“É uma dor que ninguém arranca, é invisível, não se detecta por nenhum aparelho tecnológico, e só sabe a sua profundidade quem viveu situação semelhante, só aquele que já passou por ela”. Esse é um trecho da carta que Alvimar Amâncio da Silva, 55, escreveu para o pai de [Vanessa Freitas Paraiba,20, jovem que foi vítima fatal de um acidente na Avenida Marcelino Pires no dia 18 passado]( http://www.douradosnews.com.br/dourados/ciclista-morta-em-acidente-com-caminhao-cacamba-na-marcelino-e-identificada).
O autor da carta também perdeu o filho em um acidente de trânsito na cidade [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/dourados/jovem-morre-em-acidente-de-moto-na-madrugada-de-hoje) e escreveu a mensagem em busca de prestar solidariedade a quem, como ele, sofre com a perda de um filho.
Ele conta que ficou chocado ao saber da morte da jovem e imaginou a dor de seu pai, por já ter vivenciado situação similar e então decidiu colocar nas linhas as palavras de conforto.
“Foi uma maneira de expor o que senti, me comovi por já ter me acontecido essa perda que dói para sempre comigo, então quis prestar um consolo dessa forma, com minha mensagem”, contou.
O abraço de pesar de pai para pai aconteceu no sepultamento, instante em que Alvimar pretendia entregar a carta pessoalmente ao homem porém, devido as emoções do momento preferiu deixá-la com uma jovem da família que garantiu a entrega.
“Ela prometeu que passaria para ele, preferi assim, pois ele estava muito abalado, mas consegui dar um abraço, dizer que sinto muito por já ter vivido algo assim e deixar meus sentimentos”, conta.
[Alvimar cita que a publicação de uma carta, expondo os sentimentos da perda após a morte de seu filho]( http://www.douradosnews.com.br/especiais/opiniao/pai-do-produtor-da-94-fm-divulga-carta-em-homenagem-ao-filho-morto), foi uma importante maneira de “desabafar” e que o proporcionou troca de experiências com muitos outros pais que passaram pela mesma situação, fato que o ajudou a ter forças.
“Foi importante para mim e por isso busquei o contato com ele. Troquei mensagens com pessoas que viveram isso também e um confortava o outro. Teve até um pai da Suiça com quem conversei, foi uma muito bom para mim expor, compartilhar isso, me ajudou a me recuperar”, contou.
Ele é enfático ao dizer que as pessoas precisam ter mais consciência e respeito no trânsito. Ele ressalta que se todos obedecem a lei, muitas tragédias poderiam ser evitadas.
“É um absurdo termos que lidar com a imprudência de alguns que continuam a causar mortes. Nessa situação acredito que foi mais uma fatalidade, não teve a intenção, mas aconteceu. O que é preciso é que se atentem não saiam por aí embriagado ao volante, com desrespeito a sinalização e outros delitos, é lamentável”, finaliza.
Alvimar cita que deixou também o seu contato junto com a mensagem e que aguarda que o homem o procure. Ele conta ainda que o contará o que a dor o ensinou como a maior valorização da família e o exercício da fé.
“Sei que palavras não vão suprir essa dor, mas quero poder ajudar, contar o que vivi e ouvir dele sobre isso também. O que vou poder aconselhar é que o melhor é se apegar com Deus para força no dia a dia e ter a consciência de viver ao máximo cada momento com a família”, diz.
Confira a carta na íntegra:
Pai...oh,pai!que momento difícil você está passando agora!
O pior momento que um ser humano pode passar é este, o de um pai que perde um de seus filhos...o de um pai que sepulta seu próprio filho contrariando o curso natural da vida.
Pai,pai, que cruz pesada! A vida que levamos é tão difícil e esta vida cheia de tantos tropeços, de altos e baixos, parece que insatisfeita com as lágrimas comum que de seu rosto derramava,cravou-lhe uma espada terrível em seu coração, amargou-lhe seus dias futuros para sempre com a notícia desse trágico acidente em plena luz do dia na Av.Marcelino Pires em Dourados-MS, fazendo com que de seus rolem lágrimas de sangue,transformando seu olhar em eternamente triste.
De agora em diante seu olhar para esta vida nunca mais será o mesmo, quem olhar profundamente nas pupilas de seus olhos verá que dentro de ti há a maior dor que um pai não gostaria de viver, que é velar e sepultar seu próprio filho.
Nenhum pai quando ainda era jovem acredita que nasceu para isso, nem um pai gerou filhos para imaginar que um dia seus olhos veriam tão triste fim.
Pai...paizinho! Não há palavras que consolem em um momento como este. Dizer “meus pêsames” é muito pouco, muito embora é a frase que todos que lhe cercam dizem nestas horas como única forma de querer lhe consolar. Recebe-se por uma atitude de respeito, pois afinal é tudo, é o máximo que um ser humano pode falar para outro, mas sabe-se que não consola.
Essa dor terrível, horrível dentro do peito roendo, corroendo, parece queimar os pulmões, os ossos, o sangue e enfim parece colocar o corpo inteiro e a alma em chamas. Pai, é uma dor que ninguém arranca,, é invisível, não se detecta por nenhum aparelho tecnológico, e só sabe a sua profundidade quem viveu situação semelhante, só aquele que já passou por ela. Os que estão em sua volta imaginam o tamanho, mas não a conhecem , pois esta dor trazida pela morte na perda de um filho é imensurável, infinita, é tão inexplicável. que como muitos já disseram que ao pai desolado não se tem um nome que defina seu estado após a perda de um filho.. Uníssonos todos dizem : “quem perde um de seus cônjuges fica viúvo ou viúva, o filho que perde os pais fica órfão, mas os pais que perdem um filho(a) até hoje não arranjaram um nome.
Pai, sou seu companheiro ,também tenho filhos e perdi um deles inesperadamente,sou igual a ti nesta dor e choro, sou igual aos demais que tentam lhe consolar com as mesmas palavras que um dia também me disseram : “Meus pêsames.”
Há um grito contido, reprimido dentro deste peito, vem –se um tremer de queixo e lágrimas que rolam. Sei que nestas horas e depois , haverá de se passar na mente um filme desde o dia em tua filhinha nasceu, que era bebê, que veio ao mundo e foi sua alegria junto com a mãe que a gerou.
Sei que há de lembrar do gatinhar, dos primeiros passinhos, das roupinhas, do choro, do sorriso, e das primeiras palavras balbuciadas e de todas fases da infância mais engraçada.
Sei que há de se lembrar dos dias em que ela começou a ir a escolinha estudar, das primeiras “tias”professoras, dos cadernos, do lápis e das primeiras letras do A-E-I-O-U, das reuniões de pais e mestres, e de tantas outras alegrias e ocupações que sinalizavam que a vida estava ali.
E agora acabou-se, óh pai ! Acabou de repente como um piscar de olhos...como um relâmpago que relampeja nos céus a vida de sua filha foi muito rápido, era a flor da idade, ontem de uma hora para outra na Av.Marcelino Pires tudo finalizou.Já não haverá mais o abraço do dia dos pais, o passar de ano juntos, aquela voz que tantas vezes lhe chamou em alegria ou sustos quando criança, no seu pior momento para lhe socorrer não pode gritar por ti.
Pai.... sei o quanto deve ter se assustado, o quanto deve ter sido esse impacto quando as primeiras notícias lhe chegaram aos seus ouvidos. As pessoas que ficam sabendo primeiro tentam ocultar e se recusam a falar a palavra morte. Os gritos de desesperos de todo familiar e todos querendo acreditar que é mentira , que foi um engano, que deve ser outra pessoa, pois nunca imaginamos que aquilo que um dia aconteceu com outros agora também está acontecendo conosco, sempre queremos que não seja verdade , mas a cruel realidade lamentavelmente nestas horas fala mais mais alto.
Sei quanto é doloroso nesta hora ir atrás de documentações, ir em funerária ver caixões, ir em cartório registrar o falecimento para obter o atestado de óbito... é a dor mais triste que um pai sem querer tem de passar. Sei que nestas horas há indagações aos céus de “por que não fui eu, ó meu Senhor!?”...Logo minha filha que ainda tinha um longo caminho pela frente, Ó Deus“eu já vivi minha vida!”! A minha vida sem qualquer um de meus filhos acabou-se, e viver daqui pra frente é sem sentido! Nossa maior riqueza são nossos filhos e quando um deles se vai ( com maior respeito aos filhos que ficam),mas o nosso mundo se acaba. Se temos três ,queremos até o final de nossas vidas os três; se temos dez ,queremos os dez, ver um deles partir e nunca mais vê-lo, a partir dali vive-se por viver.
Pai ,´perdoa, se o que aqui lês lhe fere, não foi este meu objetivo, e por não ter palavras quero lhe dizer que és mais um entre tantos outros que sofrem esta perda irreparável. Tudo se passa, mas a perda de um filho não passa, dias após dias vem em nossa lembrança todas as fases que um filho viveu até ao último dia que o vimos com vida. O tempo nas nossas lembranças estaciona, estagna ali no dia triste de sua morte! Os outros envelhecem, nós envelhecemos , mas a imagem do filho que perdemos para-se na idade que ele tinha quando desta vida partiu..
Espero, ó pai...que em respeito à sua dor nunca lhe mostrem nem a imagem de sua filha coberta , caída no asfalto,a bicicleta ao lado, fita amarela de isolamento, polícia, Samu e corpo de bombeiros que vieram prontos e equipados para dar os primeiros socorros, mas diante da fatalidade nada podiam mais fazer.É muito triste e forte esta cena.
Demorei tempos para acessar os sites que publicaram a morte de meu filho, era o receio de que em algum deles tivesse a imagem do corpo dele caído no asfalto. Dei graças a Deus, de nunca ter visto esta imagem e as fotos que dele vejo sempre foram do jeito que ele era, de bonezinho na cabeça tal como ele gostava de andar, sorridente, e esta é a imagem que sempre vejo e guardo no coração.
Quero que Deus lhe dê as forças que ser humano algum não pode lhe dar, e que todos os dias Deus possa estar juntinho a ti e que os anjos da glória dos céus desçam e venha lhe consolar em cada momento de choro e de saudade junto com todos os seus familiares.
Se alguma destas letras lhe ferir, lhe machucar ou lhe magoar, perdoa-me . Escrevi-lhe esta apenas para dizer que conheço no íntimo esta sua mais profunda e horrível dor, em minhas orações lembrarei de ti com os desejos que Deus lhe console.
Fique com Deus !
Alvimar Amancio da Silva
Dourados-MS, 19/02/2016
• Meu filho foi morto na madrugada do dia 14/12/2012 quando uma camionete F350 conduzida por motorista alcolizado cruzou a preferencial na Rua Monte Alegre e o arremessou a 10metros de distância. Ao sepultá-lo, com ele sepultei todos os sonhos mais lindos que um dia nele desejava ver. Queria um dia vê-lo casando, tendo filhos, me dando algum netinho ou netinha provindo de sua união conjugal, mas morreu solteiro, com apenas 21 anos. Trabalhava na sonoplastia em uma das emissoras de rádio nesta cidade, dizia que no mínimo seria aquilo que fui na minha juventude em três lagoas, ou seja,um locutor . Tinha o mesmo nome que eu, acrescido de Junior no final, mas seus amigos o apelidaram e carinhosamente o chamavam de “Zeba”.
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