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MEMÓRIA VIVA

Nos anos 70, “lobisomem” aterrorizou e deu trabalho à polícia

07 dezembro 2015 - 07h56

Um bom atirador, bem armado e exímio em fugir após praticar sozinho todo tipo de delito, “Lobisomem” aterrorizou Dourados em meados dos anos1970 e está na memória de Oduvaldo de Oliveira Pompeu, 68, ex-delegado que não à toa tem apelido de jogador de futebol: “Telê”. Para dar continuidade à série “Memória Viva”, o Dourados News convidou ele e o também ex-delegado Ezequias Freire, 86, para contar como era a segurança pública numa época em que os recursos tecnológicos praticamente não existiam e a “Lei do 44 no Mato Grosso” ainda fazia a fama do Estado.

Pompeu não se lembra do nome de batismo do bandido apelidado de “Lobisomem”, mas se recorda muito bem que o “camarada deu um trabalho tremendo”. “Ele era um marginal que agia em vários setores e deu trabalho mesmo. Tivemos vários encontros com ele, era muito perigoso”, relata.

Um dos momentos em que policiais ficaram frente a frente com o bandido foi em Indápolis, distrito de Dourados, onde havia o inspetor chamado Esmeraldo Penzo, figura que ficou icônica no distrito por usar uma bota peculiar e cuja viatura policial para percorrer o local era um VW Fusca. O carro era bastante usado pela polícia naquela época.

Penzo foi informado de que o “Lobisomem” estava indo para lá e foi montado um cerco para tentar pegar o marginal. Houve confronto entre ele e a polícia, mas o bandido conseguiu mais uma vez escapar. “Ele assustava pelo apelido, porque praticava os delitos, era bem armado e atirava muito bem. Ele realmente agia sozinho, praticava crimes de toda ordem e tinha facilidade nas fugas”, relata. O bandido acabou morto tempos depois num confronto com a polícia.

Outro ‘marginal’ que aterrorizou a cidade também tinha um apelido diferente: “Quati”. Esse também era terrível e teve o mesmo destino do Lobisomem, morreu num encontro com a polícia em Naviraí.

Apesar de alguns terem facilidade para a fuga, escapar da polícia naquela época não era uma tarefa assim tão fácil. Como os meios de transporte ainda eram poucos, muitos dos criminosos acabavam fugindo a pé, ou seja, dificilmente iam muito longe. Na cidade a luz acabava cedo, porém os policiais faziam as buscas com a luz das viaturas mesmo.

Furtos e assaltos que hoje acontecem aos montes, naquela época quase não existiam. Os delegados lembram que havia um respeito maior às autoridades e os bandidos tinham medo da polícia. “Antes um ladrão chegava a sua casa e se você acendesse a luz ele corria. Hoje se você fizer isso, é capaz dele atirar em você”, conta Freire.

Tanto Ezequias quanto Telê atuaram como delegados em Dourados nos anos 70. Depois de se tornar investigador de polícia e exercer a função de delegado em várias delegacias da região, Ezequias assumiu a unidade douradense em 1974. Ele foi transferido, então Pompeu assumiu seu lugar em 76, um ano depois de sair da faculdade. Eles também exerceram a função na cidade em outras épocas posteriores.

Nesse primeiro período, a delegacia funcionava onde hoje é as instalações da Escola Municipal Professora Avani Cargnelutti Fehlauer, que fica na rua José Roberto Teixeira (prolongamento da Weimar Torres), no Jardim Flórida. Era também no mesmo prédio a cadeia pública, numa época em que a cidade não tinha presídio ainda, ou seja, o local fazia as duas funções e a figura de diretor da cadeia era também do delegado.

A altura do muro do local era a mesma que a escola tem hoje e não havia uma cobertura diferenciada para os presos tomarem banho de sol no espaço que hoje é o pátio da escola e os soldados ficavam nos cantos do muro. Resultado: volta e meia os policiais tinham que sair em busca de presos que fugiam do local simplesmente pulando o muro.

“De vez em quando um pulava o muro e saia correndo, porque o muro era baixo. Eles saiam correndo para as casas vizinhas e era um ‘pega, não pega’, uma correria, porque a gente tinha que correr atrás para pegar o preso”, conta Telê. Isso com um efetivo de policiais que era pequeno para o tamanho do trabalho: cuidar dos presos, da estrutura da cadeia e investigar os crimes que aconteciam na cidade.

Todos os agentes naquela época eram nomeados por políticos, dos delegados aos demais policiais. Não haviam concursados como hoje. Então, as transferências e remoções eram mais comuns. Qualquer atitude que desagradasse um político era motivo de mandar o profissional para outra cidade. Até mesmo os delegados sofreram bastante ingerência e eram transferidos por considerar que não estavam “compondo” com a classe política.

“Eu nunca atendi ninguém, fazia o que estava na lei e pronto. Fui transferido para várias cidades do Estado por não acatar ordem política absurda. Eles pediam ‘libera isso’, ‘libera uma arma’, ‘não é para esse ser autuado em flagrante’. Isso era constante”, lembra Telê.

Apesar de tentar resolver esse tipo de pedido no diálogo sem ter que cumprir o pedido, Ezequias também passou por isso. Quando saiu da delegacia de Naviraí para Rio Brilhante, foi porque não devolveu a pedido de um político o revólver de um homem que foi preso dando tiros para cima num bar da cidade. Esse pedido de “liberar” revolver apreendido era comum também em Dourados.

A maioria das pessoas procurava andar armada. “A gente se deparou com vários problemas com porte de arma”, lembra Telê. Nessa época, ainda havia a fama de que no Mato Grosso o que valia era a “Lei do 44”, em referência a resolver os desentendimentos fazendo justiça com as próprias mãos usando revólveres de calibre 44.

Apesar da fama ainda perpetuar, nessa época nem tudo era resolvido “na bala” mais nessa região. Ezequias conta que os policiais que o antecederam haviam “colocado ordem” na cidade e isso não era mais necessário. Porém, brigas, desentendimentos e homicídios continuaram no topo dos casos que mais iam parar na polícia.

Mesmo os pequenos furtos e assaltos quase não existindo, havia um tipo de veículo que era visado e bastante levado dos douradenses: a F 1000. Pompeu conta que era muito encomendada pelos bandidos paraguaios para usar em fazendas e instâncias. “Nós conseguimos desbaratar várias quadrilhas que roubavam a F 1000 aqui para levar ao Paraguai, era um veículo muito cobiçado pelos marginais de lá”, lembra. O tráfico de drogas naquele período já existia, mas não era tão forte nessa região e concentrava na distribuição de maconha apenas.

Investigar os crimes que aconteciam, também não era lá uma tarefa das mais fáceis. Freire conta que o papel das testemunhas era ainda mais fundamental naquela época. Imagine só: o policial ia à cena do crime para verificar o ocorrido, mas não havia perícia técnica para analisar os elementos (como sangue e digitais, por exemplo), nem câmeras de segurança em prédios para mostrar quem passou pelas redondezas, e outros recursos que são atuais.

“Hoje a tecnologia praticamente coloca quem está investigando dentro da cena do crime. Naquela época, a gente ia até os locais, mas não tinha esses recursos. Então era a astúcia do policial, tinha que ter criatividade e bons informantes”, relata Pompeu.

Pessoas “de bem”, homens e mulheres, que se infiltravam entre os marginais ou moravam nas proximidades de onde criminosos atuavam e sempre abasteciam a polícia com informações, sob o acordo de suas identidades não serem reveladas. Fazendo o trabalho de “espião”, quem denunciava sempre ficava popularmente como “cagueta”, mesmo ninguém sabendo sua identidade.

Telê conta que a polícia sempre mantinha boa relação com os informantes e iam atrás das apurações. “Mas, não fazíamos acordo com bandidos. Eram sempre pessoas de bem, que colaboravam com a polícia”, relata. Ele conta que eram pessoas, por exemplo, que moravam próximas a uma boca de fumo, observavam as movimentações e se informavam a respeito, para relatar à polícia o momento ideal de agir em flagrante.

Rodas e arrastões também eram realizados. Na cidade onde o asfalto ainda não existia, o carro da polícia era um jipe. Já a viatura camburão quando chegou recebeu um apelido interessante: “Corintiana”, devido às suas cores preta e branca. “Quando a gente passava pelos bairros o povo logo falava, olha lá a ‘Corintiana’. A ‘Corintiana’ está chegando”, relata Pompeu.

Num trabalho intenso, ameaças de morte aconteciam. Porém os casos mais extremos ocorridos com os dois delegados, não foram em Dourados. Telê, por exemplo, se emociona só de lembrar do atentado que sofreu quando morava em Amambai. O carro em que estava ficou danificado com os tiros, mas ele saiu ileso.

Já Freire não chegou a ver quando quase foi assassinado em Naviraí. O delegado procurava um homem que matou a mulher a facadas em cima de uma mesa, depois que ela saiu de casa e foi obrigada pela família a voltar para o esposo. A perseguição era numa mata e o homem contou em depoimento à justiça que chegou a colocar a faca próxima às costas do delegado, mas quando estava perto desistiu de cometer o crime.

Em Dourados, muitos impasses ficavam por conta de famílias conhecidas. Como Pompeu nasceu aqui, vez ou outra um conhecido acabava em encrenca. Alguns acreditavam que ele iria ajudar, outros iam à casa de seus pais reclamar do que ele havia feito. Vez ou outra tinha que explicar aos amigos que eles precisavam o ajudar andando na linha, que não tinha como deixar de cumprir a lei e que quem julgava era a justiça.

Havia ainda aqueles que se rebelavam ou se sentiam impunes por serem filhos de alguém influente ou ligados a políticos. “Eles diziam ‘eu não vou preso porque sou filho do fulano de tal’, ‘não vou preso porque eu tenho cobertura do deputado tal’, e até apareciam alguns políticos dizendo ‘tem que liberar porque esse é fulano ou beltrano’. Eu tinha que explicar que isso era com a justiça”, relata Pompeu.

Também por influência política, Freire deixou de ser delegado quando houve a criação do Estado. O então governador Garcia Neto o chamou no Alphonsus Hotel, colocou a mão em seu ombro e disse para procurar uma secretaria do Estado para ser transferido. “‘Não quero você na polícia mais, você é muito bom para ser polícia, você não serve para ser polícia’, ele [governador] falou desse jeito na minha cara e eu fiquei pensando: e agora? O que eu vou fazer, se só sei fazer isso?”. Posteriormente lhe deram um cargo na Secretaria de Fazenda, onde acabou aposentando. “No primeiro salário vi que ganhava três vezes mais do que como delegado, aí fiquei feliz”, relatou ele, que se tornou um agente tributário estadual.

Já Telê encerrou sua carreira na polícia, após passar por várias cidades do Estado como delegado e também pelo DOF (Departamento de Operações de Fronteira), Telê se aposentou no ano de 2010 como o primeiro delegado do SIG (Serviços de Investigações Gerais). “Nós colocamos a cidade em ordem”, relata ele, que recebeu várias condecorações pelo trabalho exercido na polícia.

Aos dois delegados, a sensação é de dever cumprido. “O que era para fazer, dentro das normas e das leis eu fiz. Sonho muito orgulho porque entrei e sai pela porta da frente da segurança pública. Reconheço que fiz um bom trabalho”, diz Telê. Além de atuar como delegado, ele realizava um trabalho social de orientação a dependentes químicos para saída do mundo das drogas.

Ex-delegado Telê, mostrando as honrarias pelos serviços prestados (Foto: Fabiane Dorta)

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