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SETEMBRO AMARELO

Homens lideram taxa de suicídio em Dourados

06 setembro 2019 - 13h05Por Vinicios Araújo

De 13 casos de suicídio registrados em Dourados entre janeiro e agosto deste ano, 10 foram cometidos por homens. O elevado índice repete os registros durante o mesmo período em 2018, onde das 15 ocorrências comunicadas à polícia, 13 tinham como vítimas pessoas do sexo masculino. 

Esse fato não é diferente num parâmetro geral do País. Segundo estudo realizado pela Universidade Federal da Bahia, homens brasileiros têm 3,7 vezes mais chances de se matar do que as mulheres. Segundo a Organização Mundial da Saúde, no Brasil entre 2011 e 2016, 62.804 pessoas tiraram a própria vida, 79% delas homens e 21% mulheres.

A psicanalista Vanessa Figueiredo explica que isso ocorre devido à indisposição do sujeito homem em buscar apoio emocional. A concepção cultural de machismo, sugerindo que o homem não deva sofrer, torna a distância entre as vítimas de depressão e outras doenças psicológicas cada vez maior das clínicas de terapia.

O Dourados News divulga neste mês uma série de reportagens alusivas ao Setembro Amarelo, campanha de combate ao suicídio. 

Conforme a Delegacia Regional de Polícia Civil em Dourados, de janeiro a agosto de 2019 foram registradas 13 mortes autoprovocadas. Dessas, a maioria aconteceu entre a faixa etária dos 35 aos 64 anos (8). Até 17 anos uma morte foi lavrada; de 18 a 24 dois casos e de 25 a 34 outras duas ocorrências.

A maioria dos incidentes ocorreu em residências (5 mortes), seguida de ocorrências na reserva indígena (4), em vias urbanas (3) e no Distrito Policial (1).

Os dados em 2018 mostram redução de dois casos durante o mesmo período. No entanto, o índice de suicídio indígena permaneceu o mesmo. Em residências foram 9 mortes, um registro em escola pública e outra morte em presídio. 

Naquele período, as ocorrências se concentraram na faixa etária dos 35 a 64 anos (7), seguida de 4 óbitos entre jovens de 18 a 24 anos, duas mortes com vítimas entre 25 e 29 anos e um suicídio entre as idades de 17 a 23 e 30 e 34.

Ao longo dos últimos cinco anos, ocorreram 91 casos de suicídio na maior cidade do interior do Estado. 

Vanessa Figueiredo afirma que para a psicologia, o suicídio é uma alternativa de solução para a dor insuportável. “O sujeito se vê encurralado e nada que ele tentou fazer foi capaz de amenizar o sofrimento psíquico, então ele pensa no suicídio como solução para a dor. O suicida não tem como proposta acabar com a própria vida, mas sim com o desconforto existente”, explica. 

A abordagem da profissional considera que os indivíduos não desejam a morte pois esse fenômeno não é conhecido. Assim, sem saber como é de fato morrer, ninguém pode afirmar desejar experimentá-la. Isso reforça a argumentação de que o suicida adere à fatalidade provocada como forma de escapar de um contexto psíquico insuportável. 

Ela explica que o suicídio é desencadeado por vários fatores, principalmente pela angústia do existir.

“O sujeito está lá em conflito com ele mesmo e se questionando o por quê da existência dele. Provavelmente por algum fracasso individual, alguma dificuldade, por exemplo a situação dos imigrantes que são obrigados a deixarem seus lugares, suas histórias na busca por sobreviver. Esse sofrimento desencadeia ideações suicidas, que se não forem identificadas e tratadas, podem sim resultado no ato fatal”, afirma. 

A psicanalista ainda completa que, por outro lado, há o desencadeamento pelo simples fato de incompletude. Nesses casos, os indivíduos desejam a morte mesmo tendo uma estabilidade de vida satisfatória, seja no aspecto financeiro, profissional ou familiar. “Essa sensação de incompletude, que nada basta, também gera angústia e ideação suicida”, avalia.

Segundo a especialista, essas ideações são bastante comuns. O Ministério da Saúde pontua que as principais são: descuido consigo mesmo, no aspecto de aparência e higiene pessoal, o isolamento social, a automutilação, as expressões de derrota e fracasso, dentre outras, e a melhor maneira de intervir nessas situações é através da fala. 

“Na psicologia e na psicanálise, a palavra vem para dar conta disso, dar um sentido para tudo isso. Então, quem comete o suicídio não tem o amparo de tratamento, garantindo o sucesso na tentativa de autodestruição”, disse.

Fatores sociais, econômicos e geográficos podem potencializar as probabilidades de suicídio, no entanto o fator emocional é pontuado pela psicanalista como de maior expressividade.

“O sujeito não dar conta das angústias que ele passa, da vida dele. Isso é o que se coloca em questão”, explica.

A psicoterapia impacta o sujeito com seu próprio discurso, isso o faz perceber seu sintoma, enfrentando o real da vida, do insuportável.  Com a fala ele consegue localizar a dor, identifica os possíveis fatores de origem e finalmente é capaz de tomar decisões capazes de amenizar a angústia. 

“O psicólogo pode contribuir ao acolher essa angústia e dar outros destinos para essa angústia, afinal a gente não precisa viver no insuportável. Na análise a fala é recebida sem preconceitos, sem disposição para julgar a legitimidade do objeto de dor. Isso faz toda diferença no processo de superação”, explica.

A psicóloga garante que apesar da medicação, através da medicina psiquiátrica, ser extremamente relevante no tratamento ao sujeito que sofre, esse processo precisa ser integrado ao trabalho da análise, evitando que se torne apenas uma intervenção sobre a dor sem de fato enfrentá-la e superá-la.

O SETEMBRO AMARELO

A campanha do Setembro Amarelo, de abrangência internacional, existe desde 2015 no Brasil e foi trazida pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Desde então, durante o mês são realizadas ações de conscientização e prevenção ao suicídio. 

“É um mês dedicado a ações, discussões e intercessões sobre o assunto. Falar de suicídio é um tabu ainda, porque falar da morte é algo muito temeroso para a sociedade como um todo, sendo ainda mais delicado falar sobre quem busca provocar a própria morte”, explica a coordenadora do curso de psicologia da Unigran Ticiana Araujo da Silva.

Ela afirma que a universidade realiza ao longo do mês de setembro uma aproximação da população para tratar das discussões sobre o suicídio de maneira mais descontraída. 

Ela relata que a principal dificuldade ao abordar as discussões é a indisposição em se falar do fenômeno de morte, “mas quando há uma liberdade para isso, as pessoas acabam comentando sobre suas experiências próprias, situações na família”, comentou.

“É difícil, é um tema delicado, tabu, mas a gente tem conseguido atingir os objetivos”, finalizou a educadora.

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