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A perversa distribuição salarial, por Dirceu Cardoso

18 novembro 2011 - 10h14

A constatação de que a soma dos salários dos 10% mais pobres da população brasileira é de apenas 1,1% do total da massa de rendimentos nacional e que, para chegar à soma do salário mensal dos 10% mais ricos – que detém 44,5% do bolo – os pobres têm de trabalhar 39 meses, demonstra claramente que vivemos num país desigual. Os números são ainda mais gritantes quando revelam que 1% dos mais ricos recebe em média R$ 16.560,92, o equivalente a 120 vezes o salário dos mais pobres, de R$ 137,06 mensais. Ainda escandaliza mais a revelação de que brancos e asiáticos ganham o dobro dos negros, pardos e índios e que homens recebem 42% a mais do que mulheres.


Apesar de todo o palavrório oficial sobre os avanços e a inclusão social, os números do Censo 2010, divulgados pelo IBGE na última quarta-feira (16) mostram uma sociedade economicamente perversa. Só uma diminuta parcela desfruta de salários elevados e o faz à custa do sofrimento e da miséria de imensa maioria da massa trabalhadora cujos ganhos são insuficientes para o atendimento das necessidades básicas do trabalhador e sua família. A partir daí não é difícil apontar as razões da existência de milhares de trabalhadores atuando na economia informal e subempregos e de se alastrarem por todo o país o contrabando ou descaminho e atividades criminosas.


A própria planilha do censo demonstra que, nos últimos 10 anos, o nível de consumo da população ampliou-se em itens como microcomputador, telefone celular, máquina de lavar e até no automóvel. Mas, comparados com a distribuição de rendas, esse bolo de consumo constitui um paradoxo. Como pode o indivíduo elevar seu nível de consumo se sua renda não aumenta ou não se apresenta compatível com o patamar de tecnologia oferecido ao povo?


Há muito tempo o Salário Mínimo, concebido na década de 40 para sustentar uma família de quatro pessoas, deixou de corresponder às necessidades. Durante anos, em vez de garantia básica de sustento, funcionou como indexador da economia, até que os últimos governos o baniram como índice e conseguiram elevá-lo para o patamar dos 300 dólares, hoje vigente. Seria razoável se não existissem famílias ganhando apenas os R$ 137,06 constatados pelo IBGE e, também, se os serviços públicos – saúde, educação, transporte e outros - funcionassem. Como não funcionam, quem quer estudar os filhos ou não morrer nas filas de hospitais e ambulatórios, tem de adquirir esses serviços da rede privada.


Nosso país, sexta economia do mundo, infelizmente não tem muito o que comemorar. Só poderá fazê-lo no dia em que tiver encontrado a fórmula mais justa de aproximar o menor do maior salário e, principalmente, de fazer com que o elevado volume de impostos arrecadados da população seja efetivamente aplicado em serviços públicos de qualidade. O que temos hoje é um verdadeiro massacre e o risco da explosão social...





Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) aspomilpm@terra.com.br

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