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HOMENAGEM

Vá em paz, soldado Maciel, nosso eterno pracinha

02 maio 2022 - 14h27Por Helton Costa

Dourados perdeu um pouco de sua história no dia de hoje. A morte do ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira - FEB, Januário Antunes Maciel, representa a perda de parte da memória social na cidade.

Januário foi um dos 25 mil soldados que partiram do Brasil para combater o nazifascismo na Itália, na Segunda Guerra Mundial, entre 1944 e 1945. Ele era filho de pai gaúcho e mãe argentina, bisneto de italianos, de onde herdara o sobrenome Maciel.

Antes da FEB, Januário servia no quartel em Ponta Porã, em 1944, quando um amigo que já estava na Itália se correspondeu com ele e o orientou que fosse como voluntário. A ideia era que depois da guerra as coisas ficariam melhores, no quartel, para quem tivesse servido na FEB. O jovem acreditou e foi voluntário.

No começo, Januário foi para a reserva da FEB, no Depósito de Pessoal, mas poucos dias após o desembarque, foi mandado como recompletamento de tropa para o 1º Regimento de Infantaria, que vinha desfalcado desde o começo de dezembro, quando realizou os primeiros ataques sem sucesso ao Monte Castello.

O pracinha Januário passou um inverno duríssimo em posições que variavam de Torre di Nerone à localidades vizinhas de Monte Castello. As temperaturas foram de até -20°C nos pontos mais elevados.

Quando em fevereiro de 1945 o Monte foi tomado, lá estava o sul-mato-grossense e foi dali que ele carregou para o resto da vida, as piores lembranças, vendo amigos sendo mortos e lutando para sobreviver.

Depois de Monte Castello, ainda esteve em La Serra, quando os alemães tentaram retomar a posição perdida e foram barrados em um combate noturno. Patrulhas constantes foram realizadas nos dias seguintes.

No cerco os alemães, já no final de abril de 1945, a tropa de Januário foi enviada ao norte da Itália para garantir uma segunda linha de defesa, para barrar os alemães, caso conseguissem fugir da região de Collecchio e Fornovo.

Quando a guerra acabou, Januário havia voltado diferente para casa. Já não era o mesmo jovem alegre de outrora. Trazia cicatrizes invisíveis da guerra. Ainda assim, entrou para Polícia Militar e serviu por mais de 30 anos na corporação, onde novos traumas moldaram a sua personalidade.

A esposa tentava acalmar os ânimos do pracinha, que não era violento em casa e nem agia de forma desordenada no trabalho, mas que constantemente sofria com pesadelos e crises de ansiedade, trazidas do front italiano. Hoje chamamos isso de estresse pós-traumático.

Chegou uma época que a família já não sabia mais para quem apelar e foi quando ele aceitou a religião em sua vida, o que o ajudou a ser uma pessoa mais tranquila e a controlar as crises. Porém, sempre que havia alguma comemoração ou que o assunto era a FEB, naquela noite ele sofria com as lembranças novamente.

Eu o conheci no final da minha graduação, nos idos de 2007 e o entrevistei por mais três vezes ao longo dos anos. Januário nunca negou a dividir suas memórias, para que elas ficassem (da forma que ficaram), como registro histórico de uma época, de uma vida que não foi em vão e de uma história que nunca será esquecida.

Agora, ele volta ao lar eterno, onde certamente encontrará seus antigos colegas de FEB, onde antes dele muitos outros chegaram primeiro e onde um dia nós também chegaremos. Que Deus o receba e dê forças para a família. Nós, que o conhecemos como o eterno pracinha, sempre nos lembraremos dele com carinho e com aquele jeito pacato de contar as coisas, sorrindo e não escondendo nada. Obrigado por tudo, soldado Maciel.

 

*Jornalista sul-mato-grossense, Dr. em comunicação e autor dos livros Confissões do front: soldados do Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial (Arandu, 2011), Crônicas de sangue: jornalistas brasileiros na II Guerra Mundial (Matilda, 2020), Dias de quartel e guerra: diário do pracinha Mário Novelli (Matilda, 2021) e Camarada Pracinha, amigo partigiani: anotações brasileiras sobre a resistência italiana na Segunda Guerra Mundial (Matilda, 2021).

 

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