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Aos 60 anos, Zico relembra dramas e alegrias e descarta cargo no Fla

03 março 2013 - 13h17

3 de março de 1953. Para alguns, uma data normal. Mas para a maior torcida do Brasil, é como se fosse praticamente uma dia santo. Nascia na casa 7 da Rua Lucinda Barbosa, em Quintino, zona norte do Rio de Janeiro, Arthur Antunes Coimbra, caçula da família Antunes. Apelidado por uma prima de Zico, cresceu nas ruas de bairro, onde começou a bater bola, e depois ganhou o mundo, se tornando o maior ídolo da história do Flamengo e um dos principais jogadores da história da Seleção Brasileira.

Ao longo de pouco mais de 20 anos de carreira, Zico encantou os torcedores com seu futebol vistoso e objetivo. Em 970 jogos como profissional, fez 699 gols. A maior parte deles com a camisa 10 do rubro-negro carioca. No Flamengo, Zico marcou 508 gols em 731 jogos. É, de longe, o principal artilheiro da história do clube.

Mais do que ser artilheiro, Zico liderou o Flamengo nas grandes conquistas dos 117 anos de existência do clube. Ele estava à frente dos títulos do Mundial Interclubes (1981) e Libertadores (1981). Dos seis campeonatos brasileiros obtidos pela equipe, Zico participou de quatro (1980, 1982, 1983 e 1987). Ganhou ainda seis campeonatos estaduais pelo time rubro-negro carioca.

Na Seleção Nrasileira, Zico fez 52 gols. Trata-se do 4º maior artilheiro com a camisa canarinho. Faltaram, no entanto, as grandes conquistas. Zico disputou três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986), e a melhor posição obtida foi o terceiro lugar em sua Copa de estreia. Em 82, o Brasil era franco favorito, mas sucumbiu à Itália de Paolo Rossi. Em 86, Zico tinha operado o joelho meses antes, e foi para a Copa sem condições clínicas ideais. Acabou eliminado pela França, em um jogo em que perdeu um pênalti no tempo normal.

Em entrevista ao portal Terra, Zico relembra os pontos mais marcantes de sua carreira e fala do futuro. Diz que só volta a treinar algum time se receber uma boa proposta, em algum grande centro. Sobre o Flamengo, ressalta que sua passagem frustrada em 2010, como coordenador de futebol na gestão Patricia Amorim o ensinou que assumir qualquer cargo não cabe mais dentro de sua biografia no clube. Até mesmo a ideia de assumir a presidência é prontamente descartada por Zico.

"Não fui feliz em 2010, mas fiquei conhecendo e tendo a certeza de que não devo ter cargo oficial nenhum no Flamengo. Não participo de mais nada no Flamengo. A não ser usando minha imagem", afirma.

###Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Zico:

Terra - Você cresceu numa família de boleiros, na qual três dos seus irmãos mais velhos jogaram de forma profissional. Você sempre pensou ser jogador? Chegou a imaginar fazendo outra coisa que não fosse o futebol?
Zico - Quando eu era criança, não sabia o que ia fazer. Meus irmão jogavam, e tinha aquela coisa de você ver que joga bem também, é muito solicitado. E lógico que pensei em querer jogar. Mas naquela época a gente ia para o futebol sem as aspirações de que um garoto vai hoje. Era uma coisa mais de lazer, de coração. Tanto que eu estava acertado para ir para o América, e houve um convite para o Flamengo. Era meu time de coração, e optei pelo Flamengo.

Terra - Então seu destino estava traçado para o América? Quando houve a mudança que colocou o Flamengo no seu rumo?
Zico - Cheguei a jogar uma partida na escolinha do América, lá no Andaraí. Tinha 12 para 13 anos. Na semana que ia começar a treinar lá, o Celso Garcia (radialista, morto em 2008) tinha ido me ver jogar futsal no River (clube situado na Abolição, zona norte do Rio). Ele gostou, foi na minha casa, e pediu ao meu pai para me encaminhar para o Flamengo. Preferi o Flamengo.

Terra - Seu irmão, Edu, jogava no América. Você iria para lá por influência dele?
Zico - O América era pelo Edu. Eu não saía do América, vivia vendo os treinos, participando, brincando com os jogadores. Aprendi a bater pênalti e falta lá nos treinos. Batia para os goleiros profissionais. Tanto lá quanto no Fluminense, onde meu outro irmão, o Antunes, jogava. Brincava muito com o Carlos Alberto Torres quando o Antunes era do Fluminense. Já gostava de bater na bola. Nas peladas de rua, eu já batia. Quando fui para cima, desenvolvi mais ainda. Talvez se meus irmãos não tivessem ido para o futebol, eu não teria tido tanta motivação. Meu pai era muito rigoroso quanto aos estudos. Só deixou o Antunes ir quando ele prometeu que não ia parar de estudar. Depois aconteceu com o Edu, com o Nando. Todo mundo cumpriu, e eu não ia ser diferente.

Terra - Mas fora o futebol, havia alguma outra atividade que você fazia que poderia levar a outro caminho?
Zico - O futebol foi o caminho natural. A única profissão que eu poderia ir seria para o piano. Estudei um ano de piano. Minha mãe gostava de piano. Nenhum filho quis saber antes. Então, ela colocou o caçula para aprender. Estudei, aprendi, toquei na televisão, inclusive no programa do Ted Boy Marino com a Célia Biar, na Globo. Era um quadro em que alguém de outra profissão fazia outra coisa. O Edu e o Antunes, que jogavam, foram lá cantar. Cantaram Tristeza, do Zé Keti. Devia ter uns 11 anos.

Terra - Mas você gostava de tocar piano? Era um bom pianista?
Zico - Aprendia por música, e não conhecia realmente as músicas que tocava. Tocava realmente só lendo partituras, aquelas serenatas antigas. Não saber o que está tocando não dá muita motivação. Talvez se aprendesse com músicas da época, pudesse me motivar mais, né? Aí larguei, comecei a deixar de ir às aulas para jogar bola na rua.

Terra - E nas peladas, quando você era garoto, você já sobrava tecnicamente em relação aos outros jogadores?
Zico - Jogava com os garotos maiores. Tinha 12 anos, e disputava contra os de 14, 15. Para os meninos de 12, realmente ficava muita disparidade, mesmo eu sendo franzino. Era uma diferença grande.

Terra - No Flamengo, quando você chegou, essa diferença persistiu?
Zico - Não. Trilhei o caminho certo lá. Inclusive, no dia que eu fui, até cheguei no dia errado. Com 14, fui no time de juvenil, que era 17. Me colocaram lá para treinar, e não foi a mesma coisa. No dia seguinte foi que voltei. Fiz o teste na sexta-feira, fui aprovado e chamado para um jogo no domingo, na Gávea. Ganhamos de 4 a 3 e fiz dois gols já. Entrei de cara para jogar. Ainda dei sorte que, naquele dia, os profissionais jogavam à tarde, e muitos estavam lá vendo o jogo. Muitos ficaram impressionados.

Terra - Como foi a chegada ao time profissional?
Zico - Estreei em 1971 no profissional. 70 foi o último ano de escolinha e parte de 71 no juvenil. Joguei o Campeonato Brasileiro inteiro. Acabei indo para a Seleção Olímpica, e não fui à Olimpíada.

Terra - Foi uma grande frustração não ter sido convocado para a Olimpíada de 72?
Zico - Foi uma tristeza grande, foi a única hora que eu quis parar de jogar futebol. Quando terminou 71, eu tinha feito o gol da classificação, a gente tinha sido campeão do Pré-Olímpico lá na Colômbia. Daí, entramos de férias. Tinha mudado tudo no Flamengo. O Solich (Fleitas Solich, paraguaio que treinava o time) saiu, veio o Zagallo, que me chamou e me disse que eu era muito jovem, e achava que não ia contar comigo. Se eu quisesse continuar treinando lá, não teria problema. Só que como eu não participava do grupo, a gente não treinava. Ia para a Gávea, mudava de roupa, e se precisassem, chamavam. Se não, ia embora para casa. E nisso, o Antuninho, que era técnico da Seleção, foi à Gávea falar comigo, para que jogasse e treinasse e tivesse condições de ser convocado. Voltei para o juvenil, todos ficaram felizes. Fui artilheiro de novo, fomos campeões e o cara não me convocou.

Terra - Você chegou a abandonar o Flamengo quando não foi convocado?
Zico - No dia da convocação, fui embora para casa e não voltei mais, falei que ia parar de jogar, falei com meu pai. Meus irmãos vieram conversar comigo. Fiquei uns dez dias sem ir ao Flamengo.

Terra - Foi o único momento em que pensou em abdicar de jogar futebol? Nem na grave contusão do joelho?
Zico - Não. Quando machuquei o joelho, eu só queria que o médico me desse um percentual de chances para que eu voltasse a jogar. Se ele me dissesse que não tinha como jogar mais, aí tudo bem. Mas se ele desse uma chance, ia tentar. Não queria parar por causa de uma contusão.

Terra - Sobre aquela equipe do Flamengo que fez história, gostaria de saber quando deu o estalo de que vocês estavam formando uma equipe que iria marcar época no futebol?
Zico - Acho que quando ganhamos o Brasileiro de 1980, deu para ter uma noção de que se a gente se mantivesse naquela linha, iríamos alcançar os títulos que o Flamengo ambicionava, que era a Libertadores e o Mundial. O Mundial não é o mais complicado, o mais difícil é a Libertadores. Talvez o Brasileiro seja mais difícil ainda, porque havia 10, 12 equipes que poderiam ser campeãs. Era muito time bom, era só clássico.

Terra - Quais os grandes times que você enfrentou?
Zico - Acho que Atlético-MG e Grêmio, né? O Grêmio também era uma paulada, era um timaço, forte. O Atlético-MG tinha Luisinho, Cerezo, Reinaldo, Éder, João Leite... O Grêmio tinha Paulo Roberto, De León, Leão, Renato, Paulo Isidoro, Batista, Baltazar... Era muita fera. Corinthians tinha Sócrates, Casagrande, Zenon, Wladimir. São Paulo tinha Valdir Peres, Oscar, Daryo Pereira, Renato, Serginho, Zé Sérgio, Mário Sérgio.

Terra - Além da qualidade técnica, o que diferenciava aquele time do Flamengo?
Zico - Era um time com qualidade técnica maravilhosa, de todos. Era um time altamente solidário, altamente profissional. Era um time que ambicionava vitória. A gente queria jogar, estar dentro do campo. A gente queria estar juntos, seja nos treinos, seja nos jogos. Então, a gente formou um grupo muito forte. Alguns jogadores que desvirtuavam daquela filosofia, não davam certo. E eram bons, podiam ser bons, mas tinham que entrar naquela filosofia. A gente se divertia, brincava no momento que tinha que fazer isso, mas na hora do sério, era sério. Acho que essa era a grande diferença, de ter jogadores que eram bons, se cuidando, dentro e fora do campo. E sabíamos que éramos o alvo também. Todo mundo queria bater na gente. Se não estivéssemos bem preparados...

Terra - Qual foi o título mais marcante?
Zico - O Estadual de 1978, com o gol do Rondinelli, foi marcante. Ali nossa geração estava com aquele ponto de interrogação. Ganhamos 74, alguns jogaram, mas depois, não conseguimos nem chegar em final. Aquele título deu a segurança para todos nós de que realmente tínhamos valor. Esse foi um título muito importante, de muita recordação, da forma como ele aconteceu. Um ano antes, tínhamos perdido da mesma forma para o Vasco, nos pênaltis.

O da Libertadores, da mesma forma, que foi a questão da violência que a gente sofreu, das dificuldades das viagens, contra tudo e contra todos, e a gente foi superando todo mundo. Acho que aquela foi a vitória da arte contra a violência. E o de 87, a Copa União, que a gente enfrentou uma série de dificuldades. Muitos criticavam, diziam que a base já estava envelhecida, que não ia dar mais caldo.

Terra - Aquele título teve um sabor de resposta, de volta por cima, após a Copa de 1986, na qual você foi muito criticado?
Zico - Não tinha isso, acho que era questão de que, com os anos passando e os problemas acontecendo, eu vinha de uma cirurgia realmente grande, e aquela incógnita de voltar a jogar bem era normal que acontecesse. Nunca um jogador tinha feito a cirurgia que eu fiz. Então, aquele título teve um sabor especial por isso. Depois daquele jogo contra o Santa Cruz (última rodada da fase de classificação da Copa União), quando eu fiz os três gols, eu fui comemorar o terceiro gol e arrebentei os pontos do joelho. Aquilo ali fez com que meu joelho inchasse no segundo tempo nos quatro jogos seguintes. Depois da final, tive que operar de novo para tirar os pontos. O médico tinha me dito que se eu tirasse os meniscos, a possibilidade de parar seria grande. Então, ele ia dar ponto, suturar, mas eu tinha que tomar cuidado de não jogar o peso do corpo todo para a perna esquerda. Então, não comemorava mais saltando, não fazia exercício de salto. Procurei evitar uma série de coisas. E naquele gol, a empolgação foi tanta que caí em cima do joelho.

Terra - Quando você teve o joelho machucado, após a entrada do zagueiro Marcio Nunes, do Bangu, o que passou pela sua cabeça naquele momento? Sentia dor, decepção, você sentiu que era realmente muito grave?
Zico - Eu senti que era grave, porque quando todo mundo veio falar comigo, preocupados porque tinham visto as marcas na minha canela, o médico veio querendo saber se eu tinha quebrado a perna. Eu disse que o problema era no joelho que tinha rompido porque quando ele me atingiu, a perna rodou e o joelho torceu. A dor foi mais no joelho, e eu fiquei com a perna dormente porque as travas da chuteira dele romperam minha caneleira, e ficaram as marcas nas minhas canelas. E eu jogava de caneleira. Foi muito forte.

Terra - Se não fosse esse problema, você teria jogado mais tempo no Brasil?
Zico - Eu poderia jogar até 40 anos tranquilamente, aqui no Brasil. Não teria, talvez, ido para o Japão. Talvez não tivesse sido secretário de esportes. Deus escreve certo por linhas tortas. Aqui, pelo que sempre pude fazer, pelo que me cuidei, teria condições de jogar. O que poderia acontecer eram problemas de contusão, que acabaram me fazendo parar de jogar. Depois da contusão no joelho foi que eu tive os piores problemas musculares. Minha musculatura ficou um pouco desequilibrada. Passei a ter problema de panturrilha, que não tinha. Também adutor, posterior de coxa. Isso tudo foi afetado. Foi quando resolvi parar. Sempre gostei muito de treinar, ir a campo, mas jogava três jogos e machucava. Já estava de saco cheio daquilo.

Terra - A ida para o Japão acabou se transformando em um marco na sua carreira. Você tinha noção do que iria encontrar lá?
Zico - Eu pude jogar tranquilamente lá porque não tinha responsabilidade e nem pressão de jogar. Jogava por jogar. Minha ida para lá, pensei que fosse fazer mais as coisas fora do campo. Aí me disseram que iria jogar. Era segunda divisão, e só subiríamos se chegássemos em 1º ou 2º lugar. Aos poucos, fui moldando até mesmo os japoneses. Muitos que jogaram não queriam ficar no campo, queriam voltar para a fábrica. Metade do time continuou trabalhando, metade quis ser profissional. Deu para jogar, pude mostrar mais para os que viraram profissionais. Fui treinador, preparador de goleiros, roupeiro, massagista, fiz de tudo um pouco. Orientei tudo. Só tinha uniforme para o jogo. Cada um levava o seu, a gente que lavava a nossa roupa. Aí comecei a organizar tudo, a fazer com quê a gente começasse a pensar como era profissionalmente.

Acabamos em 2º lugar, eu fui o artilheiro da competição, e tudo se transformou. Veio o profissionalismo, e o Kashima já ficou entre os quatro finalistas no primeiro campeonato. Daí, Kashima passou a ser referência. Vieram título e títulos, e as outras equipes copiavam o que a gente fazia. O Japão cresceu, e hoje é o que é na Ásia.

Terra - Como você avalia sua passagem pela política? Se arrepende de ter sido secretário de Esportes no Governo Collor?
Zico - De maneira nenhuma, não me arrependo. Assumi e assumiria novamente aquele cargo. Como presidente de sindicato, sempre participei dos movimentos dos atletas. Achava que poderia fazer alguma coisa, e acho que fiz. Deixei um projeto de lei pronto para o desenvolvimento do esporte brasileiro. A partir dali, quando foi aprovado, o esporte deu outra guinada. O futebol não precisava de tantas modificações, acho que precisava era de uma modificação na cúpula, nas eleições das entidades, na criação das ligas. Então, isso tudo foi rediscutido, colocado em prática, e o esporte deu uma guinada. O Collor me deu toda a liberdade. Quando criei o projeto, a gente discutiu duas horas. Todo o projeto ele conhecia a fundo, porque ele tinha sido presidente de clube. Não tive nenhum problema, ele me deixou à vontade, com carta branca para fazer.

Só que quando o projeto ficou pronto, que encaminhamos para ele, para ser levado ao Congresso, batia um pouco de frente com o curral do Norte e Nordeste, com as federações, com aquela coisa, porque diminuía o poder das federações. E muita gente lá o apoiou. Então, aquele negócio ficou engavetado, um, dois meses. Então, pedi para falar com o presidente. E começaram a não deixar que eu falasse diretamente com o Collor. Engavetaram e não tinham falado com ele. Quando fui falar com ele, uns 20 dias para conseguir audiência, coisa que conseguia toda semana, Já fui com a demissão. Ele ficou assustado. Expliquei que estava tudo engavetado. Dei dez dias, e tudo foi agilizado. Mas não tinha mais volta, já tinha decidido sair. Ele me deu respaldo o tempo todo. Não tenho nenhum problema, nenhuma tristeza, de dizer que fui secretário dele. Ele foi um bom presidente na minha área, deixou fazer meu trabalho.

Terra - Do que você mais se orgulha de ter construído, no campo profissional?
Zico - O respeito da minha classe, os profissionais da minha área. Sou sempre citado pela maioria deles. É o maior legado que você pode deixar. Ter o respeito da geração que jogou contigo, das gerações que vieram depois, que te tem como exemplo, referência, estou sempre sendo citado. É uma coisa espontânea, que vem de dentro dos caras mesmo. Isso mostra que a forma que eu me dediquei, os dias que me entreguei à profissão, valeram a pena.
Zico ao lado da ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Ele fez parte da recente vida política do time rubro-negro Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press Zico ao lado da ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Ele fez parte da recente vida política do time rubro-negro Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press

Terra - O que você teria feito diferente?
Zico - Depois que se sabe o resultado, é fácil. As atitudes que eu tomei em cada momento, sempre fiz achando que era o melhor. Não teve nada que aconteceu que eu pudesse me arrepender bastante. Houve desilusões com algumas pessoas, mas isso é normal, em qualquer área acontece.

Terra - Falando em desilusões, houve sua passagem recente como dirigente do Flamengo, que logo foi abortada. Você se arrepende de ter aceitado o cargo?
Zico - Não, porque eu conheci a Patricia ainda atleta do Flamengo. Ajudei muito os atletas da natação, a gente passava rifas para eles, para ajudá-los. E quando se vê um atleta, não importa a modalidade, na presidência, você torce para que dê certo, porque eu sou um ex-atleta. Acho que é importante um atleta comandar alguma coisa, um clube, uma entidade, é legal. Por isso, achei que poderia dar uma ajuda.

Não fui feliz, mas por exemplo, fiquei conhecendo e tendo a certeza de que não devo ter cargo oficial nenhum no Flamengo. Não participo de mais nada no Flamengo. A não ser usando minha imagem.

Terra - Assumir a presidência, você não tem esse desejo?
Zico - Não, não, nada de cargo.

Terra - Você ficou desiludido na época, você se afastou do clube...
Zico - Pela forma como aconteceu. Foi permitido que eu fosse chamado de desonesto, que eu estava me beneficiando com o Flamengo, com a parceria com o CFZ, que meus filhos estavam ganhando dinheiro em transações de jogadores. Poxa, a gente tem uma história, tem um nome. Você não pode ser acusado assim pela imprensa. O que me deixou mais chateado foi a imprensa, porque o cara deu uma entrevista coletiva lá no Flamengo, e todo mundo colocou o que ele falou. E na hora que eu coloquei na justiça para ele dizer o que tinha falado lá, ele desmentiu tudo e disse que a imprensa deturpou. E não teve ninguém da imprensa que contestou isso dele. Isso que me deixou mais irritado. Tem gente que tem interesse ainda, porque enquanto ele tiver cargo, ele vai ter voz. Depois que ele não tiver cargo, ninguém vai atrás. Tem gente que usufrui do cargo que ele tem para pegar algumas notícias em primeira mão.

Terra - Na Seleção, faltou conquistar uma Copa do Mundo?
Zico - Acho que não. Eu queria ter ganho, mas o que vou fazer? Muitos aí queriam ter ganho, mas se Deus não quis, o que vou fazer? Eu joguei para ganhar. Não é algo que me incomode. Ganhar ou perder faz parte da competição. Se eu não jogar, é outra coisa. Imagina eu, com minha história, não ter sido convocado para uma Copa do Mundo, tudo bem. Agora, eu tive todas as chances. Não deu, não foi possível, paciência. O que vai se fazer disso? Vou deixar de seguir meu caminho por causa disso? Não, especialmente porque não faltou dedicação e empenho para que eu vencesse.

Terra - Pelo favoritismo do time, a Copa de 1982 acabou sendo uma grande decepção. Foi a maior da sua carreira?
Zico - Era um time que todos gostavam de ver jogar. É lógico que a possibilidade de vir vitória era muito grande. Só que numa Copa do Mundo, os jogos mata-mata são diferentes. Muitas vezes se são jogados campeonatos seguidos, a possibilidade de um time não ser campeão era baixa. Mas jogar mata-mata num dia em que as coisas não dão certo, você pode ser eliminado. E foi o que aconteceu. Naquele dia, a gente não jogou bem, a Itália aproveitou melhor as chances e venceu o jogo.

Terra - E em 86, teve o sacrifício pela contusão, a ida em condições clínicas longe do ideal. Teria feito diferente?
Zico - Eu deveria ter seguido a "luzinha" que batia na minha cabeça, que pediu duas vezes para não ir. Mas é o tal negócio, você está envolvido, e jogar uma Copa é o que todo jogador quer. Eu via que, com todo o esforço que estava fazendo, se eu jogasse, o meu rendimento não caía. Mas era um jogador de risco. Era aquele negócio de jogar com uma bomba-relógio no joelho, e ela poder explodir. Eu tinha uma lesão, não é que era uma coisa simples. Eu não tinha o ligamento cruzado. Então, tinha que ter uma musculatura forte para não desequilibrar. E aí, aconteceu ainda o que aconteceu.

Acordar seis horas da manhã, sair na ponta do pé para não acordar seu companheiro, fazer três horas de musculação no dia do jogo. Poxa, não era fácil...Ter que fazer aquilo todo dia, não era brincadeira.

Terra - E o pênalti perdido acabou ficando marcado. Foi a decisão correta ir lá e bater?
Zico - O pênalti é uma jogada de gol. É como um frango, um escorregão, uma falha. E o Brasil não perdeu por causa do pênalti. O jogo foi empate. Depois teve a disputa. Essas coisas estão escritas, sei lá...

Terra - Como será o Zico após os 60 anos. Mais afastado do futebol profissional? Você não pensa em voltar a ser treinador?
Zico - Sou comentarista, tenho meu programa, o projeto da escola Zico 10, que está no Brasil inteiro. Só aqui no Rio estamos com 12 mil crianças. São 40 mil crianças em 25 estados. Para a criança estar no núcleo, tem que estar estudando, com notas boas, com frequência. Pretendo me dedicar a isso, fazendo visitas a cidades que têm núcleos. Tenho sido requisitado para muitas palestras. Pretendo ficar por aqui. Se surgir alguma coisa, muito boa, em um grande centro, para poder me motivar a voltar a trabalhar, quem sabe... Não quero mais aquele tipo de situação que foi nos últimos anos.

Terra - Em algum momento de sua carreira, pensou em sair do Flamengo, fazer carreira em outro lugar?
Zico - Nunca pensei em sair do Flamengo. Nem para a Udinese. O Milan veio antes, mas fez uma proposta para a imprensa, e outra para mim e para o Flamengo. E naquela época tinha o passe, você ficava preso. Você ia embora se o clube quisesse. Era diferente. Nunca tive nenhum problema de renovação de contrato com o Flamengo, se era muito, se era pouco. A gente chegava a um acordo, e ficava todo mundo feliz.

Terra - O que o Flamengo significa para você?
Zico - O Flamengo sempre foi a minha segunda casa. Depois da minha casa, era o lugar que eu mais me sentia feliz. Meu time de coração, que aprendi a gostar graças ao amor do meu pai ao Flamengo. Ele era um torcedor apaixonado. Cada filho que nascia, ele dava um uniforme completo. Ter o prazer de poder participar das maiores conquistas do Flamengo num período foi a coisa mais importante da minha vida. Quando perguntam sobre o que queria que acontecesse na minha vida, eu só respondo que queria jogar com a camisa 10 do Dida. Meu ídolo e ídolo da minha família. E Deus foi generoso comigo porque me deu logo essa camisa quando comecei a carreira. Dignifiquei e honrei a camisa do Flamengo como jogador e como torcedor.

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