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Hugo Chávez: o presidente histórico, por Anatólio Medeiros Arce

08 março 2013 - 14h40

Durante quatorze anos como presidente da Venezuela, dois foram os adjetivos que mais acompanharam Hugo Chávez quando era notícia na grande mídia internacional e venezuelana: ditador e autoritário. O primeiro deles nunca lhe coube adequadamente, pois em todas as ocasiões ocupou a presidência após sair vitorioso em eleição direta. A divergência poderia ser colocada na maneira como construía essa maioria, lançando mão do constante uso da máquina administrativa ao próprio favor e de seus aliados. Essa realidade não difere do cenário político da maioria dos países na América Latina, inclusive o Brasil. Porém, no caso de Chávez, essa foi a única maneira viável para diminuir a preponderância da antiga oligarquia no sistema político da Venezuela. O segundo adjetivo (autoritário) sempre lhe foi mais apropriado em alguns momentos e em vista de atitudes que tomou enquanto presidente da República. A mais comentada e criticada de todas elas ocorreu em 2007, quando cancelou a concessão de uma emissora de TV privada (RCTV), causando protestos de jornalistas e entidades ligadas à luta pela liberdade de expressão. Todavia, outras emissoras privadas críticas do governo Chávez, a exemplo da Globovisión, continuaram e continuam operando normalmente na Venezuela e dizer que no país não há liberdade de expressão não constitui uma verdade absoluta.

No geral, durante sua longa administração Chávez acumulou mais vitórias que derrotas e seu legado é mais positivo do que negativo. Duas são as principais “marcas” de sua administração: a preocupação com o social e o propósito da integração latino-americana.


No primeiro caso, Chávez se elegeu defendendo esse discurso e todas as mudanças implementadas na estrutura de poder da Venezuela (muitas delas centralizadoras) tiveram a questão social como principais propósitos. A retomada dos recursos do petróleo foi primordial para que Chávez implementasse as Missões sociais e nesse aspecto as relações com Cuba (que fornecia mão de obra especializada nas áreas de saúde, educação e esportes) foi determinante para que as mesmas funcionassem. Como resultado, a Venezuela diminuiu significativamente a pobreza e o analfabetismo, melhor distribuindo os recursos vindos do petróleo. Ao contrário do que muitos analisam, a Venezuela melhorou seus indicadores sociais durante a era Chávez, beneficiada pelo aumento nos preços do petróleo no mercado internacional. Por isso, grande parte da população o apoiou por mais de 14 anos no poder, não apenas nas eleições presidenciais, como também nas consultas populares que fazia, das quais perdeu apenas uma. O que se pode questionar é a durabilidade de tais conquistas com a ausência do líder e o que seus sucessores farão com as mesmas.

Dessa forma, Chávez colocou seus opositores da defensiva, forçando-os a abandonarem a estratégia de derrubá-lo “a qualquer custo”, inclusive promovendo golpes de Estado, tal como ocorreu em abril de 2002 quando foi retirado do poder por 72 horas. Esse golpe fracassou, ajudado pelo forte apoio popular em favor de Chávez. No entanto, foram as derrotas eleitorais que mais abalaram a oposição e a fez rever constantemente suas estratégias a ponto de nas eleições de 2012 o candidato oposicionista, Henrique Capriles Radonski, ter se comprometido a manter os programas sociais e a política de distribuição de renda. Nesse sentido, Chávez criou um novo padrão de fazer política na Venezuela em que a preocupação com o social não mais poderia ser relativizada pela retórica presidencial.

No caso da integração latino-americana a Venezuela melhorou significativamente. Historicamente, Caracas havia ficado “de costa” para seus vizinhos latino-americanos. Aliados de primeira ordem aos norte-americanos, seus políticos insistiam em imitá-los, porém se esqueciam que se localizavam abaixo do trópico de câncer e possuíam problemas comuns aos latinos. Chávez rompeu drasticamente com esse paradigma em 1999, erigindo outro comprometido com a integração latino-americana. Por isso, estreitou relações com Brasil, Cuba, Argentina, Uruguai, Equador, Nicarágua, dentre outros. Instituiu a Aliança Bolivariana aos povos de nossa América (ALBA), aderiu ao MERCOSUL e a UNASUL e apresentou propostas interessantes na adequação de políticas sociais. As ideias de Chávez eram boas e vários líderes do continente concordavam com ele nesse aspecto. As divergências se afloravam no que tange aos caminhos que seriam trilhados para chegarem a tais propósitos. Ademais, uma política combativa aos Estados Unidos, com drástica e rápida diminuição da influência dos mesmos na América Latina não era vista com bons olhos por vários governos da região, dentre eles o brasileiro, do qual Chávez cobrava uma ação mais combativa. Além disso, o líder venezuelano foi importante no combate às ideias do neoliberalismo e na crítica ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba, incompatível com a conjuntura mundial pós-guerra fria. Por isso, ele contribuiu bastante com a integração latino-americana, embora tivesse alimentado espinhosas e tensas relações com a Colômbia durante o governo de Álvaro Uribe (2002-2010) e cometido ingerência nas eleições presidenciais no México, Peru e Bolívia.

Por fim, se lança as seguintes questões: com quem ficará o legado de Chávez? Como o manejarão daqui em diante? São proposições que não podem ser respondidas levando em consideração o quadro político em longo prazo. Em curto prazo, pode-se afirmar que Nicolas Maduro será o herdeiro político e quanto mais rápido forem realizadas as eleições presidenciais, mais chance tem de vencer, ao aproveitar-se da “comoção” provocada pela morte do presidente Chávez, figura que será considerada a mais popular da história da Venezuela depois de Simón Bolívar.


A segunda questão é mais complexa. Politicamente, Hugo Chávez governou o país durante quatorze anos respaldado por uma aliança entre civis e militares, na qual ele era o fator agregador entre ambos os grupos. Manter isso é o grande desafio de Nicolás Maduro, pois ainda não é possível saber se ele terá habilidade política para conter as disputas entre os grupos que apoiavam o presidente Chávez. Maduro não poderá se furtar dessa questão e a figura do presidente da Assembleia Nacional, o militar Diosdado Cabello, atingirá importância nesse processo.

Todavia, em se tratando do quadro político venezuelano, qualquer prognóstico é escorregadio e a melhor postura seria esperar os próximos desdobramentos.

Anatólio Medeiros Arce é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Mestrando em História pelo Programa de Pós-graduação em História (PPGH) na mesma universidade. Pesquisador dos assuntos relativos a América Latina, com ênfase a política externa da Venezuela durante o governo Chávez (1999-2013). E-mail: anatolio.arce@r7.com

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