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Leia o artigo "A odisséia gaúcha" por Odila Lange

18 setembro 2011 - 10h13

É com grande satisfação que me dirijo a vocês hoje, gaúchos, gaúchas e sul-mato-grossenses para falar sobre a Semana Farroupilha, o mais longo conflito armado do país e ouso usar as palavras do grande poeta Grego, Homero, para designar esta façanha. Homero, em seu poema épico “Odisséia”, relatou as aventuras de Ulisses na Guerra de Tróia e eu agora, quero relatar alguns acontecimentos que levaram os gaúchos a entrarem neste combate sangrento contra o Império em busca de uma identidade e defendendo seus ideais de liberdade.

A Revolução Farroupilha, não foi premeditada e nem planejada, pois quando houve a tomada de Porto Alegre, pela elite gaúcha, a idéia era apenas “dar um susto”, pressionar o governo central, o movimento não tinha nenhum caráter separatista, não havia nem a idéia de que era o inicio de um movimento militar.

A região do atual estado do Rio Grande do Sul, localizava-se, originalmente em” terras de Espanha”, e não na América Portuguesa, desde o Tratado de Tordesilhas, pertencíamos à Espanha, ocupado pelas Missões Jesuíticas. O Brasil terminava em Laguna, em Santa Catarina. O estado gaúcho foi incorporado ao Brasil somente no século XVIII, oficialmente no ano de 1750, devido á relação comercial dos estancieiros com a região ourífera de Minas Gerais.

Na verdade o gaúcho forjou a sua identidade para amenizar a indefinição característica de uma região de fronteira, pois ora éramos espanhóis, ora éramos portugueses. Esta condição efêmera de nacionalidade transitória, nos obrigou à afirmação de uma personalidade própria, pois, não sabíamos até quando continuaríamos sendo espanhóis ou portugueses. E foi na Revolução Farroupilha, acontecimento histórico que foi dinamizado pelos gaúchos como uma espécie de mito fundador do estado, a nossa “Guerra de Tróia”, materializada como prova de coragem de enfrentar um Império.

No ano de 1835, o Brasil já independente, era um “Império sem Imperador”, uma “Monarquia sem Monarca”, pois Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro em 1831, deixando como sucessor o seu filho, Pedro de Alcântara, naquela ocasião, com apenas 5 anos de idade. Dom Pedro I havia outorgado uma Constituição em 1824, que centralizava todo o poder na figura do imperador e, sete anos depois, deixa o País sem imperador e mergulhado em uma profunda crise política e econômica. O Brasil foi governado então por regentes da corte do Rio de Janeiro, políticos que não tinham nenhuma projeção nacional ou representatividade fora da capital, era um poder sem legitimação de fato e, por isso, rebeliões separatistas eclodiram em todo o país.

O Rio Grande do Sul enfrentava uma grande crise financeira devido à decadência da produção charqueadora. O charque, carne seca e salgada, usada na alimentação dos escravos, era nosso principal produto. Nesse período, no entanto, o charque do Prata, do Uruguai e da argentina, chegava mais barato no centro do país do que o charque gaúcho devido às altas taxas de imposto que o Império cobrava sobre o produto, enquanto que na Argentina e no Uruguai havia uma política de favorecimento do produto pois esses países eram governados por estancieiros. A crise foi agravada por ser o Brasil nosso mercado consumidor. Éramos a única província da Nação que produzia para o mercado interno. O perfil da economia gaúcha, contrastava com o perfil da economia brasileira, agricultura de exportação.

A elite gaúcha, através da assembléia Legislativa do Estado, reivindica ao governo imperial, regido por Diogo Feijó, uma política de auxílio à produção charqueadora, pedindo a taxação do charque estrangeiro, assim o charque do Prata ficaria mais caro do que o charque gaúcho. Ante a negativa de Feijó, cresceu o sentimento de injustiça no estado. O Rio Grande do Sul acreditava ter crédito com o governo do Império pois havia sido o estado que mais contribuiu com soldados e recursos para o Exército brasileiro, durante a Guerra da Cisplatina, confronto bélico entre o Brasil e a Argentina, na disputa pelo Uruguai, dez anos antes.E em outras tantas guerras de fronteira, quando o estado gaúcho, com recursos próprios havia defendido as fronteiras do País. Neste contexto, o sentimento de injustiça tomou conta dos gaúchos e assim os estancieiros partem para uma ação militar liderada pelo General Bento Gonçalves da Silva tomando a cidade de Porto Alegre.

Como dito anteriormente, este movimento não tinha nenhum caráter separatista e Bento Gonçalves, líder dos rebeldes, chega a escrever uma carta ao governo da regência afirmando que o Rio Grande do Sul era fiel ao futuro imperador. As reivindicações, mais uma vez não foram atendidas, ao contrário, o Império ameaçou os rebeldes provocando o início de um movimento de fato.

Com o confronto bélico estabelecido, era necessário “popularizar” o movimento, torná-lo mais abrangente, pois duas dúzias de estancieiros não poderiam enfrentar o Império. Assim, novas propostas tiveram de se incorporadas ao movimento como a promessa de liberdade aos negros escravos que entrassem no Exército Farroupilha e de terras aos camponeses que combatessem na cavalaria.

Um ano após o movimento ocorre o primeiro conflito bélico, a Batalha de Seival, vencida pelos farroupilhas. Eles lutaram com laços vermelhos cobrindo o uniforme azul do Exército brasileiro, a fim de se diferenciar dos imperiais, os uniformes eram iguais, pois ambos integravam o Exército brasileiro, tanto os rebelados quanto os legalistas. Dois dias depois da batalha, em 11 de setembro de 1936, o Coronel Antônio Netto, que havia liderado a vitória, declara a separação do estado do Rio Grande do Sul, era o início da Revolução Farroupilha, pois agora o movimento de protesto ganhava caráter separatista.Estava formado um novo país, republicano, a República Rio-Grandense, ao sul da América e que sobreviveu por quase uma década.

Era também o início de uma guerra de nove anos que totalizou 70 batalhas sendo a revolta de maior duração de todo o período imperial brasileiro. Como presidente foi escolhido o general Bento Gonçalves seguindo a hierarquia militar.

O lance mais espetacular da Guerra dos Farrapos, ocorreu em 1939. O Império havia confinado os farroupilhas no pampa gaucho, ocupando todos os portos da província. Sem uma saída para o mar a República Rio-Grandense não conseguia realizar nem o comércio do charque, nem a diplomacia necessária para o reconhecimento internacional de sua independência. Os farroupilhas que já haviam tentado retomar por três vezes a cidade de Porto Alegre, recuperada pelo Império em 15 de junho de 1836, buscaram uma estratégia mais ousada e inédita em termos de revolta provinciais: tomar o porto de Laguna em santa Catarina, estendendo a revolta para outra província.A tomada de Laguna pegou o Império de surpresa. O mais espetacular, no entanto foi a construção de dois barcos “movidos a bois”. Isto mesmo! Dois lanchões , dois barcos-carretas construídos na estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento. Esses barcos postos em enormes rodas de madeiras e movidos por mais de cem juntas de bois, andaram por terra mais de cem quilômetros, da cidade de Camaquã ao rio Tramandai de onde os revoltosos partiram para Laguna. O responsável por esta façanha foi o italiano Giuseppe Garibaldi, mítico herói italiano, misto de idealista e mercenário que lutou na Revolução Farroupilha a convite de Banto Gonçalves.

Com a tomada de Laguna a república Rio-Grandense viveu o seu apogeu: tinha uma saída para o mar, uma capital estabelecida na cidade de Caçapava, um governo com seis ministérios, um jornal, uma Constituição e um serviço de correios. O Império retomou Laguna em 15 de novembro de 1939. A perda da cidade catarinense marcou o declínio da República-Rio-Grandense. As estâncias estavam despovoadas, o governo republicano sem dinheiro, a capital mudava constantemente de lugar fugindo dos imperiais, a última capital foi a cidade de Alegrete, na fronteira, já quase fora do estado.

Intrigas e divergências entre os chefes farroupilhas acentuavam a decadência do movimento. Esta luta desigual, apenas como guerra defensiva se arrastou até 1845. Em 1840 o Brasil voltou a ter imperador, D. Pedro II, empossado com apenas 14 anos através do “golpe da maioridade”. A volta da figura do monarca legitimou o poder central e acalmou as rebeliões provinciais que foram acabando uma a uma. Restou apenas a Revolução Farroupilha. O governo do Império resolveu então concentrar forças no combate aos farroupilhas, enviando ao Rio Grande do Sul, no ano de 1842 Luis Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, maior estrategista militar de nossa história. O exercito farroupilha contava apenas com 4.000 homens enquanto que Caxias lutava com 20 mil soldados. Paralelo aos combates, Caxias negociava um Tratado de Paz com os revoltosos. A tentativa de acordo emperrou na questão dos negros.

O Império não aceitava libertar os negros que lutaram na Revolução Farroupilha. A liberdade dos negros da cavalaria era uma promessa feita pelos rebeldes no início da revolução e Bento não abria mão disso. Bento Gonçalves retira-se das negociações e do próprio movimento ao se desentender com Caxias e com os próprios líderes farroupilhas que queriam o acordo de qualquer maneira. Davi Canabarro, outro líder farroupilha assume o lugar de Bento e assina o Tratado de Paz de Poncho Verde, nos campos de Don Pedrito, era o fim da Revolução Farroupilha e da República-Rrio-Grandense: o Rio Grande do Sul voltava a pertencer ao Brasil.

Os farroupilhas não tiveram êxito na implantação da República mas plantaram as sementes que germinaram e se transformaram em realidade quando o Brasil, anos mais tarde, deixa de ser um Império para transformar-se em uma República. Perdemos a guerra mas não perdemos a honra, a coragem e o brio. Por isso, todos os anos, comemoramos com honra esta Odisséia, a Revolução Farroupilha, marca registrada de um povo valoroso que tão bem soube lutar pelos seus ideais de liberdade!




Odila Schwingel Lange
Advogada, mestra em História e vice-presidenta da Academia Douradense de Letras.

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