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Bom momento econômico de Dourados não se reflete nas Aldeias Indígenas

12 dezembro 2011 - 10h24

Vivendo um bom momento econômico, com investimentos públicos que chegarão nos próximos anos à R$ 140 milhões e investimentos privados que facilmente extrapolam a casa das centenas de milhões, Dourados foi manchete de uma reportagem da Revista Época na última semana por conta da pobreza de sua população indígena, que sozinha compõe quase 8% dos moradores da cidade.

“Pistolagem, homicídio, suicídio, desnutrição, alcoolismo, racismo, narcotráfico, desmatamento e falta de terra. A expectativa de vida do maior grupo indígena do país é de 45 anos, só comparável à do Afeganistão”, definiram a situação indígena na Grande Dourados os jornalistas Ricardo Mendonça e Maria Sanches, que vieram à cidade para desenvolver uma reportagem sobre o assunto.

Eles contam a história da indiazinha Sandriele, de 2 anos de idade,que “ passa o dia inteiro deitada num colchão velho e apodrecido sob a lona de uma barraca escaldante” no acampamento Apikay em Dourados.

Comparando a situação no Estado, mas, em especial a da região da Grande Dourados, uma das mais ricas do Mato Grosso do Sul, os jornalistas observam que “se todos os guaranis-caiovás estivessem concentrados num mesmo local, essa cidade indígena teria uma população maior que 89% dos municípios brasileiros”, porém, que mesmo assim a assistência que recebem do Estado (Governo Federal, Estadual e Municipal) é quase nenhuma.

Os jornalistas lembram também os casos de desnutrição que assolaram aldeias da região há alguns anos e a pobreza extrema, que segundo dados da Funai faz com que 80% dos Guarani e Kaiowás dependam de cestas básicas para sobreviver.

Tudo isso, somada com a violência entre os índios e de não índios contra as populações, associados com as condições precárias de vida desse povo, fazem com que a estimativa de vida, como havia mostrado o Dourados News, não ultrapasse os 45 anos de idade. A média nacional é de 73 anos de vida.
O fato levou a vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat a classificar a situação dos povos como “a maior tragédia conhecida na questão indígena em todo o mundo”.

A Reserva de Dourados é chamada na reportagem de “favelão de Dourados”. A Vila Olímpica inaugurada e sem uso também é lembrada como exemplo do descaso dos Poderes da República contra a população indígena.

Contexto

A causa do problema apontada pela revista é o mesmo já mostrado também pelo Dourados News: erros sucessivos do Governo do Estado e da União ao longo do processo histórico no Estado e na distribuição de terras, que nunca levou em conta a presença indígena nos lotes doados e vendidos.

“A causa essencial da violência na região é produto de um conjunto de erros históricos cometidos pelo Estado brasileiro. Entre 1915 e 1928, ignorando o modo de vida dos guaranis-caiovás, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), depois substituído pela Funai, demarcou oito pequenas reservas no sul do Estado. Dizia que esses espaços seriam suficientes para abrigar índios de diferentes etnias e grupos familiares que viviam espalhados pela região. As oito áreas somam 18.000 hectares. “Misturaram grupos diferentes, afastaram outros de seus locais sagrados, os tekohás (lugar de nascer e morrer na cultura guarani). Isso gerou e continua gerando muitos conflitos entre os próprios índios”, diz a antropóloga Lucia Helena Rangel, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo”, publicou a revista Época.

“Ao mesmo tempo que procurava aculturar os índios, o governo decidiu colonizar a região, incentivando a migração de fazendeiros de outros Estados com a farta distribuição de títulos de propriedade. Essa política começou logo após a Guerra do Paraguai, no fim do século XIX, e ganhou força no primeiro governo Getúlio Vargas (1930-1945), quando lotes de 30 hectares foram largamente distribuídos. Grande parte dessa reforma agrária foi feita em terrenos tradicionalmente ocupados por índios”, diz outro trecho da reportagem.

Depois completa: “E é aí que reside a grande particularidade do litígio indígena no Mato Grosso do Sul. Ao contrário do que ocorre no norte do país, onde muitas terras foram griladas, os fazendeiros da região de Dourados têm títulos legítimos de propriedade. Esse fato, alicerce da defesa dos produtores rurais, não é questionado nem pelos mais aguerridos militantes da causa indígena. “Os proprietários aqui têm títulos, alguns centenários”, diz Eduardo Riedel, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul)”.

Dourados

“A maior concentração de guaranis-caiovás está na Reserva de Dourados, a mais problemática das oito demarcações iniciais. A dez minutos do centro da cidade, o local virou numa espécie de favela indígena, com abundante histórico de degradação social. São 3.500 hectares para 14 mil índios, de 40 grupos familiares das etnias guarani-caiová e terena. Estima-se que 10% a 15% das famílias tenham problemas com álcool ou outras drogas (o mapa e as imagens acima dão uma ideia da vida na reserva). O local é palco de denúncias de estupro e até de venda de crianças”, cita a reportagem.

Outro trecho lembra que milícias faziam a segurança dentro da Reserva, mas, como havia muitas denúncias de abusos, foi extinta e sem segurança, prevaleceu a lei do mais forte, já que o Governo do Estado alega que a Aldeia é de responsabilidade Federal e a Polícia Federal alega não ter papel de patrulhamento.

Os cultos tradicionais indígenas também estariam se perdendo por conta das 38 igrejas dentro da Reserva e os riachos que cortam o espaço estariam poluídos com lixo e agrotóxicos de lavouras próximas.



Vila Olímpica

“Uma das maiores mostras da desconexão entre as demandas do local e as iniciativas do poder público foi a construção de um centro olímpico indígena, ao custo de quase R$ 2 milhões. A instalação, com placa do governador André Puccinelli (PMDB), tem quadra coberta, vestiários, campo de futebol, pista de corrida asfaltada e esculturas coloridas de enormes flechas fincadas no chão, representação que guarda pouca relação com a cultura guarani-caiová. Entregue há menos de um ano, a vila permanece abandonada. Os índios dizem que jamais foram consultados sobre sua construção. “Acho que era melhor aplicar esse dinheiro na saúde, na educação ou na agricultura, né?”, diz o índio Estevam Martins, que tem uma casa ao lado. Enquanto a vila era terminada, o MPF acionava judicialmente a prefeitura de Dourados por não ter aplicado R$ 1,8 milhão enviado pela União para programas de saúde na reserva”, atesta a reportagem.

Preconceito

“Ele são vistos como párias na sociedade, não recebem a efetiva proteção e são discriminados na busca por empregos, vagas em hospitais e outros serviços.” A geógrafa Juliana Mota, que leciona numa escola indígena enquanto conclui seu mestrado, dá um exemplo de como o preconceito se manifesta. “Sabemos que há restaurantes que compram mandioca dos índios porque é mais barato, mas não divulgam com medo de perder clientes”, diz. “Alguns falam para o índio não entregar o produto no restaurante, pois não querem que os índios sejam vistos por lá. Pedem para entregar em casa.” Nas cidades, muitos se referem aos guaranis-caiovás como “bugrada” ou “índios paraguaios”.

Até a tarde de ontem, a informação da revista continuava a se disseminar levando o nome de Dourados de forma negativa pelo mundo. Mais de 2 mil pessoas haviam “curtido”ou repassado o link da matéria via Facebook e outras 300 haviam tuitado.

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