Nesta última sexta-feira mais uma vez a Igreja Católica, representada pelo senhor Bispo Dom Redovino, atacou a comunidade homossexual.
A desculpa usada pelo bispo foi o pronunciamento do presidente da Associação internacional GLBT que teria dito que a AIDS é culpa dos homossexuais, ou melhor, dizendo do seu comportamento. Isso foi o motivo pelo qual dom Redovino culpou a comunidade por todos os problemas sociais que o mundo passa. Diz inclusive que os homossexuais são imorais uma vez que invertem a moral natural das coisas e mais um monte de blá, blá, blá... Digo de blá, blá, blá, porque sei que esse tipo de comportamento é um disparate, mas não novidade, sendo proferido por quem o fez.
Me sinto no dever de responder ao dito bispo, de não me calar diante de um monte de ameaças, mas não apenas isso, alertar a sociedade para esse tipo de comportamento, afinal talvez, o bispo não saiba sobre as estatísticas dos homossexuais que morrem somente no Brasil, vítimas de preconceito e homofobia.
Quando o Senhor dito representante de uma instituição religiosa, que o é, apresenta um tipo de comportamento deste, ele reforça grupos neonazistas que são os responsáveis por milhares de mortes de pessoas inocentes. Digo pessoas inocentes porque a única coisa que as difere das demais são com quem elas praticam sexo, e não apenas isso, são com quem elas se relacionam nas demais instâncias da emoção, ou seja, gostam de pessoas do mesmo sexo, mas são homens e mulheres que trabalham, possuem profissão como qualquer um outro indivíduo.
Bom, talvez o bispo não saiba que ao fazer um discurso homofóbico como ele mesmo fez, esteja cometendo um crime, afinal, homofobia também é crime, considerada como um crime preconceituoso, e não nos esqueçamos que vivemos em um país laico, liberal onde a Igreja e o Estado não ocupam a mesma posição, não estamos mais na Idade Média onde o discurso religioso norteava as noções de verdade, de certo e errado.
Todos sabem das atrocidades cometidas pela Igreja Católica ao longo da história. São vários os motivos que se tem para não mais acreditar no seu discurso, afinal, o ouro contido no Vaticano é produto de genocídio indígena apoiado pela igreja. A pobreza na África, também apoiada pela igreja (digo escravidão no século XV), também apoiou os regimes nazistas e fascistas durante a II Guerra Mundial, queimou na fogueira da Inquisição quantas pessoas inocentes? – Tudo em nome de uma verdade, tudo em nome de serem os representantes de um Deus aqui na Terra – um Deus bastante perverso, não acham?
Todos sabem que falamos de pessoas, e que essas pessoas são produto de seu tempo histórico e não convém julgar no hoje as atitudes de ontem da Igreja, e ninguém o faz porque entende muito bem esse processo, só não o padre Redovino que mantém um discurso homofóbico, medieval de caça às bruxas (homossexuais).
Ser homossexual não é crime, não afronta os direitos universais do homem e do cidadão, mas ser pedófilo, isso sim é crime. Por que então senhor bispo em vez de atacar pessoas inocentes, culpando-as pelas mazelas do capitalismo deliberado o senhor não cuida de seus irmãos?
Ou melhor dizendo, não pune os padres pedófilos? E quanto aos montes de padres homossexuais que existem na Igreja, também vai expulsá-los?
O senhor mais do que ninguém sabe que se o celibato chegasse ao seu fim hoje, a igreja teria o apoio de seus fiéis, por que todos entendem que se fala de homens, de pessoas comuns, e não de seres divinizados.
Mas a questão a que quero explanar não faz esse percurso. Ela caminha no âmbito do papel social da Igreja, e do senhor Bispo. Será que ao invés do senhor culpar os homossexuais pelas doenças, pelos problemas que o mundo enfrenta, o senhor não deveria sem julgar, arregaçar as suas mangas e ajudar? O que tem feito para o combate da AIDS, a não ser proibir o uso da camisinha. Os seus padres quando aliciam crianças não usam camisinha? Mas é melhor ficar julgando do que fazer algo de útil.
Enquanto o senhor bispo ataca os homossexuais em Dourados, contribuindo para um maior segregacionismo na sociedade, excluindo ainda mais uma parcela da população, com o seu discurso homofóbico, os seus irmãos de fé no Pará, fazem algo muito mais útil para a sociedade – Denunciam madeireiras clandestinas, combatem a prostituição infantil, denunciam o narcotráfico – ou seja, esses são os verdadeiros representantes de Deus na Terra, porque agem com justiça em prol dos necessitados, dos injustiçados, não ficam por aí atirando pedras aos lados projetando nos outros os seus desejos e suas emoções.
Jung, um grande psicólogo do século XX, estudou o comportamento humano através das projeções que o indivíduo lança no outro e descobriu que a forma como nos relacionamos com as pessoas nada mais é do que uma projeção que fazemos nessa pessoa daquilo que gostaríamos de ser ou fazer. Pense nisso, porque de repente é o que a comunidade gay de Dourados pode estar pensando do Senhor, ou seja, que projeta no seu discurso homofóbico o que carrega latente na alma.
E para finalizar, lembro do grande mandamento do mestre Jesus que diz: amai uns aos outros como a ti mesmo, quando Dom Redovino ataca, culpa, os homossexuais da forma como fez em seu artigo, eu pergunto – Onde está o seu amor ao próximo, que exclui e não aproxima, não inclui? É esse o papel da igreja? Será que essa Igreja depois de tantos erros, tanta violência não aprendeu nada?
*Professor e pesquisador das Representações afro-brasileiras no Mato Grosso do Sul.
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