A oração da Ave Maria diz: “rogai por nós os pecadores”. Com todo respeito, eu faço uma paródia: “Rogai por nós, os trouxas”. Porque é exatamente o que nós, povo brasileiro somos em relação à Copa de 2014: uns trouxas e com um detalhe: os trouxas que vão pagar a conta.
Sabe qual a estimativa de custo do Rock In Rio IV, evento que reunirá mais de 100 atrações musicais (Elton John, Metálica, Stevie Wonder, Shakira, Coldplay, Guns N’Roses, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Skank, Jota Quest, Detonautas, Capital Inicial, etc) durante sete dias? R$ 100 milhões. Custo por dia: pouco mais de R$ 14 milhões.
Sabe quanto vai custar à cerimônia de sorteio das eliminatórias da Copa de 2014, a ser realizada neste sábado (30), no Rio de Janeiro, e que terá a duração de pouco menos de 3 horas, além de alguns eventos paralelos no decorrer da semana? R$ 30 milhões. Pagos, lógico, com dinheiro público.
O Rock In Rio vai reunir alguns dos maiores nomes da música brasileira e internacional. Ocupará uma área de 150 mil metros quadrados, terá um público estimado em mais de 700 mil pessoas. E é democrático, pois qualquer um, desde que tenha o dinheiro para o ingresso, pode entrar. Em resumo: até quem recebe Bolsa Família ou aposentadoria do INSS pode ir.
E o sorteio da Copa de 2014? Reunirá cerca de 2 mil pessoas, cujo acesso só se dar por convite. É só bacanas, gente de alto pedigree, endinheirados do mundo esportivo, da mídia e claro: da política e do setor da construção civil. Beneficiário do bolsa família e aposentado do INSS não vai passar nem perto.
Somos ou não uns trouxas?
Sabe quem é a diretora Executiva do Comitê Organizador Local (COL) da Copa 2014, responsável pela organização do sorteio de sábado? Joana Havelange. Ninguém menos, ninguém mais do que a filha de Ricardo Teixeira, presidente da CBF e o homem mais poderoso do Brasil, pois qualquer um que tivesse 10% das acusações de corrupção que pesam contra este senhor estaria na cadeia faz tempo.
Somos ou não uns trouxas?
Num país onde se desviam as migalhas da merenda escolar, surrupiam a merreca do bolsa família e “passam a mão” na miséria da aposentadoria paga a maioria dos brasileiros (nem todo mundo é funcionário público), dá para imaginar o que vão fazer com os bilhões e bilhões de reais que serão investidos na Copa de 2014.
O Brasil é corrupto de mais para organizar um evento da magnitude da Copa do Mundo. O Brasil é corrupto de mais para se organizar um evento como as Olimpíadas, que virão em 2016. O Brasil é corrupto de mais para se fazer qualquer coisa que envolva dinheiro público.
Ah! Mas os corruptos são a minoria! Dirão os defensores de plantão (aqueles que recebem o sagrado jabazinho de todo mês, que vem a ser a propina paga aos jornalistas corruptos), fazendo-se valerem de um discurso politicamente correto, onde se admite a culpa (para fazer moral), mas tenta-se jogá-la para uma minoria.
Conversa! Lamentavelmente, os corruptos no Brasil são a maioria! Se inventasse uma máquina para detectar corruptos, poucos políticos e gestores passariam no teste. A corrupção no Brasil é endêmica. Está enraizada. É a maior praga deste país. Brasília é um grande balcão de negócios, sendo o Congresso um verdadeiro escritório de “compra e venda”, enquanto o governo, via ministérios, departamentos e autarquias, paga as faturas.
Meu Deus! Olhai por nós, porque seus filhos que deveriam olhar só olham para os extratos bancários, para as mansões que vão comprar e para as prostitutas de luxo que vão levar para a cama em orgias regadas a champagne de qualidade ímpar, uísque (com “u” mesmo) dos melhores anos e petiscando um saboroso caviar, tudo pago às custas dos trouxas.
Esta aí o caso do Dnit e do Ministério dos Transportes, atolados em denúncias de corrupção. Claro! Pagot, Alfredo Nascimento, Juquinha, tudo inocente (o Cortez da novela Insensato Coração, também!). Tudo “vítima” de armações políticas, de “adversários políticos”, daqueles que “tiveram interesses contrariados”.
Os mais de 40 mensaleiros denunciados à Justiça também se dizem inocentes. E já faz anos que esta história do mensalão está rolando, isso sem contar o escândalo dos sanguessugas. Mas uma coisa é certa: todos são filhos da mesma impunidade que campeia este país, que beneficia membros do Executivo, Legislativo e Judiciário e pune, exemplarmente, o ladrão de galinha.
Somos ou não uns trouxas?
Se a presidente Dilma Roussef tiver a mesma determinação para combater a corrupção nas obras e organização da Copa de 2014 (ainda dá tempo) que tem demonstrado para estancar a sangria no Dnit e no Ministério dos Transportes, eu não terei (se estiver vivo) o trabalho e o imenso desprazer de escrever um artigo intitulado: NÓS, OS TROUXAS, JÁ SABÍAMOS!
Agnello de Mello e Silva é diretor Executivo do DIAADIA e consultor em marketing político
Deixe seu Comentário
Leia Também
Cidadania abre seleção para analista com salário de até R$ 5,5 mil

Identificado motociclista que morreu em acidente na rodovia MS-080
STJ decide afastar ministro após acusação de importunação sexual

Uma igreja como nunca se viu

Nelsinho Trad conduz debate do acordo Mercosul-União Europeia e quer garantir benefícios para MS

Idoso de 71 anos segue desaparecido em Dourados

Levantamento identifica 173 vítimas de deepfakes sexuais em escolas

Homem é preso por descumprir medida protetiva e furtar familiares para comprar drogas

Mato Grosso do Sul abre 1.254 novas empresas em janeiro e mantém ritmo positivo de crescimento

Filho é preso por descumprir medidas protetivas e ameaçar a própria mãe idosa
Mais Lidas

Acusado de série de furtos, 'Microfone' ganha liberdade sem passar por audiência de custódia

Autoridades divergem sobre cobrança de tarifa de água após implantação de rede nas aldeias

Com sensação térmica nas alturas, Dourados entra em alerta de chuvas intensas
