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MEMÓRIA VIVA

Benzedeira impediu mortes de policiais e previu prefeita de Dourados

09 dezembro 2015 - 07h47

Benzedeira, “rezadeira”, conselheira, comerciante, pioneira, envolvida com a política, profunda conhecedora da história da nossa gente. O jeito como a enxerga não importa tanto assim, afinal difícil mesmo é resumir em apenas uma ou outra palavra o que representa Ercília de Oliveira Pompeu na vida de muitos e para a história de Dourados. É sobre alguns dos feitos dela que nem todos conhecem esta reportagem da série “Memória Viva”, que o Dourados News publica em comemoração aos 80 anos da cidade.

Considerada uma mulher iluminada, que transmitia paz e sentimentos bons, a pioneira que faleceu em 2008 é ícone da cidade até hoje, deixou saudade, histórias e até feitos que muitos imaginam, mas nem todo mundo conhece. Era comum para muitas famílias visitar a dona Ercília para pedir bênçãos ou orações, por exemplo.

Então, em casa, com os filhos, isso não faltava também. Um deles é Oduvaldo de Oliveira Pompeu, 68, ex-delegado que ganhou o apelido de “Telê” ainda jovem, quando jogava bola na Leda. Telê não ia à delegacia sem passar para tomar café com a mãe e receber as suas bênçãos para o dia de trabalho.

“Na minha carreira policial, eu não fazia nada sem comunicar ela, me tirou de muito problema sério”, relata Oduvaldo. Ele conta que mesmo trabalhando em cidades onde a mãe não estava perto, seguia os conselhos que dava, ainda que por telefone. Bastava a mãe falar “meu filho, não estou vendo coisa boa”, que ele abortava a missão já planejada. Depois ele analisava, investigava e sempre que a mãe alertava tinha algum problema.

Os conselhos e as visões da mãe impediram até mortes. Quando Oduvaldo era delegado do DOF (Departamento de Operações de Fronteira), uma ação com destino à Coronel Sapucaia estava preparada, com pelo menos 100 homens prontos para sair com destino à fronteira.

Então dona Ercília chamou o filho para fazer a oração antes de seguir à missão, entre três ou quatro horas da madrugada. Ela viu que a coisa não estava boa. Então, antes da equipe seguir, Telê foi até o comandante do DOF, na época o coronel Júlio César Komiyama, e disse “você conhece a mãe, ela falou que a coisa não está muito boa por lá”.

Eles decidiram abortar a missão e depois de duas semanas constataram que dona Ercília estava certa, mais uma vez. Os policiais descobriram que tinha vazado a informação de que estavam indo para lá. “Alguém passou essa informação para eles [bandidos] e estavam nos esperando armados lá”, conta. Era uma emboscada para a polícia, que iria gerar “um confronto grande e poderia ter morte”.

Três semanas depois, os policiais foram até o local e na ‘manha’ conseguiram pegar os bandidos. A acusação contra eles era de tráfico de drogas, na época integrantes da “turma” do Fernandinho Beira-mar, considerado um dos maiores traficantes do Brasil.

E A PREFEITA?

A visões de dona Ercília não ficavam restritas à vida dos filhos. Uma história curiosa foi a previsão que fez sobre a política douradense. Tudo aconteceu um mês antes da eleição de 2008, que daria a Délia Razuk (PMDB) o primeiro mandato como vereadora.

Em campanha, Délia foi até a casa de dona Ercília para fazer uma visita, pedir as bênçãos e a ajuda da pioneira em sua primeira investida na política. “Fui lá para agradecer a ela, pedir para que me ajudasse com as amigas a pedir votos para minha campanha de vereadora”, relatou.

Ao receber o pedido, dona Ercília foi enfática: “você vai ser prefeita”. Délia achando que a idosa, já no auge de seus 90 anos, não havia entendido que o cargo para o qual concorria era de vereadora, reforçou “agora não é para prefeita, é para vereadora”. Dona Ercília insistiu “não minha filha, eu estou falando que você vai ser prefeita”. Délia e Ercília repetiram o diálogo pelo menos por umas três vezes e a então candidata foi embora da casa achando que Ercília estava confundindo os cargos.

Vereadora Délia Razuk foi prefeita de Dourados por quatro meses (Foto: Divulgação)

Em 2010, quando o prefeito, o vice e quase toda a Câmara de Vereadores de Dourados foi parar na cadeia em decorrência da Operação Uragano desencadeada pela Polícia Federal, quem se tornou presidente da Casa de Leis e consequentemente assumiu o papel de prefeita foi justamente Délia Razuk, [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/arquivo/em-cerimonia-concorrida-delia-razuk-assume-a-prefeitura-d5249312f1e0a67093e4dcc718023710). “Eu até já tinha vontade de ser prefeita, mas achei que primeiro seria vereadora por um tempo, que iria me candidatar à prefeita depois. Não imaginei que fosse tão rápido e nessas condições”, relata. Ela ficou à frente da prefeitura de outubro de 2010 a fevereiro de 2011.

Foi nisso que ela percebeu que dona Ercília não estava confusa, ela fez uma previsão e estava tentando convencer Délia, por isso a insistência. “Ela previu muita coisa para muita gente. Ela tinha esse dom da visão, era cheia do espírito santo, uma pessoa extremamente iluminada”, conta a vereadora que hoje está em seu segundo mandato no legislativo douradense.

ELA JÁ SE FOI

Ercília Pompeu nasceu em Rio Brilhante no dia 18 de julho de 1.918, mas praticamente toda sua vida foi em Dourados. Veio para o município em 16 de janeiro de 1.919 para morar com o avô João Rosa Góes. Foi uma das fundadoras do Lar Santa Rita; comerciante; ajudou na construção de igrejas, inclusive da Catedral Imaculada Conceição, arrecadando fundos; ensinou catecismo a crianças e muitos outros feitos.

Ela morreu em Dourados, aos 90 anos de idade, em novembro de 2008. Logo após sua morte, o Dourados News homenageou a pioneira relembrando uma entrevista especial que concedeu em 2006, alusiva ao aniversário de Dourados. Muito envolvida com a política douradense, ela fez duras críticas, [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/arquivo/homenagem-entrevista-de-ercilia-pompeu-ao-dourados-news-be235fe6960e9cdc2e925af64206051e).

Em sua vida, Ercília ainda contribui para o registro da história de Dourados. Em 1.965 ela ganhou o primeiro lugar no concurso de monografias com a obra “Monografia do Município de Dourados”, materializando nas palavras sua vivência e a de outros pioneiros que consultou. A monografia em 1985 foi datilografada e encadernada pela Secretaria de Educação. No ano passado foi publicada e lançada em livro, [relembre aqui](http://www.douradosnews.com.br/cultura-lazer/obra-que-revela-parte-da-historia-de-dourados-e-publicada-49-anos-apos-ser-escrita).

Monografia escrita por Ercília Pompeu foi publicada em livro no ano passado (Foto: Arquivo/Ademir Almeida)

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