A Polícia Federal deflagrou, nesta terça-feira (10), a 2ª fase da Operação Ajura, que tem como foco o desmantelamento do braço financeiro de uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas e à lavagem de capitais.
O esquema usava pequenos empresários que emprestavam o CNPJ para lavagem de dinheiro do tráfico. A ação cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e quatro mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 360 milhões.
Os mandados foram expedidos pela 1ª Vara da Justiça Criminal Estadual de Dourados, com diligências realizadas nos municípios de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Ribeirão Preto e Jardinópolis, no interior de São Paulo.
Em entrevista ao Dourados News, o delegado da Polícia Federal em Dourados, Luiz Henrique Corrêa da Silva, explicou que a 2ª fase da Operação Ajura decorre das operações Akã, iniciada em 2022, através de flagrante de grande quantidade de cocaína levada em veículos de transporte de carne e óleo. “Foram duas apreensões, no total de quase 1.000 kg de cocaína que nós realizamos 2022, 2023”, afirmou o delegado.
Segundo Corrêa, o primeiro flagrante ocorreu em 2022, apresentado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), e o segundo em 2023, já com a colaboração da Polícia Federal. A partir da análise de celulares, veículos e da investigação financeira dos envolvidos, foi possível identificar toda a estrutura logística do tráfico.
Em 2024, a PF deflagrou a Operação Akã, que resultou na prisão de 10 pessoas. “Esses presos das operações Akã já estão condenados, eles tiveram um total de penas aí somados de 125 anos”, destacou Luiz Henrique.
Encerrada a fase voltada diretamente ao tráfico de drogas, as investigações avançaram para o rastreamento do dinheiro utilizado pela organização criminosa.
“Passamos à investigação financeira porque essa Akã, que é a cabeça, ela era alimentada por dinheiro que vinha do Estado de São Paulo, a gente conseguiu já perceber isso aí na investigação inicial”, explicou.
A primeira fase da Operação Ajura foi deflagrada em setembro de 2025, com o cumprimento de mandados em Dourados, Amambai, Ribeirão Preto e Jardinópolis. Após a análise do material apreendido, a Polícia Federal chegou à segunda fase da operação.
“Nesta terça-feira, deflagramos a Operação Ajura 2, que veio coroar o trabalho de investigação nosso já iniciado lá em 2022, onde conseguimos a prisão preventiva de mais quatro elementos”, disse o delegado.
Os presos são apontados como responsáveis pela logística da movimentação financeira da organização criminosa.“Eles abriam contas fantasmas, empresas fantasmas no Estado de São Paulo, principalmente na região de Ribeirão Preto. Essas contas eram alimentadas com dinheiro de tráfico, vários depósitos fragmentados vindo de interior de São Paulo e Rio de Janeiro”, detalhou.
De acordo com a Polícia Federal, esse dinheiro era utilizado para financiar toda a cadeia do tráfico, desde a compra da droga até o pagamento de veículos, aluguel de barracões e demais custos operacionais.
Um dos pontos que mais chamam a atenção na investigação é o uso de pequenos empresários para a lavagem de dinheiro. Conforme explicou o delegado, pessoas comuns eram cooptadas para emprestar seus CNPJs e contas bancárias.
“Uma característica peculiar desse grupo é que são pessoas comuns, é pintor, borracheiro, marceneiro. Pessoas que trabalhavam lá nessa região no interior de São Paulo, principalmente, e através de amizade foram cooptadas", afirmou.
Essas contas movimentavam cifras milionárias em um curto período. “A movimentação acontecia muito rápido, num período de três a seis meses, e elas giravam em torno de R$ 10 a R$ 30 milhões de depósitos nessas contas. Até que o banco, por si só, por mecanismos de combate à corrupção, bloqueava aquelas contas e eles passavam para outras pessoas”, completou.
Ao todo, segundo a Polícia Federal, já são 45 investigados no âmbito da Operação Ajura 2. “Desses 45, 14 estão presos, 10 já com condenação definitiva por tráfico e também agora vão responder ainda pelos crimes de lavagem. E temos ainda mais 31 investigados que estão nesse momento em liberdade, mas que podem vir a ser presos a qualquer momento”, explicou o delegado.
Ao final da entrevista, o delegado também comentou sobre o aumento das apreensões de cocaína na região de fronteira.“Acredito que a explicação é o valor. O valor agregado da cocaína é muito alto e os volumes são pequenos, comparados à maconha. Grande parte dessa cocaína não fica no consumo interno, ela acaba seguindo para os portos e embarcando para o exterior”, concluiu.
A Operação Ajura 2 segue em andamento e novas prisões não estão descartadas com o avanço das investigações.
*Foto interna: Delegado da Polícia Federal em Dourados, Luiz Henrique Corrêa da Silva/ Crédito: Osvaldo Duarte
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Carga de cocaína apreendida em Dourados em 2023 - Crédito: Dourados News/Arquivo