O conceito conhecido como “história das mentalidades” procura compreender e explicar o desenrolar da história – o processo histórico – levando em conta o pensamento predominante da sociedade em determinada época.
A formação das mentalidades dá-se com a mediação dos formadores de opinião, atualmente principalmente com os que atuam na mídia. E estando a mídia falada escrita e televisada em mãos dos defensores do capitalismo é óbvio que os seus proprietários recrutem os seus jornalistas dentre os que leiam no mesmo breviário. Não é difícil, portanto, ouvir ou ler textos enaltecendo o modo de produção capitalista e, em função disso, ganharem espaço.
Esses “escolhidos” pelos donos da mídia batem repetidamente nas mesmas teclas de modo que pareça à massa inculta, portanto receptiva, que o que está acontecendo é realmente o que deveria acontecer, ou seja, que não haveria outra opção, e se opção houvesse, ela não seria a adequada.
Suponhamos, para efeito do raciocínio que desenvolveremos a seguir, que tivéssemos em Dourados jornalistas contrários e jornalistas ligados umbilicalmente ao prefeito municipal e ao governador do estado e que escolhêssemos um de cada lado para um teste. Um teste simples, que consistiria em duas pautas (como se diz no jargão jornalístico) para eles idealizarem as matérias às quais dariam apenas o título.
Vamos ao teste:
Para a primeira pauta informaríamos sobre duas situações verdadeiras 1) Em 2011 as internações hospitalares provocadas pela dengue em Dourados foram 3% menores que no ano passado. 2) a economia brasileira em 2011 cresceu três por cento.
Em relação à segunda pauta prestaríamos as seguintes informações, também verdadeiras: 1) as férias da presidente Dilma acabaram 2) as férias de André Pucinelli iniciaram-se exatamente no momento em que acabaram as de Dilma.
Como estamos trabalhando no campo das suposições vamos, nós mesmos, interpretar o pensamento dos nossos supostos escolhidos:
Sobre a primeira pauta o jornalista pró Murilo e André, com toda a certeza, formularia títulos semelhantes aos que seguem: 1) “Ação do prefeito Murilo reduz dengue em Dourados”. 2) ”Economia brasileira empaca e fica estagnada em 3%”.
Já o jornalista contrário, em relação à primeira pauta, provavelmente formularia título mais ou menos assim: “Dengue em Dourados ainda está longe de ser controlada” e, 2) Apesar da crise mundial Brasil cresce 3%”
Já em relação à segunda pauta, o jornalista pró André diria: “Férias de Dilma custam mais de 500 mil ao contribuinte” e, 2) “André goza de merecidas férias no litoral do Rio Grande do Norte”
Para a segunda pauta o jornalista contrário, diria: 1) “Forças armadas garantem a segurança da presidente Dilma em gozo de suas férias” 2) “André sai em férias sem regularizar a situação dos profissionais em Educação”.
Percebe? Então, vamos a um teste final: procuremos na nossa mídia, local, regional ou nacional e vamos ver o que encontraremos a respeito das pautas sugeridas. Apenas e simplesmente a opinião do jornalista situacionista.
É dessa forma que a mentalidade dominante mistifica o restante da sociedade.
E o caro leitor achou o meu raciocínio simplista? Então estamos de acordo. Realmente é um raciocínio elementar, que beira a ingenuidade.
Mas então me respondam, por favor: será que os jornalistas julgam que os seus leitores não conseguem perceber que a notícia tem duas fases? Se realmente julgam estão certos, por isso é que usam e abusam de microfones e das páginas de jornal para reproduzirem a ideologia dominante.
Num dos primeiros cursos de pós-graduação que realizei lá no cada vez mais distante início dos anos de 1970, aprendi que antes mesmo de se ler uma obra é necessário conhecer o seu autor, conhecendo-se a tendência do autor, automaticamente sabe-se a linha de pensamento que será desenvolvido ao longo da obra.
Nesses termos, se quisermos voltar ao início dessa crônica e substituir os termos contrários e pró governos municipal e estadual respectivamente por jornalistas de esquerda e de direita, nada muda. Em termos conceituais os primeiros seriam contrários à política de Murilo e André e os de direita, evidentemente pró ações desses personagens.
Felizmente, em contraposição à mídia liegeira, existem as Ciências Humanas e Sociais para avaliar e interpretar cientificamente as duas fases da notícia, no entanto, as Ciências, pelo rigor do método, demoram a desvelar a verdade, a demonstrar o que estava por trás de uma notícia marota.
Quer dizer, as Ciências podem demonstrar como se formaram as determinadas “mentalidades”, mas pela sua natureza é incapaz de formar “mentalidades”.
Em tempo: não confundir mentalidades com mau caráter, pois além dessas tendências jornalísticas, compreensíveis, pois a neutralidade não existe, não podemos deixar de considerar que há também jornalistas capazes de lamber o chão por onde passam autoridades e, em suas colunas, publicar coisas extremamente dissociadas da realidade.
Seriam jabazeiros? Seriam mal informados? Seriam apenas pessoas de mau caráter? Eu, por exemplo, já fui anunciado como pretendente a Secretaria de Educação e até para ser vice-prefeito sem nunca, entretanto, ter discutido alguma dessas duas hipóteses.
Mas, o que realmente surpreende é que esses malformados tenham empregos em jornais tidos como sérios.
Suas críticas são bem vindas
biasotto@biasotto.com.br
* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.
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