Mesmo tanto tempo depois da libertação dos escravos em 1888, o tema ainda gera polêmica no Brasil. Na época, conta a história, que a princesa Isabel teria cogitado a possibilidade de distribuir terras públicas entre os escravos, mas seus consultores pessoais a teriam desaconselhado.
Pois 120 anos depois, segundo publicou o jornal "O Estado de São Paulo", Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, que foi quem assinou a abolição da escravidão segue a linha inversa da bisavó famosa e é um dos mais ferrenhos críticos à reforma agrária para famílias quilombolas. (Veja o blog do "monarca")
Dom Bertrand ou o " príncipe" do Brasil, tem 67 anos disse ao jornal paulista que o verdadeiro objetivo do movimento negro não é a terra, mas a subversão da ordem: "O alvo desses grupos que falam em distribuição de terra, sejam eles sem-terra ou quilombolas, é o comunismo. Em todos os países onde o comunismo se implantou, o primeiro passo foi a bandeira da reforma agrária, com a conseqüente queda na produção agrícola e o caos no abastecimento de alimentos, caldo de cultura ideal para a revolução. Foi assim em Cuba, União Soviética, China, Hungria..."
O senhor foi descrito pelo jornal como uma pessoa de "pele muito branca, olhos claros e traços finos de europeu - a mãe era alemã. Magro, porte ereto, parece muito bem para a idade". Ele nunca casou e mora em um casarão alugado, em Perdizes, bairro residencial da zona oeste de São Paulo. Católico fervoroso, reza o terço todos os dias, além de ir à missa e comungar.
Na casa do "príncipe", podem ser encontrados brasões, retratos, bustos e estatuetas que decoram a casa, destacam-se imagens de Nossa Senhora de Fátima - a Virgem que apareceu para as três crianças portuguesas em 1917, o ano da revolução bolchevique na Rússia, e tornou-se a grande devoção dos anticomunistas em todo o mundo.
Querendo ser rei
Como não poderia deixar de ser, o "príncipe" defende a volta da monarquia e o fim do comunismo, proferindo inclusive palestras sobre o tema. Na conversa com o repórter, numa sala de janelas fechadas e iluminada por abajures, apesar do dia ensolarado lá fora, d. Bertrand senta-se ao lado de uma gravura de sua tetravó, a imperatriz Teresa Cristina. Não há na sala nenhuma referência à princesa Isabel - cujo principal feito, a assinatura da Lei Áurea, nem é muito valorizado pelo bisneto: "Quando houve a libertação, o número de escravos já era muito pequeno. A grande maioria tinha sido libertada e assimilada pela sociedade."
O detalhe da assimilação é importante. Sinaliza a sua aversão às reivindicações dos movimentos negros: "Querem trazer para o Brasil uma questão racial que nunca existiu por aqui. Nossa grande vantagem histórica é justamente a miscigenação racial."
Ele é adepto da tese de que a monarquia começou a desmoronar após a Lei Áurea - quando perdeu o apoio dos donos de escravos. Recorda o vaticínio do Barão de Cotegipe à princesa, após ela ter assinado a lei: "Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono." Um segundo depois, porém, ele acrescenta, a favor da bisavó, que a caminho do exílio lembrou a frase do barão e disse: "Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil."
Era uma boa alma, segundo o bisneto, que lamenta vê-la substituída no panteão dos heróis do movimento negro por Zumbi - no que considera mais uma tática marxista para estimular o conflito de classes.
D. Bertrand nasceu na França e, aos 4 anos, veio para o Brasil com a família - que se apresenta como o único ramo dinástico com direito ao trono, no caso da restauração da monarquia brasileira. Pela tese, ele é o segundo na ordem de sucessão, daí ser chamado de príncipe. O chefe da casa imperial é seu irmão, Luiz, de 69 anos.
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