A falta de abastecimento de água pode estar na raiz da epidemia de Febre Chikungunya que atinge a Reserva Indígena de Dourados, onde estão concentrados, pelo menos, 70% dos casos da doença registrados no município. Durante o mutirão de órgãos de saúde e serviços urbanos para tentar conter a proliferação do mosquito transmissor, 90% dos focos até o momento foram encontrados dentro de caixas d'água, segundo o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses).
O uso desses reservatórios é a única alternativa de acesso a água para sobrevivência de muitas famílias que moram nas aldeias Bororó e Jaguapiru. Os recipientes são abastecidos periodicamente com caminhões pipa, em alguns lugares apenas uma vez por semana. Muitos ainda deixam as caixas abertas na tentativa de captar água da chuva.
Ainda que algumas casas tenham o encanamento de rede de água instalado, o abastecimento é irregular, o que leva muitos moradores a manterem baldes e outros recipientes debaixo das torneiras para suprir minimamente a demanda da família quando há escassez.
A água parada necessária para rotinas de sobrevivência, como beber, cozinhar e fazer a higiene pessoal e da casa, também favorece a proliferação do Aedes Aegypti.
Além disso, muitas famílias ainda também não conseguem fazer a limpeza da caixa, antes da receber a nova ‘remessa’ de água, seja de caminhão pipa ou da chuva.
“Eu mesma limpo minha caixa para quando vier água, porque somos só nós dois. Mas, quem tem bastante filho e tem que ficar fazendo limpeza, é mais difícil”, explica a indígena guarani Helena da Silva, 54 anos, que mora com o marido, exemplificando o caso de famílias que tem uma demanda de consumo de água maior e mais dificuldade de controlar o consumo.
Ela mora na aldeia Jaguapiru em um local onde só recebe água uma vez por semana. Segundo Helena, a residência dela não é alvo de uma ação de combate ao Aedes Aegypt há anos. “Agora que veio”, desabafou. Segundo divulgou a prefeitura, a atenção primária em saúde nas aldeias seria uma atribuição do Governo Federal.
Indígena Gaurani, Helena da Silva, moradora da aldeia Jaguapiru - Foto: Clara Medeiros / Dourados News
FORÇA-TAREFA
A casa da Helena foi uma das residências que recebeu a visita de uma força-tarefa coordenada pelas secretarias municipais de Saúde e Serviços Urbanos da prefeitura de Dourados, com apoio do Governo do Estado, Prefeitura de Itaporã, Dsei/Sesai (Distrito Sanitário Especial da Secretaria de Saúde Indígena) e lideranças da comunidade.
No primeiro dia do mutirão, foram vistoriados 664 imóveis da aldeia Jaguapiru nesta segunda-feira, dia 09, quando foram identificados 171 focos do mosquito. Para este terça-feira, dia 10, a ideia é expandir o alcance, com 12 equipes compostas por um agente de saúde indígena acompanhado com, pelo menos, cinco de combate a endemias.
Durante as visitas de ‘casa em casa’, é feita orientação sobre como higienizar as caixas d’água antes de abastecê-las novamente, além de aplicação de produto.
“Estamos fazendo o tratamento com um larvicida biológico fornecido pelo Ministério da Saúde que pode ser usado para consumo humano. Está previsto em nota técnica, em rótulo conforme o fabricante mesmo”, explica a coordenadora do CCZ, Priscila da Silva.
Priscila da Silva, coordenadora do CCZ durante o segundo dia de mutirão - Foto: Clara Medeiros / Dourados News
Além das caixas, pneus e lixo estão entre os que mais acumulam focos nas aldeias. “Por eles não terem a coleta de lixo em toda a extensão da Reserva Indígena, então alguns depósitos acabam sendo criadouros desse mosquito”, explica Priscila, sobre as aldeias terem contêineres de descarte em pontos estratégicos onde os moradores precisam levar os resíduos para que sejam recolhidos. Muitas famílias acabam deixando acumular em casa antes de levar ao local de descarte ou de fazer a queima.
MOSQUITO ADULTO
Essa visita domiciliar de agentes é uma estratégia para combate às larvas, sendo que para eliminar o mosquito adulto são adotadas outras duas medidas.
O fumacê é realizado com caminhão que passa ao longo de duas horas pelas ruas borrifando um tipo de inseticida que mata por contato, ou seja, o Aedes aegypt morre ao ser atingido pela substância. Já a bomba motorizada costal tem um produto considerado residual, é aplicado por um agente e faz efeito no local ao longo de 20 a 30 dias dependendo as condições climáticas.
No primeiro dia de ação, 13 imóveis receberam a ação com a máquina costal. Além de instituições de ensino, o trabalho é realizado ainda em empresas de ferro velho, borracharias, entre outros espaços com maior aglomeração de pessoas.
Agente utiliza bomba motorizada costal para borrigação de inseticida em escola - Foto: Clara Medeiros / Dourados News
Neste segundo dia da força-tarefa, um dos prédios a receber a proteção foi o da Escola Estadual Indígena Intercultural Guateka – Marçal de Souza. Assim como outras instituições, a unidade que atende pelo menos mil alunos, tem recebido atestados de forma recorrente tanto de educadores quanto de alunos que precisaram faltar devido a sintomas de Dengue ou Febre Chikungunya.
Segundo o diretor, Luiz de Souza Freire Júnior, somente entre os estudantes foram 50 casos formalizados com atestado médico. “Tem muitos alunos que talvez não procuraram o médico ou não pegaram atestado e não estão vindo, e a gente sabe que é por conta dessa epidemia da doença”, afirma.
Todos os colaboradores da cozinha, além de funcionários da limpeza, secretaria e professores também tiveram Dengue ou Chikungunya. Ao todo foram, pelo menos 12 servidores, alguns ainda afastados e outros que já retornaram. O diretor ainda lembra que no caso da Febre, quando o servidor volta muitas vezes demora para atingir seu pleno desempenho no trabalho, pois há sequelas inclusive de dores fortes que podem durar anos.
Tanto a escola Guateka, quanto a Escola Municipal Indígena Tengatuí Marangatu não tiveram aulas nesta terça-feira enquanto recebiam as ações de borrifação com o inseticida.
Luiz de Souza Freire Júnior, diretor da Escola Estadual Guateka Marçal de Souza - Foto: Clara Medeiros / Dourados News
EPIDEMIA
Pelo menos 99 casos já foram confirmados de Febre Chikungunya na Reserva, sendo que 183 notificados ainda estão em fase de investigação, segundo o Boletim Epidemiológico mais recente.
“Tem pacientes muito graves que tem a dificuldade de andar. É uma doença muito complicada para o paciente porque é muito forte. A gente está tentando combater através dessa limpeza de locais, essa é a maneira mais fácil que a gente achou”, explica o terena Erik Mamede Rodrigues, agente de saúde indígena que está no mutirão.
A Febre Chikungunya é popularmente conhecida como a “doença da dor terrível”, que com frequência é descrita como incapacitantes.
Os sintomas são justamente dores intensas nas articulações dos pés e das mãos, sendo dedos, tornozelos e pulsos, além de febre repentina de 38,5 graus. Pode ocorrer também dor de cabeça, nos músculos e machas vermelha na pele. As complicações podem durar até dois anos.
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Agentes de endemias fazem visitas domiciliares à procura de focos do mosquito transmissor da dengue - Crédito: Clara Medeiros / Dourados News