferência", emenda, antes que se interprete o desejo como pré-candidatura a eventual substituição de Dunga. Mas hoje assumir a "amarelinha" não é mais projeto que o incomode, como há três anos e meio. Após o Mundial da Alemanha, foi procurado por Ricardo Teixeira e recusou oferta. "Nunca mais tocamos no assunto", explica. Nem era preciso. "A aposta no Dunga foi correta, os resultados estão aí." O que faz da seleção uma das favoritas, em sua avaliação.

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