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Saiba como Dourados se tornou “Terra de Antônio João”

20 dezembro 2011 - 11h46

No dia do aniversário da cidade, O Dourados News traz uma reportagem baseada na pesquisa da historiadora Camila Cremonese Adamo, que em trabalho de 2010 com o título “Fronteira, mitos e heróis: A criação e a apropriação da figura do Tenente Antônio João Ribeiro no Antigo sul de Mato Grosso”, conta um pouco sobre a vida do homem que é tido como ‘herói” local e referência do Exército Brasileiro.
No trabalho, ela mostra como surgiu o mito do Tenente, que com mais alguns soldados teria resistido e morrido frente tropas paraguaias em 1864 na localidade da Colônia Militar dos Dourados, que influenciou no nome da cidade.

A Vida

Antônio João teria nascido em 1823, em Poconé, Mato Grosso. O dia do nascimento é controverso. O Exército Brasileiro aceita como sendo o dia 24 de novembro e a historiadora encontrou registros de uma entrevista do filho de Antônio João dizendo que era dia 21 de novembro. Uma terceira data teria sido dada pela mãe de Antônio João: 31 22 de janeiro.

As poucas informações existentes sobre o militar constam em sua “fé-de-ofício”, uma espécie de ficha funcional dele, que entrou para o Exército em 1841, aos 18 anos. Teria ido como voluntário para o Batalhão de Caçadores n. 12, em Mato Grosso, em 6 de abril.

É descrito como homem de estatura mediana (1,63 m), “cabelos pretos e lisos, rosto comprido e claro, olhos pretos, barba pouca e preta”. Foi de soldado à sargento ajudante em oito anos de Exército e em 1852 foi graduado à tenente. Estudou no Rio de Janeiro, porém, foi reprovado por faltas. Ainda assim conseguiu tornar-se oficial, pois, justificou suas faltas dizendo que cuidava de um padrinho muito doente.

Serviu em diversos destacamentos até chegar à Colônia Militar e há registros de que teria perseguido “índios hostis” que cruzaram seus caminhos, recebendo inclusive citações do Império pelo feito.

Vida pessoal

Sobre sua vida particular há duas versões. A primeira é de que teria sido solteiro e a segunda que teria casado de maneira não oficial com uma mulher chamada Ana Maria e tivera um filho, chamado Tomé Ribeiro de Siqueira. Este teria se casado com uma prima, Franklina Ribeiro de Siqueira, e deles surgiria a descendência do militar. A pesquisadora não encontrou documentos que oficializam o casamento.

No mesmo campo das hipóteses, há a versão de que ele descenderia de bandeirantes que chegaram ao Mato Grosso, mas, assim como nas demais sugestões, não há comprovação.
Com essas atribuições ele poderia ser mais um militar servindo longe de casa, porém, em 1864, após anos na Colônia um acontecimento mudaria esse quadro.

Antes do “ato heróico”

Em 1856 o Brasil e o Paraguai assinaram um acordo onde se comprometiam a demarcar as terras da região de fronteira e delimitá-las, acordo esse de 06 de abril daquele ano. Porém, 20 dias depois, com o argumento de proteger os residentes de vilarejos do sul do Estão Mato Grosso do ataque de índios, o Governo brasileiro ordenou a construção da Colônia Militar dos Dourados, terra em litígio, mas, importante do ponto de vista militar e geográfico, já que serviria para controlar a navegação dos rios do sul do território.

Relatórios do Exército de 1862 e 1863 mostram que os militares que ali serviam se esforçavam para manter o local organizado, porém, que faltava estrutura por parte do Governo.

O próprio Antônio João já reclamara da situação. “Apesar de um ano e oito meses que comando interinamente esta Colônia, e continuamente tenho exposto as necessidades de que sofre ela, os meus clamores têm sido inúteis; contudo, não desanimo, farei como os mendigos que não se cansam em pedir esmolas, até que lá vem um fiel cristão que lhes socorre (...) A voz do socorro é obrigatória, e por isso servir-me-ei dela como sendo a predileta da necessidade, ousando dizer: - Socorro à Colônia dos Dourados! Esta minha articulação um dia será bem entendida e ouvida, razão por que sempre me servirei de tal palavra para com os meus superiores, como também para declarar que a Colônia ainda socorrerá com produtos do seu solo algumas necessidades da Província”, escreveu.

Primeiro embate

Em 1862, uma força paraguaia de 60 soldados desceu de Concepicion para a região onde hoje fica Miranda e Antônio João (a cidade). Eles constataram a existência dos destacamentos brasileiros na região, que pelo tratado de 1856 não deveriam estar ali.

Um militar de Nioaque teria descido ao encontro da coluna paraguaia, ao que teria se seguido uma discussão e uma ameaça dos paraguaios. Retornando para Nioaque, tropas foram escaladas para perseguir os paraguaios, uma delas comandada por Antônio João, porém, não os alcançaram, mas, ele foi até o forte paraguaio de Bella Vista e deixou uma carta protesto contra a invasão.

A questão foi resolvida diplomaticamente entre os governos e foi, inclusive, pauta de discurso do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Benevenuto Augusto de Magalhães Taques. Uma vez sanada a questão, Antônio João só veria os paraguaios novamente em 1864.

Herói por acaso

Uma tropa paraguaia saíra de Assunção com o objetivo de conquistar Mato Grosso (principalmente o Mato Grosso do Sul), rumo à Nioaque-Vila de Miranda. Um flanco dessa tropa, sob comando do Capitão Urbieta, tinha a responsabilidade de tomar a Colônia dos Dourados. Para tanto, 365 homens foram designados para a ação, que se deu no dia 29 de dezembro de 1864.
Um dia antes, 28 de dezembro, o Tenente Antônio João soube da aproximação da tropa paraguaia, e no mesmo dia organizou a retirada de todos os colonos e seus familiares para Nioaque, permanecendo na Colônia apenas os soldados.

Também enviou um soldado para Nioaque, na tentativa de colocar a par dos acontecimentos o Tenente-Coronel Dias da Silva. “Embora soubesse da aproximação paraguaia, o Tenente Antônio João foi, de fato, surpreendido pelo ataque avassalador, que em poucos minutos dominou a Colônia. Isso porque, para Mello [escritor, Raul Silveira de], tudo indica que Antônio João pareceu não ter idéia de que se tratava de uma invasão; pode ter imaginado que se tratava de uma nova incursão como a que havia sido feita dois anos antes”, escreveu a historiadora Camila Cremonese Adamo.
Logo, Antônio João teria resistido sem saber que aquele era um dos primeiros atos de guerra, da Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, como também é conhecida.

A frase

Intimado à render-se, Antônio João teria dito, na versão oficial do Exército: “Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”, porém, Camila não encontrou vestígios do tal bilhete, a não ser em versões de narrativas militares bem posteriores à Guerra.
Por outro lado, encontrou em arquivos paraguaios sobre a invasão ao Brasil, um trecho onde um certo Manuel Martinez sugere que Antônio João se renda e este diz que só o faria com ordens imperiais. Depois disso, trava-se um combate de alguns minutos, onde Antônio João e mais dois soldados morrem imediatamente e outros 12 são capturados como prisioneiros.
Destruído o Destacamento, no dia seguinte os paraguaios retornam para Concepción.

Na teoria de Camila, o escritor, Raul Silveira de Mello teria chegado a conclusão “de que se foi Taunay quem inventou a frase [do bilhete], foi Rio Branco quem a consagrou”, em livros que escreveram sobre a Guerra.


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