A entrevista da semana do Dourados News é com o bispo Dom Redovino Rizzardo, que atuou por quase 15 anos na diocese de Dourados. Ele renunciou a função ao completar os 75 anos, dando lugar a um novo bispo que assume já em janeiro de 2016. Na entrevista Dom Redovino explica sobre a renúncia, fala sobre casamento entre homossexuais e ainda sobre o episódio de ‘farpas’ com a deputada estadual Mara Caseiro (PT do B). "A igreja não pode impor seus pontos de vista a todo mundo", cita ao ser questionado sobre a união de pessoas do mesmo sexo.
Natural da cidade de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, o bispo vem de uma família de quatro irmãos, em que ele é o mais velho.Dom Redovino começou a caminhada vocacional na terra natal, no seminário do Guaporé, terminado os estudos em São Paulo fazendo filosofia e teologia.
“Me ordenei padre em 1967, depois como padre, trabalhei na maior parte do tempo na formação de futuros padres. Trabalhei em paróquias e também em Roma. Também fui responsável por cursos de formação na minha congregação. No fim antes de ser bispo, por seis anos fui nomeado superior de uma parte da minha congregação, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e uma região do Paraguai. Em 2001 então eu fui nomeado, no dia 13 de janeiro, como bispo de Dourados”, disse Redovino.
Em relação aos anos trabalhados, o bispo conta que sempre buscou acolher da mesma maneira que foi acolhido. Disse ainda que, procurou estar unido com todos, se inserir no meio do povo, principalmente aos mais necessitados e fortalecer o diálogo e o espirito de comunhão entre movimentos, padres, igreja e a sociedade.
Para Rizzardo, uma dor que deixa é de não ter conseguido solucionar os conflitos entre os produtores rurais e indígenas. Segundo ele, nestes 15 anos teve a impressão que eles só aumentaram e fala que seria simples de resolver.
“Gostaríamos como igreja que o governo o quanto antes pudesse intervir. Nós como igreja, os bispos do Mato Grosso do Sul, fizemos nossa uma ideia que é uma ideia dos índios, dos agricultores, que é indenização. O governo deve indenizar não apenas a terra nua, mas também todas as benfeitorias”, disse durante a entrevista.
Sobre as trocas de ‘farpas’, com a deputada estadual, o bispo conta que foi uma calunia e que jamais diria a frase, do qual ele alega que foi acusado. Dom Redovino disse que não procurou Mara Caseiro depois do episódio.
“Não, não conversei com ela, pois achei melhor não levar adiante, nem processar essa pessoa pela calúnia, por essa digamos afirmação tão grave”, pontuou.
Veja a entrevista na íntegra
Dourados News- O senhor anunciou a renúncia como bispo da diocese de Dourados recentemente, qual o motivo?
Dom Redovino Rizzardo- Porque na nossa igreja católica existe uma norma, que quando o bispo chega aos 75 anos, ele é convidado a redigir uma carta ao papa, colocando o cargo à disposição. Eu completei 75 anos, no ano passado já faz um ano e meio que escrevi esta carta e a resposta, como sempre acontece, ela não vem logo, a não ser quando alguém está muito doente, então a resposta chegou agora depois de um ano e meio como eu falei.
D.N.- Quanto tempo ficou há frente da entidade e qual o balanço nesse período?
D.R.R.- Eu comecei os meus trabalhos primeiramente oito meses como bispo coadjutor, auxiliar digamos, de Dom Alberto. Em seguida a partir de dezembro de 2001, então eu assumi os trabalhos e foram 14 anos e meio. Tudo, até chegar o novo bispo, vai dar quase 15 anos. O que eu considero para mim, foram 15 anos muito bons que eu me senti em casa, me senti acolhido e também procurei corresponder essa acolhida do meu jeito melhor possível, por exemplo, procurando sempre o que unida mais do que o desuni. Procurei estar unido há tudo, não apenas a lideranças sociais, políticas das várias comunidades, mas também o povo mais humilde, mais simples, mais pobre, começando até pelos indígenas Porque eu sempre aprendi que o bispo deveria ser uma pessoa, como o papa mesmo diz, a ficar bem no meio do povo, bem inserido no meio do povo, então aquilo que eu mais procurei, foi fortalecer o espirito de diálogo, de comunhão, de comunhão, entre movimentos, entre padres, entre a igreja e a sociedade. Termino esses 15 anos, em um clima muito bom de união entre os padres, entre religiosos, muitos movimentos eclesiásticos. Uma renovação grande que acho na igreja, claro que não devo atribuir a mim, devo atribuir a todas as pessoas, que colocam a Deus e a igreja em primeiro lugar.
D.N.-O que pode ser considerado “conquista” durante esse tempo?
D.R.R.- Bem, ouve muitas conquistas, as mais importantes somente Deus as conhecem, porque as verdadeiras conquistas são quando as pessoas se renovam interiormente, adquirem esperança, força para irem para frente. Agora externamente, conquista eu vejo muita coisa que se realizou como, por exemplo, que me lembrei agora que 12 paróquias da nossa diocese construíram igrejas novas bonitas, a catedral que foi renovada, o santuário renovado. Então tivemos muitas, digamos assim, conquista visíveis, mas como dizia, o mais importante foi a caminhada que cada pessoa fez internamente.
D.N.- O que pretende fazer após a renúncia? Permanecerá em Dourados?
D.R.R.- A primeira ideia minha, era voltar para o Rio Grande do Sul, porque como gaúcho, nós somos um pouco bairrista e gostamos do Rio Grande. Mas eu acho, como me senti tão bem aqui em Dourados e também devido a minha doença [câncer], que devo cuidar e aqui estou sendo bem cuidado, é bem provável que pelo menos por um tempo eu permaneça aqui, em Dourados.
D.N.- Ultimamente a Igreja Católica tem sido bastante contestada, principalmente em assuntos polêmicos, entre casamento de pessoas do mesmo sexo, escândalos sexuais e outras situações, como enxerga isso?
D.R.R.- Bem, a igreja é evidentemente composta de pessoas humanas, e como em qualquer outra entidade, como médicos, professores e advogados, também dentro da igreja existem pessoas maravilhosas, pessoas que sabem doar se, sacrificar e pessoas que não são capazes de dar os passos que deveria dar. Então realmente houve na igreja ultimamente sobre tudo digamos esses escândalos sexuais, que o papa atual nos pede um cuidado maior, desde formação dos seminaristas, da parte afetiva e também psicológica para que antes de se tornarem padres, sejam pessoas humanas, normais. E também quanto a casamento homossexuais a igreja claro tem os seus princípios, ela segue o evangelho e o evangelho nos apresenta como casamento criado por Deus, o homem deixará sua casa e se unirá a sua mulher. Então para a igreja, o casamento verdadeiro é entre homem e mulher. A igreja não pode impor seus pontos de vista a todo mundo, então cada um é livre de seguir aquilo que ele pensa que deva ser seguido, porém quem quer realmente seguir a palavra de Deus ou melhor ainda, não sendo cristão, seguindo a natureza humana nos aconselha, para nós o casamento é somente este entre homem e mulher.
D.N.- Ao longo do tempo a Igreja Católica se colocou sempre ao lado das minorias - indígenas, pessoas pobres, sem-teto, sem-terra -, porém, nunca deixou de atender também aqueles com maior poder aquisitivo. Como era e como é atualmente esse relacionamento e como é ficar no meio desse ‘bombardeio’?
D.R.R.-Bom, realmente se eu saio do episcopado com uma dor é essa que você relembrou agora. Porque eu sempre lutei para que houvesse uma justa solução desse problema, estou aqui há 15 anos quase e praticamente em vez de encontrar uma solução a situação foi se agravando. Mas eu também penso que como igreja pouco podemos fazer, compete ao Estado, compete a Justiça. De um lado devemos olhar para o bem dos índios, porque são a minoria e estão em uma situação de abandono. Esse abando leva muita violência entre eles, bebida e prostituição, tanta coisa. De outro lado, os agricultores que aqui vieram, a grande maioria comprou suas terras e delas precisam para sobreviver. O que seria do Mato Grosso do Sul sem a pecuária, agricultura? É um estado que ajuda o Brasil a crescer graças à agricultura, graças a pecuária. Então nós gostaríamos, como igreja, que o governo pudesse intervir. Nós como igreja, os bispos do Mato Grosso do Sul, fizemos nossa uma ideia, que é uma ideia dos índios, dos agricultores que é indenização. O governo indeniza não apenas a terra nua, mas também tudo aquilo que é benfeitoria, deveria indenizar. O governo poderia fazer isso logo, mas ao mesmo tempo quem sou eu? Não basta dar terra para os índios, por que os jovens indígenas, mais do que as terras precisam de educação, moradia, emprego. Porque o jovem, as vezes não só indígenas, pensam diferente dos pais, tem outra mentalidade.
D.N.- Existe, principalmente na situação dos conflitos por terra, pressões de ambos os lados. Como o senhor tem tratado a questão, tendo em vista estarmos numa região agrícola?
D.R.R- Eu sempre, desde que aqui cheguei, procurei participar, estar presente. Eu participei de quatro encontros com agricultores: em Ponta Porã, Caarapó, Itaporã e Dourados, sempre colocando o que a igreja pensa sem relação a essa situação. No começo até tentei, por uma ou duas vezes reunir indígenas e agricultores, no mesmo encontro no mesmo grupo, vi que era muito difícil, se o próprio governo encontrou dificuldade, quando mais eu. Então o que eu fiz foi procurar levar uma mensagem de paz, até porque infelizmente ouve da parte de alguns, grandes fazendeiros, uma calunia contra a Igreja Católica, como se nós da igreja fossemos contra os agricultores, porque defendemos os índios. A igreja tem que defender os índios e defender os agricultores, porque todos são filhos de Deus, não podemos fazer distinção de pessoas, se devemos fazer distinção devemos ir de encontro de quem mais precisa.
D.N.- Recentemente a deputada estadual Mara Caseiro (PT do B) e o senhor trocaram ‘farpas’ em público e ela o acusou de incitar boicote aos produtores rurais da região. O episódio foi superado? Houve uma conversa após o fato?
D.R.R.- Não, não conversei com ela, pois achei melhor não levar adiante, nem processar essa pessoa pela calúnia. Porque essa,foi uma afirmação tão grave. O que tem milhares e milhares de agricultores que estão vivendo da própria terra, do próprio trabalho, com essa afirmação absurda? Então nós bispos do Mato Grosso do Sul, não apoiamos de jeito nenhuma essa sentença, esse lema que foi colocado ai, por um grupo de pessoas que vieram de fora. Duas delas eram de outros estados do Brasil, propondo que a Europa não compre mais carne, não compre mais soja do Mato Grosso do Sul, porque é manchado com o sangue de crianças. Nunca vi isso. Então eu acho que, é um radicalismo que não leva a nada. Então quanto a Mara, ela me acusou de algo que não fiz, essa frase eu jamais teria tido a coragem de pronunciar, até porque sou muito ligado como igreja também a uma multidão de agricultores que são eles que sustentam nossa igreja.
Dom Redovino, disse que não procurou Mara Caseiro, depois do episódio, ele preferiu assimQual a sua opinião sobre essas CPI’s - tanto do Cimi, como a do genocídio indígena - criadas na Assembleia Legislativa de MS?
D.R.R.- Veja, em geral aqui no Brasil todas as CPI’s que eu vi, não terminam bem. Elas servem só para durante um tempo manter a opinião pública um pouco alarmada. Agora em relação a essa CPI do Cimi, pelo que estou percebendo são apenas acusações que fazem contra o Cimi, não sei até que ponto eles vão provar. Claro que também o Cimi, como igreja ou como qualquer organismo dentro do Cimi pode haver pessoas ou mais ou menos esclarecidas. E as vezes realmente o Cimi toma essa defesa boa dos índios, já que agricultores tem advogados, tem a Famasul que o defende. Os índios também têm o direito de ter o Cimi que o defenda, e possa ser que nessa defesa as vezes aconteça situações um pouco de conflitos. Então o Cimi deve também ver a maneira de as vezes não colocar todo mundo, todo os agricultores como se fossem todos criminosos.
D.N.- Faça uma avaliação do momento político do Brasil?
D.R.R.- Olha, infelizmente eu acho que estamos em um momento político muito complicado, muito difícil, quase sempre assistindo a um desafio entre a presidente da república [Dilma Rousseff (PT)] e o presidente do nosso congresso, o Cunha [Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados]. Então, sobre tudo dá impressão que falta um valor, e faltando um valor que nos sustentam a corrupção e a violência estão tomando conta da sociedade. Eu vejo cada dia que passa que a violência cresce em toda parte, e se cresce a violência, ao meu modo de ver, é que os valores verdadeiros humanos e também cristãos, estão deixados de lado. Ou você busca a Deus, busca os valores, ou busca a alguma outra coisa e cada um colhe aquilo que planta. Então a situação do Brasil infelizmente é uma situação que deixa muito a desejar e que não tem muitas perspectiva de melhoramento, pelo contrário né, a crise econômica ao meu modo de ver é consequência de uma crise bem mais profunda, que é uma crise ética, a crise do respeito, do valor humano e também por querer colocar os nosso interesse acima do bem comum.
D.N.- Como o senhor classifica os gestores públicos do país?
D.R.R.- Em geral eu diria um pouco complicado qualificar porque pessoas como prefeitos, deputados, vereadores devem assumir realmente o próprio serviço com responsabilidade, mas infelizmente a impressão que o povo tem em geral é que a grande maioria, quando ocupa um cargo público, o poder corrompe e o poder leva a corrupção, que vem aumentando cada vez mais e leva também esse clima de violência, que vivemos hoje.
D.N.- Sobre o padre Henrique, escolhido para atuar como bispo de Dourados, na sua opinião foi uma boa escolha, ou haveria outro que seria mais indicado para a função?
D.R.R. - Bem, uma pergunta difícil, porque certamente haveria muitos candidatos que poderiam ser bispos de Dourados, mas certamente o nome dele foi estudado por muito tempo pelo representante do papa, que é o núncio apostólico e pelo próprio papa. Agora eu estou vendo que, dado que Dourados que é uma cidade que tem pessoas de todas as raças, etnias a cidade de todos os povos. Já que Dourados teve o primeiro bispo de origem portuguesa, os outros três de origem alemã, eu o quinto né, de origem italiana- gaúcha, é bom que haja agora um bispo de origem afro-descendente. Acho bom que essa diversidade, enriquece a igreja e mostra que é uma igreja que não tem acepção de pessoas, pode haver bispos de qualquer raça, aliás aqui muitos padres, os primeiros que vieram para cá era de origem alemã, italianos e sempre se sentiram muito bem acolhidos. Tenho certeza que o padre Henrique será uma pessoa que vai realizar bem e se sentirá bem acolhido, até porque ele conhece bastante a nossa diocese e o Mato Grosso do Sul.
Qual será o grande desafio do novo bispo em Dourados?
D.R.R.-O grande desafio? Eu acho que vai continuar um pouco aquela situação entre índios e agricultores, ele vai ter que ter aquele bom senso, aquele discernimento de acompanhar os dois lados com equilíbrio, mas ao mesmo tempo vai ter a alegria de encontrar uma diocese que caminha, uma diocese acolhedora e eu diria que é uma diocese do Mato Grosso do Sul, mais comprometida digamos, com a fé e com também os compromissos sociais diante da sociedade.
D.N.- Para finalizar, como enxerga o futuro da Igreja Católica?
D.R.R- Bem, o futuro da Igreja Católica realmente eu acho que cada vez mais diferente, porque até agora a igreja era mais por tradição, de herança de pai, de avô para o neto, e agora eu estou percebendo que quem vive a fé são pessoas em geral que participam de pastorais, de movimento. São pessoas que adquirem uma convicção própria, não é mais porque a mamãe ou o papai, o avô o bisavô, mas é mais por uma conversão. Graças a Deus temos agora um papa, que é o papa Francisco, que nos ajuda muito a sermos uma igreja mais acolhedora, mais próxima, mais fraterna, porque se não, caso contrário as pessoas quando não se sentem acolhidas, amadas elas procuram outras denominações religiosas, ou pior ainda se afastam completamente de Deus.
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