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CIÊNCIA

Com pesquisa avançada, larvicida contra o Aedes desenvolvido em Dourados é aplicado em campo

10 abril 2026 - 08h06Por Fabiane Dorta

Um larvicida que tem como base um resíduo obtido a partir da tostagem da casca da castanha-de-caju em indústrias, é alvo de uma pesquisa desenvolvida em Dourados. Em estágio avançado, promete ser uma alternativa que une eficiência e baixo custo no combate ao Aedes aegypti, transmissor de doenças como a Dengue, Chikungunya e Zika.

Apesar de ter as propriedades necessárias para matar a larva do mosquito, o LCC (Líquido da Casca da Castanha-de-Caju) que seria descartado após o processo agroindustrial, é um óleo viscoso que não se mistura com água.

Por isso, ao longo de quase uma década, pesquisadores da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) vinham testando formulações, com o desafio de encontrar um resultado que garantisse solubilidade e atividade suficiente para eliminação da larva.

O produto desenvolvido pela bióloga ecotoxicologista Marina Stefanes Schibichewski, solucionou esses dois pontos. “Nós misturamos com um composto detergente, que é o Lauril Sulfato de Sódio, e assim ele [LCC] se tornou solúvel em água, que é onde as larvas são criadas”, explica.

Bióloga ecotoxicologista Marina Stefanes Schibichewski. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News

Enquanto o LCC é um produto natural, o detergente já é amplamente utilizado no mercado na composição de itens de limpeza e cosméticos e, portanto, considerado de baixo custo.

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental, Marina começou a trabalhar com sua formulação em 2023, quando iniciou o mestrado na área fazendo a caracterização físico-química e teste em campo controlado.

No doutorado, o larvicida passa para uma fase mais avançada de análise em pesquisa realizada no Lecogen/UFGD (Laboratório de Ecotoxicologia e Genotoxicidade), sob a orientação da coordenadora da unidade, professora doutora Alexeia Barufatti.

TESTES EM ITAPORÃ

A testagem do larvicida foi feita em cepas Rockefeller de Aedes, consideradas mais suscetível a inseticidas. Os ovos dessa linhagem de laboratório são enviados aos pesquisadores pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) através de uma parceria.

Também há testes em cepas urbanas que são mais resistentes, linhagem que leva o nome de Itaporã, cidade onde é feita a coleta em armadilhas do projeto ‘ovitrampas’ que atrai fêmeas para identificar áreas de infestação do mosquito.

Desde fevereiro deste ano, o larvicida é aplicado também em residências numa parceria com a prefeitura itaporanense. O período foi escolhido devido ao calor e umidade que favorecem a proliferação do Aedes.

A bióloga ecotoxicologista explica que os agentes de endemias utilizam o larvicida como tratamento onde não é possível descartar a água acumulada em criadouros. Entre os locais em que já foi aplicado, estão lonas, construções onde há vaso sanitário sem tampa já fixado no concreto, reservatórios de oficinas onde há grande quantidade de pneus, entre outros.

Atualmente essa aplicação é feita com o uso de seringas por se tratar de uma pesquisa científica que exige controle. No futuro, ainda deve ser determinada a forma mais eficiente de utilizar em maior escala.

As análises continuam, mas até o momento tem apontado que o larvicida funciona em criadouros urbanos, mas não fica ativo por muitos dias, demostrando uma possível necessidade de reaplicação periódica.

As larvas do mosquito morrem ao terem sua estrutura danificada ao ingerirem o produto, mas também por contato físico com ele na água.

A parte que parece luminosa mostra o líquido ingerido pela larva. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.

A PESQUISA CONTINUA

Há previsão de outra etapa de testes em campo na Reserva Indígena de Dourados.

Na continuidade do trabalho de pesquisa, ainda é verificada a aplicação ambiental atingindo espécies que não são alvos, incluindo testes de segurança ambiental e de risco biológico em mamíferos.

“Nós fizemos testes com plantas e, na verdade, ele atuou quase como um fertilizante. Deu uma diferença em que ele auxiliou no crescimento das plantas. Então isso auxiliaria nos casos onde há vasos com pratos por debaixo”, lembrando que esse efeito é consequência também de se tratar de um produto natural.

LARVICIDA E OVICIDA

No mesmo laboratório, a doutoranda do Programa de Pós-graduação em química Bruna Fernanda Rodrigues Martins, desenvolve outro produto sob orientação do professor doutor em Engenharia Química, Eduardo José de Arruda. Essa formulação já apresentou resultados tanto como larvicida quanto como ovicida.

Doutoranda em química, Bruna Fernanda Rodrigues Martins. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.

“A ideia central é de que pulverize [o produto] e mate o ovo [depositado pela fêmea do Aedes]. Porventura, se alguma larva sobreviver, ele também tem a função de ser um larvicida”, explica Bruna.

Nessa pesquisa, o inseticida é resultado de uma mistura de compostos quaternários de amônio – seis estão em teste – em uma associação com sais de cobre que também tem função biológica potencializando a substância. Ambos são produtos químicos cujas amostras são enviadas por indústrias.

Na etapa atual, são feitas análises no Lecogen/UFGD para determinar a concentração de cada componente para verificar qual teria mais eficiência quando aplicada.

O inseticida tem potencial para se tornar parte da rotina das famílias. Isso porque é composto por substâncias que já estão presentes em itens vendidos no mercado como eficientes para matar bactérias, fungos e algas, por exemplo, em produtos de limpeza. 

“Como ele é utilizado como desinfetante, ele já fica como um resíduo da própria limpeza que a dona de casa faz”, explica a pesquisadora.

COOPERAÇÃO NO COMBATE AO AEDES

Arruda explica que as pesquisas, apesar de terem sua individualidade, também são conduzidas por grupos que interagem cooperando com foco na responsabilidade social, através da troca de informações e contribuição em publicações.

Ele explica que tanto Bruna quanto Marina e outros pesquisadores que passaram pelo grupo ao longo dos anos, seja da química ou da biologia, sempre tiveram foco em elaborar alternativas com a proposta de buscar simplicidade, disponibilidade e baixo custo.

“Trabalhar com compostos ou com produtos que sejam não convencionais. Em que ponto de vista? Produtos de baixo custo, produtos que sejam eficientes e ao mesmo tempo, se houver algum problema de fornecimento, que esses produtos estejam disponíveis”, pontua.

Líquido resultado da mistura de compostos quaternários de amônio com sais de cobre tem composições testadas em laboratório. Foto: Clara Medeiros / Dourados.

A RESISTÊNCIA DO MOSQUITO

Ele pontua que apesar de cada alternativa nova ser um avanço no combate ao Aedes aegypti, é válido lembrar que não há um produto definitivo, já que o mosquito é um organismo vivo que se adapta ao meio. Portanto, quando há controle populacional, somente os menos resistentes são os que morrem.

“Os indivíduos mais resistentes ao longo do período de ciclo reprodutivo ou ao longo das gerações, eles vão criando competências ou habilidades. E esses mosquitos, eles vão se adaptando àquelas estratégias e produtos de controle”, esclarece.

Como exemplo, ele pontua que os testes feitos em cepas urbanas mostram a necessidade de uso de uma concentração de inseticida muitas vezes de três a cinco vezes maior do que a utilizada para matar o mesmo tamanho de população de cepa Rockfeller, aquela linhagem de laboratório que não tem a contaminação com vírus.

“Não dá para controlar a natureza com relação a isso, mas a gente pode controlar a população do inseto e alterar de forma significativa a incidência ou propagação da doença”, pontua.

ARSENAL CONTRA O MOSQUITO

Ele lembra que é fundamental utilizar todos os recursos disponíveis para combate ao mosquito, desde as pulverizações feitas por órgãos de controle até a adoção de rotina de eliminação de criadouros em casa, entre outras formas de prevenção.

“O que a gente acredita é que a gente deva ter um arsenal de recursos para controle do inseto”, acrescenta Arruda, que desenvolve pesquisas de combate ao Aedes desde 2005, quando viu adoecer e até perdeu amigos e familiares, devido a uma epidemia de dengue em Campo Grande.

Professor doutor em Engenharia Química, Eduardo José de Arruda. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.

Além de manter a limpeza do ambiente e eliminar criadouros com água parada, ele pontua podem ser utilizados em paralelo, desinfetantes ou inseticidas de uso doméstico em locais ‘escondidos’.

“Atrás de uma cortina, atrás de um guarda-roupa, embaixo de móveis, de mesas, locais que o inseto fica descansando ou pronto ali para realizar, pelo menos a fêmea, a hematofagia", complementa.

O hábito alimentar da fêmea do Aedes de sugar sangue humano ou de animais é chamado de hematofagia. Ela o faz para consumo de uma proteína necessária para o desenvolvimento dos ovos.

COMO SE COMPORTA O MOSQUITO

Marina explica que o Aedes tem várias características que fazem com que perdure na natureza. Entre essas, está a ovoposição, já que as fêmeas colocam os ovos principalmente em ambientes úmidos e de forma seriada. 

“Colocam um pouco de ovo em cada criadouro, para que se um der errado, o outro vá dar certo. E eles ficam viáveis na natureza, mesmo secos, por muito tempo. Então eles ficam esperando em um ambiente seco o contato com a água para que as larvas eclodam. Então por isso que torna o mosquito tão resistente", pontua a bióloga.

Larva do mosquito Aedes aegypti, em imagem captada em laboratório durante a pesquisa. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.

Além de uma mesma fêmea colocar os ovos em vários recipientes, em cada um deles deposita em camadas ou fileiras nas paredes, ou seja, não basta tirar a água que está parada, é necessário lavar o pote.

“Se você descarta apenas a água e o ovo ficar preso na superfície, após o contato com a água novamente ele vai eclodir a larva. E aí por isso a utilização de produtos larvicidas que vão matar a larva do mosquito e não deixar desenvolver o inseto adulto”, pontua a toxicologista.

EPIDEMIA DE CHIKUNGUNYA

O controle da população do mosquito é considerado a forma mais eficiente de evitar que pessoas sejam infectadas pelas doenças transmitidas pelo Aedes. Atualmente, Dourados está inserida em um contexto de epidemia de Febre Chikungunya que já provocou mortes.

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