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ARTIGO

Inundações e enxurradas em Dourados: combater as causas, não as consequências

30 maio 2022 - 10h03Por Mário Cezar Tompes da Silva*

Nos últimos anos observamos uma visível escalada de um problema que a comunidade e, em especial, o poder público necessitam dispensar mais atenção. Refiro-me à gestão deficiente das águas pluviais em nossa cidade. O gerenciamento deficitário das águas das chuvas tem aumentado a frequência de enxurradas, inundações e prejuízos para os douradenses.

Os desastres decorrentes das chuvas e de sua drenagem deficiente têm-se transformado, agora, em uma regra no cotidiano da comunidade. Em março último, as fortes enxurradas decorrentes de um temporal pesado abocanharam um trecho inteiro da Av. Hayel Bon Faker deixando no lugar da avenida uma respeitável cratera de três metros de profundidade. A tubulação existente no local foi destroçada por não suportar o grande volume de água que superou sua capacidade de vazão. Como resultado o trânsito naquela importante artéria encontra-se interrompido há mais de 60 dias. Tal situação ocasiona um transtorno cotidiano para a população que, residindo na vizinhança, depende da utilização diária daquela via. 

Em 2019, ocorreu algo semelhante na Av. Presidente Vargas como consequência da intensidade das chuvas que desabaram naquele período. O grande volume da enxurrada levou de roldão parte daquela via que, aliás, é uma das principais portas de entrada de Dourados. Em seu lugar surgiu um abismo de 10 metros de profundidade A avenida permaneceu interditada por longos seis meses até ser plenamente restaurada. Mas não por muito tempo, nesse mesmo local, em 2021, parte do asfalto e a lateral da pista voltaram a ceder pela pressão de novas chuvas.  Não há necessidade de enfatizar os dissabores provocados aos cidadãos pela interdição de uso daquela via. Porém, dissabor ainda maior penalizou a comunidade: o reparo da referida artéria custou ao bolso dos contribuintes a bagatela de R$ 871.000,00. A restauração, em curso, da Av. Hayel Bon Faker certamente não sairá por menos.

A má gestão da drenagem das águas pluviais tem resultado em vários outros infortúnios que penalizam fortemente os douradenses.

As mesmas chuvas que em março do corrente arruinaram um trecho da Av. Hayel Bon Faker, também inundaram parte das artérias da área central, causando prejuízos em lojas daquela região. Bairros situados na periferia, como o Santa Felicidade, foram castigados e tiveram várias casas inundadas. A rodoviária da cidade e o túnel que interliga o Parque das Nações I e II foram igualmente tomados pelas águas causando prejuízo a automóveis que por lá transitavam.

Todos estes desastres foram acudidos pela Prefeitura com ações pontuais, intervenções emergenciais que correram para tentar combater as consequências da ação das águas pluviais, descuidando-se de agir sobre as causas que geraram aqueles problemas.

O modelo de drenagem existente deveria evitar os transtornos relatados acima, no entanto, paradoxalmente, termina por agravá-los.

Ele baseia-se na existência de uma rede de boca de lobos que tem por objetivo captar e conduzir as águas das chuvas para os corpos hídricos do Município. A lógica deste modelo é captar o maior volume d’água possível e carreá-lo o mais rapidamente para os córregos da cidade. Ocorre que com a impermeabilização crescente do nosso espaço urbano decorrente da expansão do asfalto, das calçadas e das edificações, a água da chuva não se infiltra no chão e flui em quantidade cada vez maior para as bocas de lobo que a despeja nos córregos. Estes tendo seus volumes e níveis aumentados, escorrem em grande velocidade e ferocidade arrastando o que encontram pela frente, transbordando e inundando o que estiver na vizinhança.

Não à toa a maior parte dos desastres relatados acima localizam-se nos fundos de vale da cidade. Os trechos das avenidas Presidente Vargas e Hayel Bon Faker que foram arrastados pelas enxurradas localizam-se no fundo de vale do córrego Laranja Doce. O bairro Jardim Santa Felicidade cuja população teve suas casas afogadas pelas águas – o bairro denominar-se jardim e, ainda por cima, felicidade é uma ironia debochada – situa-se no fundo de vale do Córrego do Engano. Já a rodoviária encontra-se no fundo de vale do córrego Paragem.

Como sabemos, vivemos tempo de mudança climática, de tal sorte que o problema das chuvas intensas e suas consequências danosas tenderão a agravar-se em Dourados. A cidade e seus gestores não poderão perseverar na atual estratégia equivocada de esperar o problema se manifestar para tomarem providências. Há necessidade de se antecipar ao problema, adotando uma estratégia que evite ou reduza substancialmente sua ocorrência. Para tanto, não se deve focar nas consequências do problema, mas priorizar e suprimir suas causas.

As causas são duas: a crescente impermeabilização da superfície da cidade e a adoção do sistema tradicional de drenagem baseado no raciocínio de captar grandes volumes de água das chuvas e direcioná-los o mais rapidamente possível para os córregos. A solução é a adoção de um sistema de drenagem sustentável que possibilite o aumento da infiltração da água pluvial no solo o que reduziria substancialmente a quantidade despejada nos córregos. Como bônus, a diminuição das enxurradas nas ruas aumentaria substancialmente a vida útil do asfalto, já bastante degradado em nossa cidade. 

A drenagem sustentável trabalha com objetivo oposto do sistema tradicional de drenagem pluvial. No lugar de despejar a maior quantidade possível de água das chuvas nos rios, procura reter a água pluvial no solo, reduzindo sua afluência aos corpos hídricos através da utilização de diversos recursos.

Entre eles se destacam os jardins de chuva (jardins de arbustos que retém temporariamente e absorve as águas pluviais), as bacias de retenção (visando captar e armazenar água), os pavimentos permeáveis (cimento esponjoso que absorve água), trincheiras de infiltração, coberturas verdes (telhados vegetados), faixas filtrantes, poços de infiltração (sumidouros) etc. Esse novo sistema não elimina necessariamente a drenagem tradicional, pode ser integrada a ela, tornando-a mais eficaz. Os lugares que adotam essa nova estratégia transformam-se em cidades esponjas. Elas equacionam as causas dos problemas de drenagem, não desperdiçam tempo nem dinheiro insistindo em combater consequências sempre recorrentes.

*Professor de Planejamento Urbano.    E-mail: mariotompes522@gmail.com

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