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VIDA NOTURNA

“Estão passando fome”: profissionais do sexo sofrem com a pandemia em Dourados

12 agosto 2020 - 07h42Por Da redação

A pandemia do novo coronavírus afetou diversos setores da economia. Comércio e serviço foram os mais prejudicados, conforme demonstram os dados do Caged (Cadastro de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho). Mas, além desse cenário formal, existe também um segmento que tem sentido na pele os desafios da crise: os profissionais do sexo. 

Em entrevista ao Dourados News, a gerente do Núcleo de Políticas LGBTQ+ local, Cláudia Assumpção, garantiu que existem profissionais passando fome na cidade. Ela estima que cerca de 100 travestis atuam em Dourados. Este é o público-alvo do núcleo, que também recepciona garotas e garotos de programa sempre que procurado.

A travesti Mykaella Rivas, 32, garantiu à reportagem que só não está sem ter o que comer, porque conseguiu voltar para a casa da mãe, no bairro Estrela Hory. Ela atua com programa há 12 anos e disse que este é o pior período para quem trabalha na noite.

“Dourados quase não tem vida noturna, então a noite é o melhor horário porque é mais seguro para os clientes. Meus atendimentos caíram mais da metade. Eu só não estou passando necessidade porque estou na casa da minha mãe, mas se eu estivesse morando sozinha tenho certeza que ia penar para pagar aluguel. Aqui eu fico mais tranquila e de alguma forma que eu consigo ajudar ela, eu ajudo”, conta.

Ela relata que não recebeu o auxílio emergencial por inconsistência no CPF (Cadastro de Pessoa Física).

O benefício seria muito útil nesse momento, segundo a travesti. Mykaella conta que outras profissionais do sexo próximas a ela estão sofrendo com a falta de trabalho, tendo que tentar programas durante o dia para suprir pelo menos as contas. 

“A gente também tem medo de se relacionar com pessoas infectadas, voltar para casa com o vírus. Dá medo também, mas a necessidade fala mais alto”, afirmou.

DESAFIOS

Com a chegada da pandemia do novo coronavírus e os decretos que limitaram a circulação nas ruas durante a noite, muitas dessas profissionais passaram a depender da internet para prospectar seus clientes. Cláudia Assumpção revela que 90% dos que procuram por sexo residem fora de Dourados, o que deixou a situação ainda mais vulnerável.  

“Quando tudo ficou fechado, eu orientei elas através de lives para que cumprissem todos os decretos. Muitas dependeram exclusivamente da internet para agendar programas e atender seus clientes em motéis. Hoje, com o toque às 22h, elas já voltaram às ruas. Algumas ainda desobedecem, ficam mais tempo, se escondem, mas a polícia vem tratando esses casos com mais passividade porque entendem que não tem outra alternativa para essas meninas”, conta Cláudia. 

Segundo a gerente do Núcleo LGBTQ+, grande parte das profissionais do sexo vivem em pensionatos cuja diária para manutenção é de R$ 50. “Elas estão endividadas, sem conseguir se manter. Algumas estão passando fome. É triste dizer isso, mas é a realidade. E a gente se preocupa. Eu mesmo orientei todas elas a buscarem o auxílio emergencial como forma de incrementar a renda, para as que não moram em pensionatos conseguimos cestas básicas através do Governo do Estado e Secretaria de Assistência Social. Estamos tentando oferecer um suporte, um pouco de dignidade, mas eu sei que ainda não é suficiente para atender todas e com segurança”, relata. 

Cláudia conta que a grande preocupação é com as fugas por dívida e a exposição à criminalidade. Recentemente, segundo ela, duas travesti saíram da cidade por não conseguirem pagar os débitos nas casas de hospedagem. “Essa situação fragiliza a segurança já quase inexistente delas. Nós não temos uma defesa dessas causas no nosso município, infelizmente. Precisamos de força política para fazer mais. Se não é o Núcleo ir pra cima para conseguir algumas coisas, não teríamos sequer lembranças de quem somos e de que existimos. Nossa Câmara de Vereadores é transfóbica, possui uma base religiosa muito forte e ninguém lembra de nós”, disse.

A maioria das travestis em Dourados são naturais de outros estados, especialmente de regiões distantes como Acre e Amazonas. As venezuelanas também têm recebido um olhar especial, devido a fragilidade da língua e a exposição à violência. 

“As pessoas precisam nos reconhecer como cidadãos. Eu já estive no lugar delas. Sei o que é depender da noite e hoje sou uma das únicas que conseguiu ingressar num serviço público. Até quando seremos invisíveis para essa cidade? Somos cidadãos, pagamos nossos impostos. Infelizmente, muitas delas já não acreditam mais que a realidade pode mudar”, relata Cláudia.

Câmara de Dourados

A reportagem procurou a Câmara de Vereadores para posicionamento sobre a atuação pela comunidade LGBTQ+.

Em nota, a assessoria informou que uma das características da atual Mesa Diretora é "garantir espaços na Câmara para ouvir as mais diversas vozes, comprometida com o controle e a participação social, principalmente das minorias, em vulnerabilidade social, como no caso de negros, indígenas e LGBTQI+".

Ainda de acordo com o posicionamento, a Casa aponta que em 2018 foi realizado um ato que tratou dos desafios frente à violência contra as mais diversas religiões, que resultou na instituição do Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa no município, a ser comemorado anualmente no dia 21 de janeiro.

Já no ano passado, por meio de uma demanda apresentada pelo Movimento LGBTQI+, foi realizada uma atividade na Casa que incluiu estudos sobre a viabilidade de políticas públicas, propostas legislativas de promoção ao respeito, segurança e dignidade à comunidade.

"Durante a pandemia do novo coronavírus, diversos movimentos apresentaram demandas à Casa de Leis, mas nenhum deles voltado à temática LGBTQI+'.

A assessoria da Casa finaliza apontando que "independentemente do segmento da sociedade, a Câmara de Dourados está sempre aberta ao diálogo, inclusive tendo as Tribunas Livres nas sessões para manifestações de pessoas e/ou movimentos".

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