Menu
Busca sexta, 15 de janeiro de 2021
(67) 99659-5905
JÚLIO CÉSAR DA LUZ FERREIRA

“Falta autoestima para quem trabalha na Justiça Federal”

12 novembro 2015 - 11h18

O entrevistado da semana do Dourados News é o servidor da Justiça Federal Júlio César da Luz Ferreira, de 53 anos que atua na área desde 2004. Na conversa ele fala sobre greve realizada pela categoria e ainda os motivos que os levaram a retornar aos trabalhos, o desgaste dos servidores e o veto da presidente que impede que a categoria receba o reajuste.

Em busca das perdas inflacionárias desde 2006 a categoria decidiu entrar em greve em junho deste ano, neste período apenas 30% do efetivo ficou trabalhando em regime de plantão, atendendo os setores considerados urgência e emergência.

“Os atendimentos feitos são em relação a liberdade de locomoção do direito de ir e vir, mandado de segurança, atendimento de internação nas questões ligadas a saúde, que são de urgência e emergência. Apenas esses são atendidos”, contou.

De acordo com o servidor, após aproximadamente 100 dias de greve e depois de muito desgastes o comando geral, juntamente com os trabalhadores, decidiram retornar ao trabalho, porém continuam mobilizados em busca da reposição das perdas de 67%.

Outro ponto levantado pelo servidor é sobre um sucateamento da Justiça Federal, em relação aos servidores. Com a perda do poder aquisitivo, muitos estão com dívidas e com problemas psicológicos.

Veja a entrevista na íntegra

Dourados News- Qual os motivos da greve dos servidores da Justiça Federal?

Júlio César da Luz Ferreira- Essa é uma coisa que vem de anos. Em 2006 foi o último aumento dos salários dos servidores e foi concedido já através de uma briga de 2004. Então já estava defasado quando foi concedido. A partir daí nós ficamos sem nenhuma reposição das perdas salariais que é justamente a correção da inflação do período, então desde 2006 sem receber nenhum centavo por correção das perdas inflacionárias. Em 2009 foi encaminhado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o nosso Plano de Cargos de Carreira e também não foi aprovado. Quando a Dilma assumiu, mesmo o país estando em ‘vacas gordas’, vamos assim dizer, ela não deixava votar o nosso plano de cargos e carreira. Até que no final do ano passado foi votado na Câmara dos Deputados e aprovado o nosso projeto de lei. Em 30 de junho deste ano o Senado também aprovou por unanimidade o nosso projeto. Foi a sanção da presidente Dilma e ela vetou e desde então entramos em uma luta para derrubar. Na verdade é um reajuste salarial, é uma recomposição de perdas infracionais, como desde 2006 até a presente data, sem receber um centavo de reposição dessa infração. Então de lá para cá essa inflação já passou de 67%, segundo até o próprio ministro da Justiça que justificou ao corrigir a tarifa do passaporte. A correção do passaporte foi de 67% que se tratava da recomposição inflacionária do período, isso de 2006 à 2015, então ele reconheceu que há realmente essa defasagem até no nosso próprio salário. E esse projeto nosso é que vai de 52% à 72%, o governo implantou na mídia que seria de 70% que é uma inverdade.

DN - Como está hoje, exemplifique...

J.C.L.F - Por exemplo, o que eu ganhava em 2006 eu estou ganhando 60% a menos, o meu poder aquisitivo caiu 60% e não é só meu não é de todos os servidores do poder judiciário. E o que acontece com isso? Um sucateamento da Justiça Federal, porque os servidores que tem oportunidade são mais jovens estão com gás, eles vão para outro lado irão fazer concurso para outros setores, porque boa parte de quem trabalha na justiça tem curso de bacharelado, de graduação, tem pós graduação, doutorado, mestrado, então eles irão para outros setores altamente qualificados. Eles não irão ficar dependendo de colocar o chapéu para o executivo. Então o que ocorre hoje é um sucateamento, diferente do que ocorre porque o pessoal generaliza, que a justiça como se fosse juízes, que não é verdade ela é composta de servidores e magistrados. Ai vão falar, mas a justiça recebeu, quem recebeu foi o reajuste ano passado foi e neste ano foram os juízes.

DN - Como foi essa correção?

J.C.L.F - Correção no ticket de alimentação de 80%, eles ganharam agora o auxílio a moradia no valor de R$ 4,5 mil, independente de quem tem casa ou não todos irão receber que na verdade isso é um complemento na renda salarial, é um aumento salarial, então todos receberam e já tem um projeto que está lá analisando para eles receberem um reajuste de 16% em duas vezes ano que vem, metade em janeiro e a outra parte em março, então para eles tudo e para os servidores nada. Então essa é a política que infelizmente o nosso presidente, o Lewandowski, implantou beneficiando todos os magistrados, e isso para a população simboliza a Justiça Federal que não é verdade, pois ela é composta de servidores e magistrados, os que estão sendo beneficiados são os magistrados, e nós estamos há 10 anos, sem um centavo de reposição dessa perda inflacionária*.

D.N. – Quando se iniciou a greve e por quanto tempo ficou paralisados os trabalhos na Justiça Federal?

J.C.L.F- A greve iniciou este ano aqui com uma intensidade, mas já foi feito outra greve em 2011, mas houve um compromisso do governo Lula de estar negociando com a Dilma, e ficamos ai aguardando essa negociação que não veio. Agora no mês de junho nós efetivamente entramos de greve, que foi até antes da votação no senado que passou e nós permanecemos de greve até no começo do mês passado, foi entorno de mais de 100 dias de greve, que estávamos atendendo em regime de plantão. Só que em alguns estados essa greve continua, Brasília e Paraná continuam. Em Brasília tem mais de 130 dias de greve.

D.N.- O que prejudica a população com a paralisação dos trabalhos na Justiça Federal, por conta da greve?

J.C.L.F- Veja bem, o principal fator é a morosidade processual. Hoje, por exemplo, devido aos processos estarem acumulados, eles tiveram um certo prejuízo no seu andamento, então o provimento demora mais um pouco. Os atendimentos feitos em caso de urgência e emergência que é no caso do preso, a liberdade de locomoção do direito de ir e vir, mandado de segurança, atendimento de internação nas questões ligadas a saúde que são urgência e emergência, são atendidos. Os demais são recebidos e ficam parados ali, não são juntados aos altos e não dando o andamento adequado. Com isso, há um atraso na apreciação desses processos. Então o prejuízo maior para a população é com relação a esse atraso, essa demora em receber alguma manifestação judicial.

D.N. – Vocês começaram uma campanha colocaram em exposição, alguns políticos do Estado...

J.C.L.F. – *São dois outdoors em Dourados e cinco em Campo Grande. Isso é um projeto cultural da Justiça Federal que os servidores, a nível nacional começaram. Nunca houve uma paralisação com uma grandiosidade que está havendo e nas redes sociais estamos fazendo um trabalho muito bonito com a adesão de deputados e senadores e da população. E esse projeto cultural visa justamente preservar, trazer para agora e para o futuro a memória dos servidores, quem participou, quem realmente nos apoiou que nós precisamos. Então isso foi uma forma que colocamos os que nos apoiam e como forma de agradecimento também e dizer para a população: '- esses são amigos da Justiça Federal, dos servidores da Justiça Federal'. Esses são a favor da justiça e são contra a corrupção, então é uma forma de divulgarmos para a população quem são os que se importam realmente de ter uma justiça atuante. Aqui no MS ficaram apenas dois que não declararam apoio para a gente,que são da base governista que são do PT [senador Delcidio do Amaral e deputado federal Zeca do PT], mas entendemos a posição deles.

D.N. – Porque vocês decidiram retornar ao trabalho, porém continuam a mobilização?

J.C.L.F.- *É o seguinte, não sei se é do seu conhecimento que nós fizemos sete caravanas para Brasília, por um motivo ou outro não houve sessão, porque não houve sessão? Porque em um momento, no principal, governo sentia que seria derrubado o veto. Eu creio que essa balela de que é com o ajuste fiscal, isso não existe, primeiro porque a Dilma, está gastando, liberou não sei quantos milhões para emenda parlamentar para poder, barganhou o ministério, então este veto é uma questão pessoal dela, eu sinto dessa forma. Dinheiro tem, tanto que estão mandado para fora, para Venezuela, para Cuba, eu acho que nem está emprestando, está é dando esse dinheiro, e deixando a gente aqui em uma situação de saia justa, vamos dizer assim. E esse movimento nosso é devido a idas e vindas, você sabe que isso ai é caro, você mandar um ônibus com 40 ou 50 servidores para Brasília, não sai por menos que R$ 25 mil, agora você multiplica por sete, então não tem sindicato, não tem categoria que está com seu salário estourado, defasado em 70%, que consegue manter isso. Não tinha mais condições de estar mantendo um movimento. Então, a Fenajusfe (Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal e Ministério Público da União) deliberou suspender a greve, manter o estado de greve e deixou a cada sindicato dos estados deliberar sobre a questão, foi uma orientação e aqui em Mato Grosso do Sul ficou decidido, que suspenderíamos a greve e manteríamos o estado de greve, e o que é esse estado de greve? É justamente em momento que houver a necessidade teria a liberdade de estar paralisando e fazendo essa movimentação, que foi deliberado agora na assembleia de sábado.

DN - E o que foi definido?


J.C.L.F.- Foi de parar no dia 17 de novembro efetivamente, não só a ida de caravana para Brasília, inclusive tem a campanha. Tudo mediante através de campanha e doação, então muitos servidores do sindicato não tem dinheiro e vamos parar no dia 17, mas não é só isso, pois os servidores que irão, param no dia 16 (um dia antes) e também no dia 18 quando retornam. Não é que retornamos de greve, nós vamos fazer movimentações para doações esporádicas quando houver necessidade. Então em momento algum deixamos de estar em greve, nós não ficamos de greve, mas sempre estivemos de greve, porque não deixamos de momento algum de manter os contatos*.

D.N.- No dia 17 de novembro terá uma nova manifestação, explique como será?

J.C.L.F.- Então, a ideia do sindicato é, com esse período longo muitos cansam, mas quando a gente vai lá receber e olha o nosso holerite, a gente reanima de novo, pois é uma decepção tão grande, mas, nos dá ânimo para lutar de novo. entendeu? Em Brasília, servidores do Brasil inteiro se encontram no gramado do Congresso e o pessoal estará em contato com os deputados, de casa Estado, pedindo apoio ou estar reforçando o apoio.

No mínimo mais dois servidores para cada vara

D.N.- Existe a possibilidade de retornar a greve e assim paralisar novamente o atendimento no local?

J.C.L.F.- Veja bem, havendo essa votação no congresso, ou pelo sim ou pelo não, não há o que se fazer. Em votando pelo sim, nós já temos ameaças da presidente, em recorrer ao Supremo tribunal que vai ser respaldado pelo Lewandowski, que ele é da ala PT (Partido dos Trabalhadores) e pelo menos ele vota sempre favorável ao governo, até por orientação dele, um dos motivos do veto que seria inconstitucional, tendo em vista a não previsão de orçamento.

D.N. – Quantos servidores atuam em Dourados? É suficiente?

J.C.L.F.- Olha aqui em Dourados cada vara da justiça ordinária tem 12, contando servidores da secretária com o gabinete. São duas varas, então são 24 servidores nas duas varas, no administrativo mais oito servidores, então são 32. No juizado especial são 17 servidores então nós estamos com uma média de 49, e quatro mão de obra excedente em média de 53 servidores mais ou menos e não é suficiente. Justamente uma grande causa do falta de severidade no processo, por duas questões básicas em alguns estado como no tribunal da região de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná lá o sistema é tudo informatizado é tudo eletrônico, não existe mais papel para você fazer juntada para você fazer cópia, então não existe e o processo fica mais célere, aqui é tudo mais físico, tem processo, tem que montar processo com mil folhas, e o que acontece com isso? Precisa de servidor para manusear e hoje, para você ter uma ideia, nós temos 27 voluntários que são estudante e temos 16 estagiários, além dos servidores e mesmo assim não dá conta. E você vê que os estagiários, pela situação que se encontra hoje aqui em Dourados, eles se vem até na obrigação de fazer o serviço do servidor. Também não vamos exagerar, mas assim, faz e trabalha mesmo, não só estagiar, ele está tendo conhecimento lógico da prática, conhecendo com funciona um processo, a forma de andamento do processo o despacho também, ele está tendo esse conhecimento, mas está colocando a mão na massa, não está só aprendendo ele está trabalhando efetivamente.

D.N.- No caso quantos seriam necessários?

J.C.L.F.- No mínimo mais dois servidores para cada vara, um no juizado eu acho que está suficiente e no administrativo mais dois servidores, então teria que vir no mínimo seis servidores para cá.

D.N.- Qual o maior problema que os servidores enfrentam atualmente?

J.C.L.F.- Olha o maior problema hoje na Justiça Federal é a questão da autoestima, do ânimo do servidor. Porque ele se sente desvalorizado. Indignação, problema psicológico que existe no meio dos servidores, para desenvolver a suas atividades porque ele está sem estimulo, sem ânimo, ele está vendo que o seu magistrado está tendo todo amparo, todos os benefícios que deveriam ser estendidos aos servidores e nós somos jogados aos leões. Mas de forma alguma, os magistrados que aqui estão não tem culpa nenhuma, inclusive eles merecem receber o que eles estão recebendo, não é isso, o que quero dizer é que os servidores que estão sendo injustiçados, os servidores que não estão sendo valorizados e tudo isso vem da cúpula do poder judiciário que é o STF, é o ministro, o presidente. Então o que está pegando mais é que o trabalho seja efetivamente melhor, que seja resolvido na Justiça Federal, justamente essa valorização, esse resgate da dignidade, que os servidores estão esperando e por isso nós estamos brigando, esperamos que isso ocorra agora com a derrubada do veto no dia 17 de novembro.

Deixe seu Comentário

Leia Também

Dourados deve ter doses para imunizar 24,5 mil pessoas contra o coronavírus na primeira remessa
PANDEMIA
Dourados deve ter doses para imunizar 24,5 mil pessoas contra o coronavírus na primeira remessa
Com ajuda de farejador, polícia fecha boca e prende membros de facção
RIO BRILHANTE
Com ajuda de farejador, polícia fecha boca e prende membros de facção
Dourados tem oito mortes por Covid em 24 horas  
PANDEMIA 
Dourados tem oito mortes por Covid em 24 horas  
Fabricante de oxigênio diz enfrentar crise sem precedentes no Amazonas
BRASIL
Fabricante de oxigênio diz enfrentar crise sem precedentes no Amazonas
Carreta tomba e derrama 22 mil litros de óleo diesel em rodovia federal
BR-158
Carreta tomba e derrama 22 mil litros de óleo diesel em rodovia federal
FUTEBOL
Santos quer antecipar término de contrato com o atacante Robinho
ARTIGO
Ano Velho X Ano Novo
IBGE
Pesquisa aponta estabilidade nas vendas no varejo em Mato Grosso do Sul
AVIAÇÃO CIVIL
Gol retoma voos próprios em Dourados no início de fevereiro
LEGISLATIVO
Alexandre Frota anuncia candidatura à presidência da Câmara dos Deputados

Mais Lidas

DOURADOS
Prefeitura corta mais de 400 cargos comissionados de uma só vez
CLIMA
Chuva alaga ruas no centro de Dourados após calor acima de 38°C
PEDRO JUAN
Policial é executado com tiros de fuzil na fronteira
BR-163
Homem morre após colidir carro de passeio contra caminhão