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LITERATURA

II Guerra: historiador do MS lança livro gratuito sobre pracinhas que combateram ditaduras e golpes

21 dezembro 2023 - 06h00Por Da Redação, com assessoria

Os historiadores Helton Costa e Carlos Henrique Pimentel publicaram o livro “Dever e honra: veteranos da FEB legalistas e militantes de esquerda contra ditaduras e golpes no Brasil – 1945/1995”, uma análise dos 50 anos em que os ex-membros da Força Expedicionária Brasileira - FEB se posicionaram contra governos e medidas autoritárias no país. Quando estiveram na Europa, os brasileiros eram conhecidos como pracinhas.

Helton é natural de Dourados e criado em Ponta Porã. Atualmente ele mora em Ponta Grossa/PR; Carlos é de Londrina/PR.

Os legalistas eram aqueles ex-combatentes que não faziam parte da esquerda, mas que defendiam a Constituição de forma intransigente, não aceitando golpismos. Já os veteranos militantes de esquerda foram pessoas que iam desde as alas mais progressistas e moderadas, até as alas mais radicais que defendiam a luta armada na defesa de seus ideais. “São histórias de homens e mulheres que foram perseguidos, presos, torturados e até mortos por não concordarem com imposições oficiais do Estado”, explica Carlos Pimentel, mestre em História.

Helton ressalta que o novo front começou ainda na Itália, com uniões contra o Varguismo e se prolongou por décadas combatendo autoritarismos. “A FEB foi um recorte do Brasil, com seus sotaques, costumes e culturas, mas também com suas visões políticas. A visão anti-Vargas juntava os legalistas e os militantes. Depois eles se uniram em vários outros momentos, como por exemplo, para cobrar direitos sociais, em campanhas eleitorais e nacionais como a do petróleo, além de estarem juntos em disputas por órgãos como associações e clubes militares”, explica Helton, que além de historiador, é jornalista e doutor em Comunicação.

No entanto, também aconteceram derrotas e as uniões cessaram na década de 60. “Foram vitoriosos em vários momentos históricos, mas, principalmente no período entre 1964 e 1985, vários deles foram punidos pelo Exército e pela Aeronáutica, justamente por terem feito a defesa de valores democráticos em décadas anteriores ou por não concordarem com o regime que se instalava”, revela Carlos.

Carlos também comenta que mesmo depois do fim da ditadura civil-militar (1964-1985), muitos desses militares perseguidos e cassados continuaram atuando como agentes políticos, sendo peças importantes na redemocratização do país. “Muitas lideranças foram forjadas ao longo daquelas décadas pós-guerra. Acho importante dizer que da mesma forma que havia militares ex-combatentes da FEB do lado da resistência, legalistas e militantes de esquerda, havia também militares que haviam estado na Itália e que compactuavam com medidas autoritárias desde a década de 40, inclusive fechavam os olhos para os abusos que aconteciam nos quartéis”, comenta.

Usando documentos do próprio Estado

Em um tempo de contestações a versões, os historiadores optaram por utilizar documentos primários encontrados no Arquivo Nacional e no Arquivo Histórico do Exército, de modo que pudessem associá-los a bibliografias existentes e mesmo a biografias escritas por ex-combatentes, como um trabalho de checagem.

O objetivo da metodologia foi fazer com que as próprias pessoas possam consultar os arquivos caso tenham alguma dúvida. “Foi a forma que encontramos de permitir com que as pessoas construam seu próprio conhecimento, podendo, inclusive, acessar os documentos nos próprios arquivos, já que há o número de cada um deles no livro”, adianta Helton.

Pimentel revela que mesmo os documentos da União Soviética também foram consultados. “Em determinado momento, estivemos em contato com o governo russo, que detém os arquivos soviéticos. Conseguimos descobrir que o que eles tinham dos nossos ex-combatentes comunistas não era muito diferente do que o Serviço Nacional de Informações – SNI possuía. A resposta foi que em 1939, com a eclosão da Segunda Guerra, os contatos com os comunistas brasileiros cessaram, então, eles tinham apenas o básico, o mesmo que os arquivos locais possuíam sobre as biografias de alguns elementos mais destacados como Sampaio Lacerda e Salomão Malina. Quem sabe em um futuro não muito distante outros dados possam aparecer por lá e possam ser compartilhados com pesquisadores daqui”, argumenta Carlos.

Mortos pela ditadura

Aproximadamente 9,6% dos primeiros militares caçados pelos atos institucionais de 1964, eram ex-combatentes da FEB, a maioria sem ligação nenhuma com a esquerda, apenas por serem legalistas e não concordarem com o golpe. Nos anos seguintes e nas décadas que se sucederam, foram dezenas de prisões, espancamentos, torturas e dois ex-combatentes foram assassinados.

O primeiro foi em 1964, Dilermano Mello do Nascimento, paraibano que combatera na Itália, pelo 11º Regimento de Infantaria, na 4ª Companhia. Foi detido, sofreu tortura psicológica e foi induzido a se jogar de uma janela, após terem humilhado muito ele e ameaçado os familiares do pracinha. A família provocou o Estado até conseguir um pedido de desculpas nos anos 90. Até laudo falso de suicídio os militares golpistas usaram, o que mais tarde ficou evidenciado em contraprovas apresentadas.

Já José Mendes de Sá Roriz, que na guerra perdeu um dos olhos com a explosão de uma bomba alemã perto da posição de artilharia que ele guarnecia, foi perseguido por anos e sempre escapava das prisões. Acusavam-no de ter feito parte de um grupo que havia atentado conta a vida do governador do Rio de Janeiro, em 1964, o que não conseguiram confirmar por falta de provas. Ele deixou o país para escapar das perseguições e o Estado começou a vigiar e intimidar a família dele, chegando ao ponto em que militares prenderam o filho de Roriz, de 18 anos e ameaçaram matar uma neta dele, recém nascida. Roriz se entregou e foi morto dias depois em um quartel do Rio de Janeiro, mesmo os militares tendo garantido sua a integridade física ao ex-comandante dele na FEB, o general Cordeiro de Farias.

“Nosso objetivo foi homenagear esses brasileiros e brasileiras que não abaixaram a cabeça frente aos autoritarismos, e que buscaram manter-se íntegros em suas convicções pessoais e políticas. Quem ler, vai gostar. Há uma primeira parte contextual e depois optamos por contar as histórias que encontramos”, ressalta Helton.

“Exatamente por isso, não é uma narrativa e nem uma falácia. É sim uma constatação histórica e bem documentada, de modo que as gerações atuais e futuras percebam a gravidade dos autoritarismos, sejam eles quais forem e que há determinados momentos em que a neutralidade e a passividade não são saídas viáveis”, completa Carlos.

O livro pode ser adquirido a preço de custo no link pelo Clube de Autores, clicando aqui. Para quem prefere ler a versão digital, o download é gratuito aqui.

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