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MEMÓRIA VIVA

Shows, reuniões com puchero e “brigas” temperavam eleições

14 dezembro 2015 - 07h45

No auge do sucesso com a famosa canção “Evidências”, a dupla Chitãozinho & Xororó cantou “de graça” para uma avenida Hayel Bon Faker forrada de gente em Dourados. O palco era o palanque de uma campanha eleitoral de 1996, já que na época era comum e permitido fazer comícios com shows nacionais. É desse período em que comida de reunião política era puchero – até temperada com dentadura - e amor por candidato era equivalente ao sentido pelo time de futebol, que vai tratar a reportagem da série “Memória Viva” que o Dourados News publica em homenagem aos 80 anos de Dourados.

O show da dupla de renome no sertanejo nacional foi no palanque de então candidato a prefeito em 1996, Braz Melo. O Xororó – mais conversador dos dois – chegou a falar ao Braz que aquele havia sido o show em comício com mais gente que eles haviam feito até então. O palanque estava estacionado em frente ao Posto Gaúcho e a multidão seguia por, pelo menos, oito quadras.

Antes de a atração começar, um colega deputado chegou até o Braz e perguntou o que ele iria falar no palanque – já que havia tanta gente reunida. Ele foi enfático “vou falar Boa noite, só boa noite!”, receoso o colega disse que ele ia perder a oportunidade, e Braz o respondeu “se eu falar alguma coisa aqui eu perco voto”, então não falou nada. Era reta final da campanha. Braz apenas desejou boa noite e anunciou “com vocês Chitãozinho & Xororó”. “Eu tenho certeza que o pessoal ficou feliz. O pessoal foi lá não era para me ver e eu estava bem na frente na pesquisa”, relata.

Naquele ano, haviam programados cinco shows para a campanha dele. Entre os nomes, Só pra Contrariar, Sandy e Junior e Jair Rodrigues, por exemplo. Mas, alguns foram cancelados. Se o candidato estava a frente nas pesquisas, não trazia o show para economizar. Entre outros nomes, durante essa e outras campanhas, trouxe também João Mineiro e Mariano, Amado Batista, Fafá de Belém, Gretchen, Perla e outros.

Em suas campanhas, José Elias também trazia artistas. Entre os nomes que subiram em seu palanque estão Cristian e Ralf, João Paulo e Daniel, o apresentador Bolinha e outros. Até Milionário e José Rico, antes da fama, o político levou a seu comício numa coincidência das boas.

Zé estava em sua primeira campanha para prefeito começou a andar pela cidade fazendo visitas domiciliares para pedir votos pela região do barreirinho. Quando chegou a uma propriedade encontrou alguns peões, que lhe ofereceram vinho e conseguiram mais alguns deles para que o político pudesse falar de suas propostas.

Ao final, uma dupla pediu para cantar, mesmo de graça nos comícios para mostrar seu trabalho. Zé aceitou e depois da campanha fez uma vaquinha para conseguiu violas que eles pediram para gravar um disco em São Paulo. Anos depois, a dupla havia se tornado Milionário e José Rico.

RECURSOS

Naquela época, contratar shows para comícios era permitido. Então tudo entrava na prestação de contas de campanha. Braz lembra que eram os próprios diretórios regional ou federal que mandavam dinheiro e organizavam os shows. Geralmente um mesmo artista era contratado para vários shows seguidos para o mesmo partido, dessa forma ficava mais barato.

Zé Elias conta que havia um livro chamado “livro de ouro” da campanha, que os políticos pegavam e levavam até os empresários que eram ligados a eles para pedir quanto podiam doar para a campanha. Cada um doava uma parte, tanto para pagar os santinhos, camisetas, quanto para custear os shows. Nem sempre o show era o que queria, geralmente era o que cabia no orçamento. Quando um candidato a governador trazia um bom show, os diretórios municipais ofereciam ao artista um cachê para fazer o show na cidade também e dessa forma, iam contratando.

Os palanques eram geralmente caminhões, que os políticos contratavam para ficar a disposição durante toda a campanha. Era comício praticamente todos os dias, então precisava desse espaço. Zé se lembra que em sua primeira campanha chegou a fazer comício em cima de uma F 4000, com lampião para iluminar a todos em bairros que não recebiam luz e shows de duplas regionais.

DENTADURA VOADORA

Mas, nos palanques nem tudo era atração musical. Entre um discurso e outro sempre tinha uma peripécia que ficava para a história. Braz conta que um candidato a deputado estadual que prefere não mencionar o nome, certa vez se empolgou no discurso e acabou que sua dentadura “voou” para a plateia que o assistia.

O parlamentar logo disse “ô Meu Deus, minha chapa!”. A molecada veio toda naquele espaço que sempre fica entre as pessoas e o palanque, começou a procurar. Até que um bêbado achou a dentadura e entregou a ele. O candidato passou a dentadura na roupa e colocou na boca novamente. Detalhe: isso aconteceu na rua Balbina de Mattos, que naquela época nem era asfaltada. A fuga da dentadura se repetiu e com a mesma pessoa. “Foi engraçado, muitas vezes a pessoa pensa que é brincadeira e mentira, mas aconteceu mesmo e eu vi”, relata.

TEMPERO DO PUCHERO

Além dos palanques, ainda era comum fazer reuniões em casas ou salões servindo sempre o tradicional puchero. Era uma comida simples, barata e a maioria das pessoas gostava da iguaria. Ficava fácil agradar sem gastar muito.

Porém, isso também rendia histórias. Braz conta que um paraguaio fazia o puchero em suas reuniões, uma delas ocorrida na Vila Rosa com história um tanto inusitada. Quando o candidato chegou ao local logo foi alertado. “Você não come o puchero hoje não”, e ele mesmo questionando seguiu a recomendação. Quando terminou a festa ficou sabendo o motivo. O paraguaio havia bebido tanto que jogou a dentadura dentro do puchero quando estava fazendo.

CAMPANHA FERVOROSA

Aqueles tempos eram outros. Conforme Braz a campanha “era o que tinha para fazer” e grupo político era igual a time de futebol. “Tinha a turma que torcia para o Corinthians e a que torcia para o Palmeiras e ficava assim”, conta ele. Os políticos eram acompanhados, se uma pessoa morava no Jardim Flórida e o comício era no Parque das Nações, ela ia para prestigiar seu candidato. “O pessoal ligado ao Zé era ligado ao Zé. Os ligados ao Totó eram ligados ao Totó, não tinha meio terno. Quando o Totó aposentou eu fiquei com o pessoal do lado do Totó”, explicou.
Só que até nisso haviam surpresas. Certa vez fazendo visitas de casa em casa, Zé se deparou com uma residência que tinha adesivos do adversário até o telhado. O companheiro que estava com ele sugeriu que fosse mesmo assim, mas Zé relutou, considerava até uma agressão isso. “Naquela época se eles não gostavam, falavam na cara ‘eu não gosto de você não, você vá para outra casa. Era desse jeito”, relatou.

Depois de relutar, decidiu ir e ao chegar à casa estava apenas a mulher que o convidou para entrar e ofereceu um café. Antes da conversa se delongar, ela pediu a gentileza que ele a acompanhasse até o seu quarto. No local tinha um oratório de um santo com a foto de Zé Elias no meio. “Eu estou rezando para o senhor ganhar a eleição. A prefeitura veio aí e pediu para ‘adesivar’ a casa, eu vou falar que não? Mas, pode deixar que Deus vai abençoar o senhor”, disse a mulher a ele. Na residência em que ele achou que o caso era perdido, lá estava sua eleitora para grata surpresa.

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