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Flávio Barbosa, o sapateiro que queria ser vulcanólogo

05 fevereiro 2013 - 08h15

Eduarda Rosa



Em uma pequena e simples sapataria, na rua José Roberto Teixeira, próximo ao Parque Antenor Martins, no Jardim Flórida, pode ser encontrado um experiente sapateiro, Flávio Barbosa, de pouco mais de 70 anos, que apesar de ter parado de estudar na quarta série, tem inteligência e memória invejáveis.

Numa das paredes, um pouco suja do estabelecimento, mostra um pequeno quadro que exibe sua paixão – o vulcão Etna. “Se eu fosse mais novo eu queria estudar e ser um vulcanólogo”, confessa o sapateiro.

A paixão de Flávio por vulcões iniciou antes dos 14 anos “assisti um filme, no Cine Rosário em Jacareí/São Paulo, com de nome Krakatoa (que é o nome de um dos vulcões mais famosos do mundo), deste filme para cá fiquei fascinado com vulcões”, lembra.


Apesar de ser um bom aluno a bagunça fez com que tirasse notas baixas, quando estava na 4ª série, o que o levou a reprovação. Isso o deixou triste e fez com que desistisse de estudar. Para não ficar parado seu pai mando-lhe aprender, com um amigo, a tornearia mecânica, quando já estava “craque” seu mestre teve que ir embora para o Sul, então teve que recomeçar e aprendeu a arte de mexer com couro e produzir sapatos.

Sua vida deu muitas voltas e ele ‘rodou’ o Brasil, morou em nove Estados e tentando cuidar da mulher e dos três filhos, acabou esquecendo por um tempo os vulcões.

Mas depois da falência de sua microempresa, no Paraná, ele foi à rodoviária na intenção de se mudar para São Paulo, mas como só tinha R$ 25, perguntou para onde poderia ir com este dinheiro. A resposta do vendedor foi, “para Dourados, Mato Grosso do Sul”. “É para lá mesmo que eu vou”, disse na época.

Foto: Eduarda Rosa

Em 1998, desembarcou na cidade modelo, começou a trabalhar em uma sapataria e dois anos depois trouxe a família para morar consigo.
Foi neste período que voltou sua curiosidade, “fui trabalhar em uma sapataria e na hora do almoço eu ia descansar na Biblioteca Municipal Vicente de Carvalho. Certo dia pedi um livro sobre vulcão”, lembra.



Sua memória é tão boa que lembrou-se até o número da página do livro, “Enciclopédia Delta, volume 14, página 7998”, foi nesta página que o idoso encontrou o que lhe interessava, mandou fazer uma cópia e plastificar.

A partir daí começou a comprar revistas, livros, fazer anotações e recortar reportagens sobre o assunto, que guarda dentro do balcão de sua sapataria, muito zelosamente.


Os beija-flores fazem companhia ao sapateiro - Foto: Eduarda Rosa

Na companhia dos beija-flores, o sapateiro explica sobre vulcões como se professor fosse, até com direito a fazer perguntas no final. “Se não tivesse os vulcões nós não estaríamos aqui, porque deles vêm dois itens que nós precisamos: primeiro o gás carbônico, que ao chegar na superfície da cratera se mistura com a atmosfera e vira oxigênio; e o sódio que é a química principal do sal, que compõe os mares”, explica o aficionado por vulcões.


Conta também que montou um pequeno aparelho para detectar a erupção vulcânica um ano antes, não sabe se funciona porque nunca foi próximo a um vulcão. Questionado sobre onde estaria o aparelho ele sorri e diz, “ta aqui... na minha mente”, afirma rindo. Mas diz que quer testá-lo se um dia tiver oportunidade de chegar próximo a um vulcão, “gostaria de ir para África e ver o vulcão Niragongo – que acordou em 2001 – está no Congo, se fosse para lá iria testar o aparelho!”, exclama.


Foto: Eduarda Rosa

O septuagenário tem um sonho ousado, até bebe água antes de contar, “em minhas orações peço para que Deus me permita ver as erupções dos vulcões que estão bem longe. Vai ser o ‘acordamento’ dos vulcões no planeta, são 1500 vulcões, não vai ter para onde correr. Todos acordando de uma só vez”.

Ex-espírita e atualmente evangélico, ele ressalta que com o fato, nem todos morrerão, mas se embasa em um texto bíblico para confirmar sua tese, “Não vai morrer todo mundo, segundo a bíblia - Apocalipse 9.18 – ‘Por estas três pragas vão ser mortas a terça parte dos homens, isto é, da sua boca saíra fogo, enxofre e fumaça’, e da onde sai isso? – o vulcão”, ratifica.

Flávio com um de seus livros de vulcões - Foto: Eduarda Rosa

O estudioso diz que existem três livros que não se separam, a geografia, a teologia e a vulcanologia, “Se você abrir a vulcanologia ele fala sobre Deus e sobre a geografia; se abrir a teologia fala sobre vulcão e sobre geografia; e se abrir a geografia fala em vulcão e fala em Deus”.

E são essas curiosidades que fazem com que ele, mesmo após sete décadas de vida, continue ativo e trabalhando “a receita é se divertir até os 50 anos, mas uma diversão sadia, mas depois tem que evitar carne vermelha, cerveja, o cigarro, e fazer caminhada e se cuidar. Mas a dica mesmo é fazer o que gosta, eu gosto demais, porque todo dia eu tenho um dinheirinho na mão, além de que a aqui vem todo tipo de gente e eu gosto de conversar com elas, continuo aprendendo cada dia mais...”, finaliza.

Foto: Eduarda Rosa

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