Meu avô tinha um sítio no Estado de São Paulo e dentre as atividades que desenvolvia naquela pequena propriedade rural, estava a produção de leite. Tirado o leite, meu tio, o Braguinha, entregava na cidade, diariamente, montado numa egüinha pacata, uma verdadeira “dama pangaré”, que atendia pelo lindo nome de “Florica”.
O Braguinha que gineteava a égua para a entrega do leite, queria morrer, todo dia, quando era acordado por minha avó muito cedo, para ajudar a tirar o leite e providenciar a entrega na cidade. Amaldiçoava aquela vida “dura” que levava: dormir tarde sem necessidade e ter que levantar cedo por precisão. De resto sua vida ia bem, era jovem saudável, tinha uma namorada lá pelos lados do Córrego Azul, a qual via todos os sábados. Era feliz e não sabia. Nunca reclamou das caminhadas de cinco quilômetros que fazia todos os sábados, para ver sua amada. Na volta eram mais cinco quilômetros, bem entendido.
Contava o Braguinha, que num sábado, já quase meia noite, quando voltava da casa da nomorada como sempre fazia, a pé, noite de luar, quando a estrada, coberta por areia branca, parecia que tinha uma cobertura de neve, o que fazia a claridade da lua cheia ser mais intensa, e com essa claridade vislumbrou, a uma certa distância, um animal que vinha ao seu encontro. Era bem maior que um cachorro dos grandes, porém menor que um cavalo ou uma vaca. Também não era um bezerro, porque seu movimento ao andar, se não combinava com o trote do cachorro, também não tinha nenhuma semelhança com o andar de um bovino ou eqüino. Movia-se, o animal – se é que era um animal -- , com um misto do andar humano (quando se posiciona com as mãos no chão) e do andar de um outro ser indefinido, o que tornava sua locomoção um movimento estranho e assustador. “—Cismei com aquela coisa que vinha em minha direção!” disse o Braguinha. Ato contínuo sacou de uma garrucha que trazia na cintura e quase sem perceber subiu o barranco com quase quatro metros de altura e,de lá de cima, viu “a coisa” passar. Durante toda sua vida, até o dia em que morreu, o Braguinha, quando referia-se àquele acontecimento era peremptório: “—Se existe lobisomem, aquilo era um, nunca tive dúvida!”.E “a coisa” (continuava ele), seguiu sua viagem num trote que não era trote e num andar que não era andar. Morrendo de medo, arrepiado, esperou um tempo até que o “bicho” desaparecesse ao longe no caminho, para descer o barranco e apressar o passo até sua casa que ainda estava distante uns dois quilômetros, olhando sempre para trás para certificar-se de que “a coisa” tinha, efetivamente, seguido em frente. Chegou em casa ofegante, e nem bem tinha deitado e ali estava sua mãe, minha avó, acordando-o para a lide com as vacas e a conseqüente entrega do leite na cidade. Rolou para fora da cama renegando aquela vida “dura que judiava da sua juventude”.
Ordenhadas as vacas, arreou a “Florica”, enfiou dez litros de leite de cada lado dos arreios, num tipo de alforje feito com tecido grosso, montou a prestimosa egüinha e partiu para a cidade, cochilando. Era manhã de domingo, dia subseqüente ao encontro que tivera com a tal “coisa” na estrada, quando voltava da casa da namorada. Domingo de sol forte e o dia prometia ser bastante quente. Lá se foi o Braguinha ao encontro dos fregueses para a entrega do leite, meio dormindo e meio acordado.
Sem dificuldade chegou até a cidade com a ajuda da egüinha que conhecia bem o caminho, acostumada que estava a fazer aquele percurso todos os dias. No momento em que entrava na cidade montado na sua egüinha, não longe dali, o treinador dos elefantes de um circo que tinha chegado na cidade levava, dois dos grandes, para tomarem banho no Córrego dos Patos, sendo que o trajeto que demandava o Córrego era o mesmo que o Braguinha fazia para a entrega do leite. Ao virar a segunda esquina, a Florica, que estava bem acordada, deu de cara com os paquidermes, bichos que ela, uma egüinha já adulta de vida simples e recatada, nem imaginava que existisse. Foi um susto medonho, virou cavalo de rodeio, com dois pinotes dignos de campeão, jogou o Braguinha no chão e partiu, louca, apavorada, sem rumo, buscando distanciar-se, rapidamente, daqueles bichões narigudos. Enquanto a Florica era pura adrenalina, o cavaleiro demorou algum tempo para entender o que estava acontecendo, entorpecido que estava pelo sono atrasado.
Quando, finalmente, o Braguinha pode entender o que acontecera, deu-se conta de que estava no chão e a égua tinha sumido. Mais alguns minutos e, então, lembrou-se do leite, coçou a cabeça, levantou-se e encostado na parede de uma venda limpou a areia da roupa e foi, trôpego, atrás da Florica... e do leite que ela levava.
Encontrou, finalmente, a egüinha bem longe do local do “sinistro”, com todos os litros de leite quebrados e se ela pudesse falar, certamente diria: ”—Eu, heim?”
Bem, concluiu o Braguinha: “—Ontem foi o meu lobisomem, hoje foi o dela!.”
Advogado detentor da medalha advogado Heitor Medeiros outorgada pela OAB/MS;
Diploma de Mérito Ambiental;
Diploma de Mérito Militar;
Diploma de mérito Maçônico;
Cidadão Douradense;
Ex Procurador Regional do Estado/MS;
Ex Advogado-Geral do Município – Dourados/MS;
Gaúcho titulado; josealbertovasco@yahoo.com.br
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