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MUNDO

Papa Francisco muda um trecho da oração "Pai Nosso" em italiano

09 fevereiro 2020 - 10h21Por G1

Os fiéis da Igreja Católica na Itália passarão neste ano por uma provação: decorar um Pai Nosso diferente daquele a que estão acostumados.

A mudança não será tão grande — apenas uma frase — mas, tratando-se de uma das principais e mais conhecidas orações do catolicismo, qualquer alteração ganha relevância.

Até o primeiro domingo do Advento, que será celebrado este ano no dia 29 de novembro, uma nova edição (revista e atualizada) do Missal Romano, que reúne todas as orações que os padres rezam durante a missa, chegará a todas as paróquias italianas.

A nova versão será "non abbandonarci alla tentazione", com uma tradução direta que seria "não nos abandoneis à tentação". Não haverá alteração nas traduções para outros idiomas.

As mudanças foram propostas pelo presidente da Conferência Episcopal da Itália, o cardeal Gualtiero Bassetti, e aprovadas pelo papa Francisco no dia 22 de maio do ano passado, durante a 72ª Assembleia Geral dos bispos italianos.

"Nosso Deus é um Deus de misericórdia. Ele está sempre conosco e nos estende a mão sempre que precisamos."

O papa Francisco já tinha se pronunciado a respeito da versão em italiano do Pai Nosso em outubro de 2017. Em entrevista ao programa Padre Nostro, transmitido pelo canal TV 2000, o pontífice admitiu que "não nos induzais à tentação" não era uma boa tradução.

A versão brasileira não sofre com esse problema. Por aqui, há muito é rezada como "não nos deixeis cair em tentação", muito próximo do sentido que a nova tradução italiana pretende dar à frase.

"Sou eu quem cai em tentação; não é Deus que me joga nela", afirmou o papa ao apresentador, o padre Marco Pozza.

Aramaico x grego

No italiano, o verbo "indurre" ("induzir") foi traduzido do latim "inducere" ("empurrar") a partir do grego "eisféro" ("conduzir para dentro"), explica o padre Paulo Bazaglia, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e coordenador do Centro Bíblico Paulus.

"Jesus conversava em aramaico com seus discípulos, mas os evangelhos foram escritos em grego. O verbo grego não conseguiu traduzir a ideia presente no original aramaico. Enquanto um significa 'fazer entrar', ou seja, dá a ideia de entrar à força, o outro tem sentido permissivo, isso é, 'deixar entrar'. O Deus de Jesus não empurra ninguém para a queda, nem passa rasteiras ou contabiliza quantas vezes caímos para rir de nós", diz.

Segundo a tradição católica, todos os fiéis, sem exceção, estão sujeitos a cair em tentação. Até o próprio Jesus, relatam os Evangelhos, foi tentado pelo Diabo no deserto.

"Sim, Deus pode permitir que sejamos tentados, como aconteceu com Jesus no deserto. Mas, nunca nos propõe o mal como bem", afirma o padre Jesus Hortal, professor emérito do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

"Tentar é fazer uma prova a fim de ver o resultado. O que pedimos, portanto, é que Deus não nos coloque à prova, nem tente as nossas forças. Sabemos que somos fracos e que, se colocados à prova, vamos cair."

Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Teologia da PUC-SP, o padre Gilvan Leite de Araújo acrescenta que, se Deus concedeu ao homem o livre-arbítrio, não pode, então, privá-lo de exercer sua liberdade de escolha.

"Um pai ou uma mãe segura a mão de uma criança até que ela aprenda a andar. Depois, dependendo da idade, orientam e corrigem, mas, ao crescer, a pessoa deverá tomar suas próprias decisões, que podem edificá-la ou destruí-la. Os pais usam todas as possibilidades para salvar um filho que está em perigo, mas caberá a ele aceitar ou não", explica o teólogo.

Outras mudanças
 

Não é a primeira vez que uma congregação episcopal propõe uma alteração no Missal de seu país. Em 2017, a conferência dos bispos da França realizou um ajuste no mesmo trecho do Pai Nosso.

Desde o primeiro domingo do Advento daquele ano, que caiu no dia 3 de dezembro, a frase "não nos submeteis à tentação" ganhou nova tradução: "não nos deixeis cair em tentação" — a mesma utilizada na versão brasileira.

Em 2019, os bispos da Congregação Episcopal de Portugal optaram por tratar Deus como "Tu" e não mais como "Vós". A nova versão, coordenada por dom Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, levou sete anos para ser concluída e contou com uma equipe formada por 34 especialistas.

"No Brasil, achamos mais conveniente tratar Deus como Vós. Já outros países, como Itália, França e Espanha, usa-se o Tu. É uma questão de adaptação ao uso de cada país", explica o exegeta e missionário redentorista Padre José Raimundo Vidigal, responsável pela tradução da Bíblia Sagrada, da Editora Santuário.

Todas as conferências episcopais, explica dom Edmar Peron, têm liberdade para propor alterações nas traduções de seus missais. Mas, tão logo traduzidos e aprovados, os textos devem ser enviados para Roma.

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, chefiada pelo cardeal Robert Sarah, é o órgão da Santa Sé responsável por validar essas traduções.

No Brasil, o setor da CNBB encarregado de traduzir os textos litúrgicos é a Comissão Episcopal de Textos Litúrgicos (CETEL).

'Ofensas'

Outro trecho do Pai Nosso que costuma suscitar polêmica em congregações evangélicas é "Perdoai as nossas ofensas". Os mais puristas preferem "dívidas" em vez de "ofensas".

"Muitas pessoas não imaginam que exista linguagem metafórica na Bíblia e tendem a interpretar tudo ao pé da letra."

"Não nos deixeis cair em tentação" e "Perdoai as nossas ofensas" são apenas dois dos sete pedidos rezados no Pai Nosso.

Os três primeiros fazem referência a Deus: "Santificado seja o vosso nome", "Venha a nós o vosso reino" e "Seja feita a vossa vontade".

E os quatro últimos às nossas necessidades básicas: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje", "Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nós têm ofendido", "Não nos deixeis cair em tentação" e "Livrai-nos do mal".

Segundo os Evangelhos, o Pai Nosso foi ensinado pelo próprio Jesus a pedido de um de seus discípulos. Há duas versões: uma, mais curta, em Lucas (11, 2-4), e outra, mais longa, em Mateus (6, 9-13).

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