Com seus mais de 70 milhões de estudantes no ensino superior e técnico, a China ainda quer os jovens brasileiros. No mês que vem, o paÃs inaugura a primeira feira de educação no Brasil, com participação de cerca de 30 das maiores universidades chinesas. O evento é reflexo de um acordo assinado entre os dois paÃses no fim de 2005 que facilita o intercâmbio educacional. "A China descobriu que, para acompanhar o desenvolvimento econômico, precisa de mão-de-obra qualificada", diz o presidente-executivo da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico, Paul Liu, um dos organizadores da feira.Na entrevista a seguir, ele deixa claro que - apesar da qualidade de ensino em áreas como tecnologia e economia - a China quer primeiro convencer os brasileiros a aprender o mandarim. "A base do chinês é memorização, se você consegue memorizar 1.500 palavras já tem a conversação básica", diz. "Por falta de conhecimento da lÃngua e da cultura, não se consegue avançar nos negócios entre Brasil e China."As universidades chinesas - todas pagas - oferecem o ensino da lÃngua e, mais tarde, uma especialização aos estrangeiros. Sem precisar de vestibular. É só entrar na internet e se inscrever. "Os jovens que derem importância ao aprendizado do chinês não têm preço nos próximos dez anos no mercado profissional", garante.Por que o interesse da China pelo Brasil? Brasil e China são dois paÃses em desenvolvimento, com caracterÃsticas semelhantes. Os dois estão crescendo, embora o Brasil muito menos. A China vem crescendo em dois dÃgitos em quase duas décadas e isso requer que o paÃs busque parcerias. No fim de 2004, o ministro da Educação veio ao Brasil. Eram raros os estudantes brasileiros lá e vice-versa. Então, um acordo de cooperação na área educacional foi assinado no ano passado, o que facilita a entrada de alunos na China e dos chineses no Brasil. Qualquer instituição pode celebrar acordos com universidades de lá. Por causa disso, o ministério teve a idéia de fazer uma feira educacional pela primeira vez na América Latina, na Argentina, no México e no Brasil, que será nos dias 20 e 21.Como a educação influenciou no desenvolvimento da China? A educação foi um fator preponderante no crescimento dessa economia de dois dÃgitos por ano. Se a China não investisse na educação, certamente não teria um resultado tão positivo. O ensino fundamental dura nove anos e tem tempo integral obrigatório. A criança chinesa é treinada exaustivamente em memorização, por causa dos ideogramas da lÃngua. Tenho visto campeonatos de matemática impressionantes, em que crianças de 6, 7 anos não fazem mais conta no papel. Calculam de cabeça mais rápido que a calculadora.E o ensino superior? O que a China descobriu é que, para poder acompanhar o desenvolvimento econômico, precisa de mão-de-obra qualificada. Então praticamente em todas as zonas industriais há escolas técnicas profissionalizantes, são 15 milhões de alunos. É a base principal de mão-de-obra qualificada. Depois, ainda há as escolas profissionalizantes de ensino superior, com outros 6 milhões de estudantes, e as universidades.A educação é toda gratuita? Por incrÃvel que pareça, 99% das escolas chinesas são pagas. E elas são estatais.Também não existe universidade de graça, os semestres custam em torno de US$ 2 mil. Só neste ano foi aprovada no Congresso a educação gratuita para filhos de camponeses. Como existe uma concorrência muito forte, a famÃlia chinesa preza muito a educação de seu filho único. A poupança é dirigida ao ensino da criança, que custa em média R$ 500 por mês. Para o padrão chinês não é barato. O governo gasta em torno de US$ 15 bilhões só com o ensino fundamental. E a criança está ocupada o dia todo. Portanto, raramente você encontra crianças na rua durante o dia. Só se for estrangeira, estiver fazendo turismo. Todas estão na escola. No ensino médio, o aluno que se prepara para o vestibular é solicitado de tal forma que praticamente passa o dia todo na escola. Vive oito, dez horas estudando, não tem sábado nem domingo.Com essa concorrência como os brasileiros vão conseguir vagas? A formação dos chineses para brigar no mercado é grande e a condição dos alunos é praticamente igual. Do que o governo precisa? Com a entrada de muitas empresas multinacionais, precisa de mão-de-obra qualificada e diferenciada. É necessário atrair novos alunos estrangeiros. As pessoas que vão para a China não concorrem com os alunos que saem do ensino médio chinês. Quem quer ir faz a matrÃcula e vai. O teste de seleção é só para saber o nÃvel de mandarim. As universidades dão a primeira fase, que é aprendizagem da lÃngua, e depois se ingressa no curso de especialização. Há dois tipos de cursos de pós, em mandarim ou em inglês.É possÃvel fazer graduação lá? É mais difÃcil para estrangeiros porque a briga é acirrada por uma vaga. Isso poderá ser feito por meio de intercâmbio com universidades brasileiras. As universidades que vão participar da feira são escolas conhecidas, centenárias, famosÃssimas, e que já recebem alunos estrangeiros. Muitas são das áreas de tecnologia, economia, administração e medicina. Os chineses também podem vir para cá aprender lÃngua portuguesa, turismo, moda, artes. Isso ajuda a incrementar o comércio entre os dois paÃses. Por falta de conhecimento da lÃngua e da cultura, não se consegue avançar nos negócios. Hoje, não há pessoas para trabalhar nas empresas brasileiras na China que falem português e chinês. A carência é tão grande que um intérprete que fale inglês e chinês ganha US$ 100 por dia. Se falar português, são US$ 300.Mas é difÃcil aprender chinês. Tem gente que em um ano e meio consegue falar o básico. A base do chinês é a memorização. Se você conseguir memorizar 1.500 palavras já terá a conversação básica. Além disso, na China há muitas oportunidades de emprego. Se o brasileiro for para lá e tiver habilidade na área de turismo, de relações internacionais, de artes, é muito fácil. Hoje a China carece de muitas coisas que vêm de fora e não há pessoas para levar. Os jovens que derem importância a aprender o chinês não têm preço nos próximos dez anos no mercado profissional.
Deixe seu Comentário
Leia Também

Força-tarefa inicia mutirão contra Aedes aegypti após aumento de chikungunya na Reserva IndÃgena

Alta da atividade industrial em janeiro não compensa perdas acumuladas

MS lidera crescimento da indústria de transformação no paÃs

Brasil enfrentará o Panamá no Maracanã antes da Copa

Vacina brasileira contra a dengue mantém eficácia por até 5 anos

CNU 2025: governo divulga hoje reclassificação de candidatos

Campeonato de karatê acontece amanhã no Ginásio Municipal

Moraes vota por tornar Malafaia réu por ofensa ao Comando do Exército

Corinthians anuncia atacante inglês Jesse Lingard

Anvisa: suplementos com cúrcuma podem trazer risco de danos ao fÃgado
Mais Lidas

Prefeitura inicia limpeza de terrenos baldios após descumprimento de notificações

Justiça mantém condenação de morador que instalou câmeras voltadas para casa de vizinha

Nova avenida vai margear Parque Arnulpho Fioravante com projeção de ligação à BR-163
