Entre perdas, o termo “linha de frente”, expressão que deriva das batalhas militares para designar a equipe que fica mais à frente em uma guerra, é a que melhor se adequa as equipes de saúde que desde o início da pandemia travam batalhas contra o Coronavírus. Batalhas que, em Dourados, ficaram ainda mais difíceis nos períodos que precederam o lockdown e resultaram em centenas de baixas.
Passado um ano desse período, considerado o mais crítico, a maior e mais populosa cidade do interior do Mato Grosso do Sul acumula mais de 700 óbitos, apenas de moradores locais, número que só não é maior devido a atuação incansável de guerreiros como o médico Pedro Avelino Anno e o enfermeiro Lidimaico Constâncio Vieira que, assim como muitos outros profissionais, praticamente moraram nos hospitais onde salvaram vidas, choraram com perdas e tentaram consolar famílias que sofriam com o distanciamento de seus entes internados.
Natural de São Paulo, o clínico Pedro Anno, 39 anos, atua há 12 anos em Dourados, onde também realizou sua formação acadêmica. Ele conta que quando os primeiros casos da doença surgiram no Brasil, os hospitais em Dourados começaram a se preparar para receber os pacientes, entretanto, com o avanço da pandemia a situação se agravou.
“O período mais crítico foi o que antecedeu o lockdown. Todos os hospitais da cidade estavam com os leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e enfermaria lotados. Chegamos ao nível de lotação onde tínhamos pacientes internados em cadeiras nos corredores, apenas com o oxigênio e utilizando suas próprias roupas, já que o hospital não possuía mais paramentos para atender a demanda”, relembra o médico.
Essa sobrecarga nos hospitais foi o principal ponto para que a prefeitura decretasse o lockdown, período de ‘fecha tudo’ na tentativa de diminuir o número de contágios e desafogar as filas por internação na UTI, que tinha uma média diária de 50 pessoas.
“Era muito triste, porque o paciente não escolhe estar naquela situação, quando alguém procura um hospital ele não busca apenas o atendimento, ele vem atrás de esperança, de um acolhimento. Então a nossa sensação era de impotência, a gente se sentia responsável por aquilo também”, conta Anno.
Plantão de Guerra
A demanda de um paciente de Covid na UTI é muito maior que a de um paciente com outra enfermidade, o que gera um desgaste físico e psicológico ainda maior dos profissionais de saúde. Esse desgaste se agravou com o crescente número de internos somado ao contato com as famílias, que esperavam diariamente as atualizações de cada caso e, muitas vezes, recebiam a infeliz notícia do óbito.
“Um plantão normal geralmente é de 12 horas, mas nesse período já precisamos ficar até dois dias ou mais direto no hospital. Teve uma noite, por exemplo, que eu assinei quatro atestados de óbitos, isso para uma única noite de plantão é muito raro. Era um verdadeiro plantão de guerra”, relata o médico.
“Nosso sentimento era de impotência porque o tratamento não dependia apenas de nós, mas de inúmeros fatores, se tornava algo inviável para todo mundo. Ter que fracionar medicamentos, ver a demanda aumentando a cada dia e a dor dos pacientes e famílias trouxe um desgaste muito grande para as equipes. Eu cheguei a trabalhar 36 horas seguidas, muitos de nós precisamos fazer terapia para lidar com a situação”, conta o enfermeiro Lidimaico Vieira, de 31 anos, que na época trabalhava no isolamento Covid em dois hospitais.
Por trás das máscaras
No momento em que todos utilizavam máscaras para tentar se proteger e, quando internados, precisavam das de oxigênio para sobreviver, os profissionais da saúde entenderam que por trás das máscaras haviam pessoas, sentimentos e histórias que mais do que tratamento, necessitavam de sua dedicação e amor.
“Cada paciente tem sua particularidade, muitos se tornaram amigos, outros infelizmente nós perdemos. Não vem uma doença para o hospital, vem uma pessoa. A gente se colocava no lugar daquele paciente que é pai, filho, irmão de alguém, mas precisávamos isolar de suas famílias, que ficavam na angustia da incerteza. A doença já causa uma fragilidade que possuía carga extara decorrente do isolamento”, relata Pedro Anno.
No auge das superlotações das UTIs, os profissionais da linha de frente, que há muito tempo também estavam isolados de suas famílias, precisaram ser a única forma de comunicação para as famílias que sofriam com a distância dos pacientes, além de muitos serem o último rosto que esses pacientes viram.
“Um caso que me marcou muito é o de um paciente que foi a óbito enquanto a esposa estava na enfermaria aguardando um leito. Ela só pôde ser internada na UTI porque ele morreu e ela ocupou o lugar dele, sem saber na época que ele havia falecido”, conta o Lidimaico.
Aliás, foi através de uma reportagem que viu na TV que o enfermeiro iniciou um trabalho que ajudou diversas pessoas durante esse período, onde e ele e os colegas pediam cartas dos familiares e liam aos pacientes internados. Quando esses tinham uma melhora no quadro de saúde, os enfermeiros puderam com seus próprios celulares realizar chamadas de vídeo ou trocar áudios com os familiares.
“A gente tentava levar um pouco de conforto às famílias que estavam isoladas. Ver um paciente de 20 e poucos anos, com filho pequeno, implorando pra ser entubado e pedir para rezarmos junto com ele porque ele estava com medo de morrer e depois saber que essas foram as suas últimas palavras é muito dolorido. Ouvir o áudio de um neto dizendo que amava a avó e estava a esperando de volta, e ela não voltar, também machucou muito. Então precisamos ir além dos atendimentos. Nossa profissão tem essa característica, acompanhamos desde o nascer até o morrer”, conta o enfermeiro com os olhos cheios de lágrimas. / Foto Hedio Fazan/Dourados News
O alívio do lockdown
Apesar de toda a polêmica que a paralisação total gerou, é indiscutível o efeito que ela trouxe à cidade. Os 14 dias em que todos ficaram isolados em casa, desafogou a fila de espera por internação, diminuiu gradativamente o número de contágios e, por consequência, salvou vidas.
“O lockdown teve o efeito esperado. Já na segunda semana o número de casos reduziu, assim como os de pacientes na espera. Esse foi sem dúvidas o nosso primeiro momento de alívio desde o pico da pandemia”, conta Pedro Anno.
Pra nós que há meses vivámos na pressão das UTIs, onde o sistema de regulação precisava escolher quem iria ser internado e quem não teria essa chance, essFoi o nosso primeiro momento de alívio.
O médico ainda ressalta que paralelo ao lockdown a vacinação também estava em andamento em Dourados, o que auxiliou no processo para o alívio na saúde.
“Desde o início os números foram todos em ascendência. Quando veio o lockdown, já estávamos começando as primeiras vacinações, e aí percebemos que a maioria dos pacientes que se vacinaram, ao menos com a primeira dose, já tinham um comprometimento pulmonar menos agressivo, logo um novo perfil da doença começava a surgir, com maiores chances aos pacientes”, disse.
Gratidão e reconhecimento
Passado um ano desde um dos períodos mais difíceis para a saúde e a pandemia dando sinais de que caminha para se torar uma doença endêmica, os profissionais da saúde ressaltam o trabalho em conjunto e a doação de profissionais de todos setores que atuaram na ‘linha de frente da saúde’.
“Precisamos destacar a mobilização da comunidade cientifica que conseguiu produzir uma vacina com o menor tempo já alcançados. Eu gostaria de agradecer também a toda a equipe da saúde de Dourados, equipe médica, fisioterapeuta, enfermagem, técnico em enfermagem, todos que trabalho no hospital. No hospital não existe trabalho simples, até a contabilidade do hospital é realizada de forma diferente. Para um médico realizar o plantão, é necessário que a equipe da limpeza venha fazer a higienização, a preparação adequada. Essa pessoa que se dispõe a sair de casa e se expor em um ambiente tão perigoso no pico de uma pandemia, demonstra muita coragem e amor. Então precisamos ressaltar isso. Não foi o trabalho de uma só pessoa ou classe, mas sim de todos que trabalham no hospital”, enfatiza o Pedro Anno. / Foto Hedio Fazan/Dourados News
“Hoje eu aprendi a dar valor nas coisas mais simples, no toque, no afeto. Ver uma pessoa se despedir em pensamento porque não tinha a chance de um velório me fez tentar ser melhor. Eu tento melhorar hoje, porque amanhã pode não dar tempo”, afirma Lidimaico.
O enfermeiro também chama atenção para a importância da valorização do profissional da enfermagem, o qual mais tem se desgastado durante a pandemia.
“A sobrecarga dos enfermeiros e técnicos de enfermagem é muito grande e durante a pandemia foi ainda maior. Infelizmente essa não é uma classe valorizada, há 30 anos lutamos por um piso salarial justo. Minha avó, tia e mãe são técnicas de enfermagem, uma profissão que eu tenho orgulho, amo e respeito. Escolhi ser enfermeiro por amor, assim como tantos outros que atuam comigo, mas há anos o pedido por valorização é ignorado. Agora, depois da pandemia, com tanto desgaste e perdas parece que teremos nossa voz ouvida”, finaliza.
No dia 4 de maio deste ano a Câmara dos Deputados aprovou, por 449 votos a 12, a criação do piso salarial de enfermeiros, técnicos de enfermagem e parteiras (PL 2564/20). Entretanto, a lei ainda não recebeu a sanção presidencial, pois ainda falta definir qual será a fonte de recursos para custear o reajuste salarial. Nesta quinta-feira (2/6) a proposta de emenda à Constituição entra em pauta no Plenário do Senado.
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Enfermeiro se emociona ao recordar casos que presenciou durante atendimentos na UTI-Covid - Crédito: Hedio Fazan/Dourados News