Autoridades que lidam diariamente com vítimas de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes em Dourados, relataram os desafios enfrentados para combater esses crimes, durante uma blitz educativa do ‘Maio Laranja’, nesta quarta-feira, dia 06, organizada pela 9ª CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar).
A delegada Ariana da Silva Gomes, titular da DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher) optou por trazer exemplos “de forma bem esdrúxula”, de atos do cotidiano que estão em muitos contextos que podem levar a casos futuros de violência.
“A gente precisa falar ‘rasgado’, porque a gente não vai enfrentar essa situação enquanto a gente não olhar para o lado e constranger o colega que faz uma piadinha sexual de uma adolescente de 13 anos, 14 anos, de 11 anos que já está formando o seio, já está ‘encorpando”, exemplifica, “já colocar ela como uma mulher, [dizendo] que ela 'já dá um caldo'”, acrescenta.
Para a delegada, é preciso provocar constrangimento a qualquer ato de sexualização de crianças e adolescentes, dizendo que “ela tem que ter um namoradinho”, ensinar que precisa abraçar, beijar ou até sentar no colo de um familiar. “Às vezes ela não vai querer abraçar aquele avô porque ela tem uma repulsa, um padrasto porque ela já está sofrendo alguma coisa. E ela é incentivada a ir no colo, ficar peladinha, postar foto dela peladinha e a gente acha ‘bonitinho’”, pontuou.
Ariana da Silva Gomes, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher, durante abertura de evento que teve Blitz do Maio Laranja. - Foto: Fabiane Dorta / Dourados News.
Para ela, essa mudança de postura individual e enquanto sociedade, seria uma estratégia eficaz de prevenção, já que muitas vezes quando os casos chegam à delegacia, o estupro já aconteceu, e muitas vezes pessoas conhecidas, ao invés de envergonhar o agressor pelo ato, diz que é uma pessoa que ‘vacilou’ ou teve um ‘comportamento infeliz’. “A gente ouve exatamente essas palavras para caracterizar uma agressão sexual: 'Ah, um momento infeliz', é 'um vacilo porque ele estava bêbado”, acrescenta.
QUATRO CASOS POR DIA
Em Mato Grosso do Sul foram registrados somente este ano, 526 casos de estupro envolvendo crianças e adolescentes, ou seja, uma média de quatro por dia, conforme dados do Sigo (Serviço Integrado de Gestão Operacional), que concentra os registros de ocorrências no Estado. Desses, 48 foram em Dourados.
A maior parte dos casos continua acontecendo dentro de casa, praticados por familiares ou pessoas muito próximas, a maior parte das denúncias que chegam ao conselho tutelar é feita através de instituições de ensino.
“As crianças não têm o vínculo familiar e acabam contando sobre a situação dentro das escolas para uma professora, para uma tia de pátio, com quem cria esse vínculo. Então a gente recebe bastante também essas denúncias vindas das escolas”, afirma a conselheira tutelar Danielle Viebrantz.
Conselheira tutelar Danielle Viebrantz, durante blitz educativa do Maio Laranja. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.
A presidente do Comcex(Comitê Municipal de Enfrentamento da Violência e de Defesa dos Direitos Sexuais de Crianças e Adolescentes) em Dourados, Andréia Bonito, alertou ainda sobre os casos de bebês. “Muitas das vítimas nem falam corretamente ainda”, afirmou, lembrando que entre as frentes de trabalho está a conscientização de profissionais, da sociedade de forma geral, mas especialmente dar voz às crianças que já podem identificar abusos.
“Nós fazemos o trabalho de prevenção que é um trabalho fundamental, ensinando as crianças que existem carinhos que não são bons, carinhos que são violência e que estão ali pra roubar a sua pureza, sua inocência e o seu direito sobre o próprio corpo, violando aquela pessoa e deixando marcas que duram talvez a vida toda”, pontua.
Para ela, o Maio Laranja é fundamental para mostrar que “a violência sexual é real e ela acontece muitas vezes debaixo dos nossos olhos. Abrindo os olhos dos pais, dos cuidadores, dos profissionais de saúde para estarem atentos a sinais de que a criança pode ter sido violada, mas também levando às demais áreas da nossa sociedade”, pontua.
Presidente do Comcex Dourados, Andréia Bonito, aboradando veículos durante blitz. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.
BLITZ EDUCATIVA
Para alertar sobre os casos como fazer denúncias, órgãos de segurança pública, junto com instituições que atuam na proteção de crianças e adolescentes participaram a da Blitz educativa organizada pela 9ª CIPM. Veículos foram abordados na rua Azis Rasselen pela manhã, próximo ao acesso à Avenida Marcelino Pires. Na ocasião, foram entregues materiais informativos.
A ação faz parte da Operação Caminhos Seguros, realizada nacionalmente. Em Mato Grosso do Sul segue até o dia 30 de maio, com palestras em escolas, aumento da fiscalização e divulgação por meios digitais.
“É um tipo de crime que o autor, ele não aparenta ser um agressor para a criança. E é por isso a importância de nós fazermos orientações às famílias e orientações às crianças. Entrando em escolas, entrando em qualquer local que tenha crianças e que qualquer um de nós possa dar uma orientação correta”, afirma a Tenente Laura Andreia Alves Garcia, policial militar chefe de projetos sociais da 9ª CIPM.
Tenente Laura Andreia Alves Garcia, policial militar chefe de projetos sociais da 9ª CIPM. Foto: Clara Medeiros / Dourados News.
A policial lembra que é fundamental à criança conhecer o próprio corpo, saber sobre limites e também a dizer não. “A criança com dois anos em diante já consegue entender as partes do corpo dela e de forma bem suave, é uma orientação que tem que ser já iniciada nesse contexto familiar a partir dessa idade, e ela tem que ser aprimorada com pessoas mais capacitadas para fazer essa orientação correta e técnica para a criança. Por exemplo, quando eu falo em questão técnica, é saber orientar a criança a não dar apelidos à parte do corpo. Ela tem que saber o nome dos órgãos corretos e aprender que naquele órgão tem limitação para toque”, pontua.
DENÚNCIA
Medo ou tristeza sem explicação, marcas no corpo, mudanças de comportamento, isolamento ou regressão escola são alguns sinais de alerta. Em caso de suspeita, é possível denunciar ao Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos, para que seja enviado às autoridades locais.
Também é possível procurar diretamente os conselhos tutelares, delegacias, ministérioMa público, unidades de saúde, órgãos da assistência social, entre outros que façam parte da rede de produção para que haja orientação.
Em caso flagrante que requer uma medida emergencial, a orientação é discar 190 para acionar com urgência a Polícia Militar.
Material informativo entregue a quem passou pela blitz. - Foto: Clara Medeiros / Dourados News.
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Blitz do Maio Laranja foi organizada pela 9ª CIPM - Crédito: Clara Medeiros / Dourados News