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ARTIGO

Como superar o vício em automóvel e alcançar uma mobilidade virtuosa

01 março 2021 - 12h48Por Mário Cezar Tompes da Silva

Em artigo anterior (16/02) havíamos apontado a ausência de sintonia do atual modelo de mobilidade douradense que prioriza um único modal – o automóvel particular, com o padrão de mobilidade prevalecente no século XXI alicerçado na multiplicidade de modais e crescente integração dos mesmos. Em Dourados, deslocar-se com eficiência, conforto e rapidez é sinônimo de deslocamento por carro. Isso resulta de um círculo vicioso:  Os investimentos públicos focam na expansão e melhoria das infraestruturas para os usuários de automóveis. O que funciona como um estímulo para os que utilizam outros modais, tão logo possam, optarem também pelo carro. Mais automóveis circulando pressiona o poder público a elevar os investimentos e priorizar mais ainda esse modal, enquanto todos os demais definham. Só as políticas públicas podem romper esse processo que se retroalimenta e, enfim, nos inserir em um modelo de mobilidade contemporânea. 

Afortunadamente já dispomos da política pública que nos permite romper o círculo vicioso: O Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Dourados. Tendo sido contratado em 2015 e entregue ao Município em 2018, está disponível há três anos. No entanto, embora tenha custado aos cofres públicos R$ 374.000,00 (Extrato de Contrato 302/2015/DL/PMD) permanece engavetado até os nossos dias. E aparentemente assim deverá permanecer se os cidadãos douradenses não reagirem.

O Plano é um documento coerente com o modelo de mobilidade contemporânea e é uma oportunidade de Dourados promover de forma mais equitativa as alternativas de deslocamento por ônibus, bicicleta e por intermédio do pedestrianismo. No caso dos ônibus, o Plano propõe uma mudança do atual, e insuficiente, sistema radial, onde as linhas partem dos bairros e convergem para o terminal de transbordo (rua Onofre Pereira de Matos), por um novo sistema troncal mais condizente com a nova escala urbana da cidade.

O sistema troncal baseia-se na implantação de dois eixos troncais e quatro estações de integração. Um primeiro eixo leste/oeste na av. Marcelino Pires que contará com duas estações de integração, uma na rua Wilson Dias Pinho no Jardim Márcia e outra na avenida Joaquim T. Alves nas proximidades do Parque Antenor Martins. O segundo eixo norte/sul envolvendo as avenidas Presidente Vargas, Marcelino Pires e Hayel Bon Faker com mais duas estações de integração localizadas nas extremidades norte da Presidente Vargas e na extremidade sul da Hayel Bon Faker. Ao longo destas linhas troncos se distribuem as estações de transferência e as estações intermediárias (pontos de ônibus convencionais).

Além das linhas troncais que conectam as estações de integração e as estações de transferências ao longo dos eixos troncais, o sistema comporta linhas alimentadoras diversas: As radiais que transportam a população dos bairros para as quatro estações de integração; As linhas circulares onde os ônibus realizam percurso circular contínuo no mesmo sentido interligando os bairros e as estações ao longo dessa rota circular e as linhas distritais que integram os diversos distritos do Município às estações de integração. 

O sistema troncal proposto está organizado de tal maneira que a população em qualquer ponto da cidade não esteja a mais de 300 m de alguma via servida por transporte coletivo. O sistema também promove a intermodalidade com a implantação de bicicletários e paraciclos nos vários tipos de estações acima mencionados.

O sistema radial vigente é acanhado e claramente insuficiente para o porte atual de Dourados. Por outro lado, o novo sistema troncal apresenta uma rede mais ampla de cobertura do espaço urbano, projetando o transporte coletivo a um patamar inédito de eficácia e de relevância.

Outra frente importante do plano de mobilidade são as ações previstas para a promoção do transporte cicloviário na cidade. Há a definição de uma rede cicloviária completa e com capilaridade suficiente para permitir que os usuários acessem todos os quadrantes do espaço urbano. Trata-se de uma infraestrutura completa com sinalização específica, paraciclos, bicicletários, pontos de descanso além da referida rede de vias cicláveis conectar locais estratégicos da cidade (serviços públicos, praças, parques etc.) com a habitação, o emprego e se integrar com o transporte coletivo. A rede de ciclovias proposta estende-se por 192,94 km de extensão perfazendo um roteiro que disponibiliza grande diversidade de atividades (comércio, serviços, lazer etc.) ao longo de seu percurso o que serve de estímulo a seu uso.
Por fim, o plano de mobilidade apresenta um projeto para promover as calçadas à condição de um importante vetor da mobilidade em Dourados. Todos somos testemunhas de como os pedestres e as calçadas veem sendo desconsiderados pelo poder público.

Deixadas sob responsabilidades exclusivas dos proprietários dos lotes, as calçadas têm sido alvos constantes de intervenções privadas que executam degraus, muretas e rampas que dificultam enormemente a circulação dos usuários. Tudo agravado pela ausência de fiscalização e omissão da Prefeitura.

A fim de superar esse quadro desalentador o plano propõe a implantação de calçadas acessíveis, sem barreiras e desimpedidas. As calçadas selecionadas situam-se em vias com importante significado no tecido urbano, servindo de eixo de ligação entre lugares que atraem público (feiras, serviços urbanos, parques e feiras). O objetivo é melhorar as condições atuais das calçadas para promover os deslocamentos a pé e minimizar o uso de veículos motorizados. Com esta finalidade as rotas selecionadas foram divididas em quatro categorias: calçadas de pedestres (a preponderante maioria, somando vinte ruas e o entorno de cinco parques), caminho cultural (av. Marcelino Pires) e calçadas de treino de corrida e caminhada (ruas Albino Torraca e Weimar Torres). 

Este conjunto de calçadas constitui uma malha que permite o acesso a pé a boa parte da cidade, além de integrar-se à rede cicloviária e aos terminais de transporte público, promovendo uma intermodalidade virtuosa que é o oposto do círculo vicioso imposto pelo modal único do carro particular que prevalece até hoje em Dourados. Frente a tais circunstâncias uma questão se impõe: por qual razão este plano, após três anos de concluído, adormece esquecido nos escaninhos da Prefeitura sem implementação?

*Professor de planejamento urbano. E-mail: mariotompes522@gmail.com

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