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CARNAVAL

Bloco de Brasília faz carnaval acessível para pessoas com deficiência

17 fevereiro 2026 - 08h00Por Agência Brasil

No carnaval, muitos espaços têm barreiras que limitam a circulação e a permanência de pessoas com deficiência (PCD) em eventos, como a falta de rampas, calçadas e piso tátil, pouca oferta de transporte público e de espaços reservados com vista elevada para que quem usa cadeira de rodas ou o escasso número de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Por entender que acessibilidade não é um favor, mas um direito, há 14 anos, a historiadora Lurdinha Danezy Piantino fundou, em conjunto com pais e representantes de entidades voltadas a pessoas com deficiência, o bloco de carnaval Deficiente é a mãe, como forma de combater o capacitismo, que é a discriminação e opressão de pessoas com deficiência, como forma de subestimar suas capacidades e tratando-as como inferiores.

“A pessoa com deficiência tem que ocupar todos os espaços: sociais e culturais. E o momento cultural mais importante do ano é o carnaval. Então, a pessoa com deficiência tem que estar junto.”

Lurdinha é mãe de Lúcio Piantino, de 30 anos — o artista multifacetado que dá vida a Úrsula Up, a primeira Drag Queen com síndrome de Down do Brasil e uma voz ativa na causa LGBTQIA+. Fora dos palcos e sem a montação, Lúcio expande seu talento como ator, artista plástico, dançarino e palhaço.

Gay e apaixonado pelo carnaval desde a infância, ele acredita que os blocos são ferramentas essenciais para incluir e levar todos para a festa. “Sinto-me ótimo. É a vida, que é muito boa.”

Bloco na rua

Nesta luta contra o preconceito, outro fundador do Deficiente é a mãe é o servidor público aposentado, Luiz Maurício Santos, de 60 anos. Cadeirante há 28 anos, devido a um acidente de moto, ele relata que apesar das dificuldades de colocar o bloco na rua, devido aos recursos e burocracia, o resultado vale a pena.

Porém, ele defende que mais pessoas com deficiência entendam que o carnaval é um espaço delas também.

"Temos ainda a dificuldade de mobilizar o segmento. As pessoas ainda ficam um pouco receosas de participar, de sofrer alguma discriminação. Então, sempre tentamos mobilizar essa turma para que apareçam."

Quem não falta aos encontros anuais do bloco é o jovem Francisco Boing Marinucci, de 22 anos, que tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A professora Raquel Boing Marinucci leva o filho ao bloco por ele gostar de músicas e conhecer as marchinhas de carnaval e diversos sambas.

Em 2026, as fantasias carnavalescas dos dois homenageiam os protagonistas do Sítio do Picapau Amarelo, do escritor Monteiro Lobato. Literatura e série televisiva que marcaram a infância do Francisco. Ele diz que gosta da companhia dela nos quatro dias da folia momesca."A mãe me adora, me ama de paixão. A mãe é minha companhia." 

Para Raquel, o bloco para PCDs é inclusivo e mais seguro para os dois.

"Quando as pessoas com deficiência intelectual são pequenas, há mais compreensão, porque, em geral, as crianças não são preconceituosas. Mas para um jovem ou adulto com deficiência intelectual não há inclusão de verdade. Por isso, não é possível deixá-lo sair sozinho em um ambiente sem um cuidador contratado ou alguém da família."

Sociedade mais consciente

De acordo com o IBGE, o Brasil tem18,6 milhões de pessoas com deficiência com 2 anos ou mais de idade, o que representa 8,9% da população nessa faixa etária. A deficiência visual é a mais comum, atingindo cerca de 3,1% da população.

Pessoas como o auxiliar de biblioteca Thiago Vieira, que tem baixa visão desde o nascimento. Neste carnaval, a companhia dele é a cão-guia Nina. Thiago se classifica como amante do carnaval e considera importante ter eventos inclusivos.

"No ano inteiro, a gente é bastante esquecido. Este bloco é um começo, me sinto seguro aqui. Quem sabe a sociedade se conscientiza para abrir mais lugares acessíveis para a gente?", deseja.

Alegria e otimismo

Outro frequentador assíduo do bloco feito por e para pessoas com deficiência, é o secretário escolar Carlos Augusto Lopes de Sousa, que trabalha em um centro de ensino da cidade do Recanto das Emas, no Distrito Federal. Ele chegou ao bloco de carnaval, no centro de Brasília, em uma cadeira de rodas com a intenção de aproveitar a segunda-feira de carnaval.

"Isso se chama inclusão e respeito." A paralisia do Carlos foi causada por uma fratura na coluna após um desabamento, há 37 anos. 

Carlos está ainda otimista com resultados das pesquisas da professora doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Coelho de Sampaio, que desenvolveu um medicamento (composto polilaminina). Os primeiros experimentos apresentaram resultados promissores na regeneração de lesões medulares.

"Ela é incrível! Heroína nacional", celebra Carlos Augusto entre um hit e outro carnavalesco. A pesquisa aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar em estudos clínicos mais amplos.

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