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A cidade para os carros ou para as pessoas?, por Mário Tompes

29 fevereiro 2012 - 15h44



Atualmente, a maior parte das cidades brasileiras tornaram-se vítimas de um mal persistente: o reinado irresistível e absoluto do carro particular no espaço urbano. A obtusidade das nossas administrações municipais elegeu o transporte individual como a prioridade máxima de suas políticas. Como resultado, no presente, os carros estão se expandindo em escala viral e destroem a qualidade de vida em nossas urbes.

O resultado disso é que as cidades, sobretudo as maiores, se enfartam com congestionamentos desumanos, suas populações são vitimadas com taxas sempre crescente de acidentes de trânsito que implicam um preço elevado em vidas humanas e indivíduos mutilados, além do agravamento da poluição urbana com o aumento da emissão de gás carbono emitido pelos combustíveis fosseis dos automóveis. Esse modelo urbano está próximo do esgotamento.

No entanto, várias cidades do mundo, em sintonia com os novos paradigmas do urbanismo do século XXI estão virando esse jogo. Descartaram a política insana de priorizarem os carros para construir uma cidade para as pessoas.
Isso significa, em primeiro lugar restringir o uso dos automóveis e todas as mazelas que ele produz, incentivar o transporte coletivo e alternativo, e estimular vias exclusivas para pedestres. Dessa forma, cidades como Barcelona, Copenhague, Amsterdã, Paris e tantas outras investem na construção de um espaço urbano destinado a servir às pessoas e não se tornar servo do automóvel. Nesse sentido, ciclovias, investimento crescente no aperfeiçoamento do transporte coletivo e a implantação de vias para pedestres como os calçadões, além de projetos ambientalmente sustentáveis dão a tônica desse novo urbanismo do século XXI.

Infelizmente o planejamento urbano praticado nos últimos anos em Dourados dá sinais preocupantes de ausência de sintonia com os novos paradigmas predominantes no urbanismo contemporâneo e teima manter-se apegado a práticas do século que passou. Os sintomas desse planejamento urbano equivocado e passadista se manifestam cotidianamente nas ações da Prefeitura. Exemplos disso são a eliminação das ciclofaixas para dar mais espaço para os carros, a contínua transformação das áreas verdes dos canteiros centrais em estacionamentos para servir a conveniência exclusiva dos automóveis e a persistente falta de prioridade ao transporte coletivo em nossa cidade.

A eliminação do calçadão da Nelson de Araújo é mais um passo adiante nessa estratégia equivocada de nossa Prefeitura em ceder mais espaço para o carro em detrimento do pedestre. É bem verdade que o calçadão era uma área deteriorada da cidade e representava um problema para a sua vizinhança. Porém, frente a essa situação a Prefeitura tinha duas opções: a sua eliminação ou o investimento na recuperação e em uma nova qualificação daquela área. O poder público, como sabemos, escolheu a primeira alternativa.

Antes de mais nada é necessário entender que o calçadão tornou-se um problema para sua vizinhança por um singelo motivo: ele foi condenado ao abandono por sucessivas administrações municipais. A falta de manutenção e investimento em melhorias exauriu aquele espaço. A atual administração ao decretar sua pena de morte deu um desfecho melancólico a uma trajetória marcada pelo descaso.

No entanto, esse desfecho poderia ter sido outro. Se nossa atual administração municipal estivesse em sintonia fina com as novas práticas urbanísticas da atualidade teria, sem dúvida, optado pela requalificação do calçadão e muito poderia ser feito para transformar aquela área em um dos pontos de maior vitalidade de nossa cidade.

O exemplo ocorrido recentemente com a praça Antônio João, que de local decadente e abandonado foi transmutado em um espaço atraente e um ponto de encontro visualmente agradável e acolhedor para a população, poderia ser replicado no calçadão da Nelson de Araujo.

Haveria, claro, necessidade de intervenções: um novo piso, renovação de seu mobiliário urbano (bancos novos e mais confortáveis, vasos ornamentais, lixeiras, luminárias mais atraentes e eficazes etc.), um projeto de paisagismo com jardins que desse mais beleza e árvores que propiciasse mais sombras. A garantia de segurança com a presença permanente da guarda municipal seria indispensável.

A concessão de quiosques para implantação de bancas de revistas, sorveterias, café expresso entre outros complementariam o rol de atrativos que contribuiriam para transformar o calçadão em um ponto de encontro e convivência da população, um espaço cheio de vitalidade e movimento. A disponibilização de acesso a internet sem fio em todo o seu perímetro agregaria ainda mais frequência e vida à área. Nessas circunstâncias, ela poderia também tornar-se um local de referência para manifestações culturais de artistas de rua, músicos, mímicos e teatro de rua. A presença da principal escola da cidade (E.E Presidente Vargas) em sua vizinhança, sem dúvida, criaria uma sinergia positiva com essa função de polo de atrações culturais.

Por fim, a adoção de incentivos públicos diversos para transformar as ruas lindeiras em um centro de serviços e comércio dinâmico e diversificado completaria o serviço.

Como se vê, o ganho para a comunidade seria infinitamente maior do que entregar esse espaço à sanha do trânsito automobilístico. Os centros urbanos que se encontram na vanguarda do planejamento urbano da atualidade já perceberam isso há mais tempo e tem investido decisivamente em vias exclusivas para pedestres. Barcelona implantou as ramblas, Amsterdã criou as woonerf , Copenhague transformou sua avenida principal, a Stroget, em espaço para pedestres. Por fim, Curitiba, cidade que apesar de seus problemas é a principal referência brasileira em urbanismo de qualidade, está implantando na Av. Cândido de Abreu um calçadão para pedestres de 950 metros de extensão que será margeado por uma pista exclusiva para ônibus.

Esses são os projetos que estão moldando as cidades do século XXI. Está na hora de nossos gestores públicos passarem a direcionar suas ações para construir um espaço urbano que promova o bem estar, o acolhimento e a crescente interação de seus habitantes em lugar de insistir em sacrificar a cidade para alimentar o apetite insaciável do automóvel.

*Professor de Planejamento Urbano - UFGD.

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