Aos homens: preparem a calça ‘boca de sino’, o sapato com salto plataforma e a caixinha de cigarro no bolso (Hollywood ou Marlboro, por favor). Às mulheres: uma leve ‘batida’ no cabelo para dar ainda mais volume ao corte pigmaleão, roupas e maquiagens coloridas e vibrantes. Nesta reportagem da série “Memória Viva” em comemoração aos 80 anos de Dourados, o convite do Dourados News tem destino certo para um tempo que até quem não viveu quer retornar: as boates que “bombaram” em Dourados nos anos 80 e início dos 90. Degrau, Overnight e Broadway.
“Era o que tinha na época e era o auge”, conta o funcionário público, Nilton Pinto Santos Rodrigues, 52, conhecido como “Kareca” e um dos frequentadores assíduos dessas festas. “A gente se encontrava todo mundo no Kikão, que antes era um trailer e depois que virou restaurante. Saia de lá quando era umas onze horas ou meia noite e ia para a boate. Terminava na madrugada, então a gente ia para a feira comer frango e sabia que todo mundo que a gente viu na festa, ia encontrar lá de novo”, lembra.
Naquela época, quem queria chegar na balada “estiloso”, precisava incorporar um jeitão de John Travolta. “Era mais ou menos aquele jeito que você vê no filme ‘Os Embalos de Sábado à Noite’. A gente se vestia assim”, conta o funcionário. O filme foi sucesso em 1977, ou seja, próximo a chegada dos anos 80 e virou referência para o estilo de toda uma geração.
Para impressionar as “gatas” nas boates tinha que ter um cigarro para oferecer, das marcas que na época apareciam na televisão. “A gente tinha que ter uma caixinha de cigarro no bolso, mesmo quem não fumava carregava uma, como é o meu caso. Escondia em casa dos pais, porque não podia fumar, e aí colocava no bolso para levar à festa”, relata.
A gerente executiva Claudia Maria Zanqueta Leite, 44, conta que o “look” feminino era sempre mais despojado. “A gente tinha o cabelo ‘sarará’ e ia para a festa assim mesmo, ninguém tinha alisamento não, até porque era a moda da época. As roupas eram bem coloridas, as douradenses sempre se vestiram muito bem. Era um tempo muito gostoso”, lembra Claudia.
As bebidas servidas na época iam desde o refrigerante e a cerveja, até whisky, caipirinha, cuba-libre ou menta, por exemplo. “Era uma geração diferente. A gente não saia só para beber, saia mais para se divertir mesmo”, conta Kareca.
Claudia também lembra daquele tempo em que consumir bebidas alcoólicas não era primordial para os “baladeiros”. “A gente ia para curtir a música e se reunir mesmo”, relata. Além do Kikão, Bochecha e casa dos parentes, ela conta que as boates eram as únicas opções de diversão para os jovens. “As pessoas se reuniam mais e tinha mais facilidade de estarem juntas”, relata.
As três boates que fizeram sucesso nesse período em Dourados marcaram uma geração, são diferentes, mas tem histórias que se cruzam. Todas funcionaram na chamada “baixada do polengue”, no KM 2 da avenida Presidente Vargas, saída para Itaporã. Mas, tudo começou antes dali.
Em 1984, os irmãos Raufi, Clodoaldo e Lupércio Marques montaram uma boate provisória bem no ‘centrão’ da cidade, na avenida Marcelino Pires, em frente à Riachuelo. “Bombou, assim decidimos levar em frente a ‘brincadeira’”, conta Lupércio, que é jornalista e empresário.
Foi quando os irmãos primeiramente alugaram o Restaurante Degrau, já na baixada do polengue, e montaram a Boate Degrau. Resultado: também foi um sucesso. Nessa época, MPB, Zé Geraldo, Dominó, Samba, Vanerão e muita Discoteca eram o que atraia os frequentadores.
Convite para conhecer a Overnight Club em Dourados (Foto: Arquivo Pessoal)Porém o contrato de aluguel do Restaurante era de “boca”. “O dono nos colocou para fora depois da boate ‘bombar’ também. Ficamos na mão, mas após três meses compramos o Restaurante”, conta Lupércio. A boate retornou com o nome de Overnight Club, reinaugurada em 1986 e ficou neste local até 1989. Em 1999 retornou, funcionando na galeria Dourados Center com o nome de Overnight Dourados Center.
Entre os anos 85 a 89, o som que movia os “baladeiros” da época mudou. Veio a explosão do Rock Nacional e das Bandas Londrinas. RPM, Capital Inicial, Queen, The Rolling Stones e outros. Além dos hits americanos, chamados de sucessos comerciais que tocavam nas FMs.
Na Overnight, o som era comandado por DJs. O da casa que animava todas as noites era mesmo Lupércio, ou DJ Lupa. Não havia o costume de trazer atrações de outras localidades, como existe hoje. Era o DJ da casa que fazia sucesso e amigos que contribuíam agitando a pista.
A maior atração de fora a tocar no local foi a Banda 365, que se apresentou no dia 1º de setembro de 1987. Porém, a boate promovia shows nacionais no Ginásio do CAD (Clube Atlético Douradense) e trouxe bandas como Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor.
O local era simples: pista de dança, bar, caixas de som, muita iluminação e fumaça. Era sempre o DJ Lupa e um amigo na Iluminação para fazer a noite acontecer. Os frequentadores eram a “moçada” da cidade, a partir de 14 anos de idade até seus 20 e poucos. A maioria de classe média e média alta.
Geralmente a festa começava às 23h. “Muitas gatinhas tinham que voltar para casa às 22h, outras 23h, meia noite e por aí”, relata Lupércio. No entanto, a festa mesmo terminava às 4h. “Depois que sobrevivesse ia para os lanches da cidade”, lembra ele.
“Era famosa em toda a região. Quando a gente chegava em outras cidades, todo mundo ficava perguntando como é que era a Overnight e muita gente vinha a Dourados só para conhecer”, lembra o frequentador Rodrigues.
Lupércio Marques ou DJ Lupa em tempos de Overnight (Foto: Arquivo Pessoal)As histórias contabilizadas na época são muitas e estão na memória do DJ Lupa. “Gente dançando, bebendo, fumando maconha, cheirando lança perfume, dando tiro, traindo a namorada (o), saindo do armário. Muita briga, muita mesmo”, lembra ele, porém os detalhes promete contar num livro que escreverá sobre a Geração Anos 80 em Dourados.
Seguindo uma linha parecida com a Overnight, em 30 de abril de 1991 foi inaugurada a Broadway que ficou igualmente famosa. Uma sociedade de Lupércio com os irmãos Marcos e Alemão Munarim que durou até 1996. Nos primeiros cinco anos, a boate funcionou na baixada do polengue. Em 14 de novembro de 1996, foi inaugurada a nova casa, com a família Munarim, que funcionou por três anos na rua Coronel Ponciano (espaço de dois pisos, toda acarpetada e com ar condicionado).
Alemão conta que o movimento da Broadway acontecia todas as sextas-feiras, com shows ao vivo de artistas que eram pratas da casa. Entre esses, Armando Piai, Carlos Fábio, Abenel, Claudinha, Tim e o Bico do Trombone, entre outros. Jovens e casais com idades mais avançadas se misturavam na pista para curtir o som. “A diversão era sadia e segura”, conta ele.
No Reveillon, decoração da Broadway ficava mais elaborada (Foto: Arquivo Pessoal)O empresário ainda relata que o espaço da boate era cedido ou contratado por estudantes universitários que à época realizam muitas promoções. Além disso, “vários artistas passaram por lá, eram realizados desfiles com manequins famosos e festas que chamavam muito a atenção dos jovens”, conta.
Entre estas estava a “Noite das Mulheres”. Até meia-noite só mulher podia entrar e até esse horário a bebida era liberada. No “open bar” da mulherada era servido caipirinha, Amarulla, cerveja, água e refrigerantes. Em todo aniversário da Broadway, uma camiseta comemorativa era o convite e sempre tinha uma atração especial, DJ Gilson e DJ Evandro, ambos de Campo Grande, animavam o local.
Mas, um ponto alto mesmo foi no dia em que teve a “Noite da Banheira”, “igual à banheira do Gugu, com a mesma artista que na época era atração da banheira. Tivemos que fechar a portaria às 23h30, pois não cabia mais ninguém”, conta ele.
Ainda foi bolada no local a “Quinta Sertaneja”. No final da festa tinha macarronada. “Era o maior sucesso, tinha gente que não ia embora enquanto não comia”, conta ele. Depois de um tempo passou a ser a “Sexta Sertaneja”. Passaram pelos palcos da Broadway os grupos Tradição, Alma Serrana, Canto da Terra. Zíngaro, Minuano do Paraná e outros.
Broadway lotada para festa nos anos 80 (Foto: Arquivo Pessoal)Deixe seu Comentário
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Estilo de se vestir característico dos anos 80 e início dos 90 (Foto: Arquivo Pessoal)