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TONICO PEREIRA

Bêbado de A Regra do Jogo 'enche a cara' de chá e reclama de salário

27 outubro 2015 - 12h10

Responsável pelos momentos mais hilários de A Regra do Jogo, o vagabundo Ascânio, interpretado por Tonico Pereira, 67 anos, tem chamado a atenção por conseguir tirar Romero, Atena e os marginais da facção do sério sem derramar uma gota de uísque. Na verdade, o ator "enche a cara" mesmo é com "litros e litros" de chá, guaraná e água.

Ao Notícias na TV, ele revela que não decora os textos e reclama do "baixo salário" que recebe da Globo. Polêmico, diz que seu personagem deveria abrir uma igreja evangélica para lavar dinheiro e se eleger deputado federal.

O ator conta também que é "atormentado" diariamente por por José de Abreu, que o acusa de imitar o personagem Nilo de Avenida Brasil (2011). Qualquer semelhança de Ascânio com Nilo não é mera coincidência. As características são parecidas: bêbados, vagabundos, com um passado nebuloso e extramente debochados. “Eles têm a fisionomia parecida, mas eu e Zé [de Abreu] somos atores diferentes. Isso não o impede de me atormentar ao dizer que estou imitando ele, mas eu devolvo dizendo que a risada do Nilo era infantil. Não era de criança?", diverte-se.

Além do tipo de atuação, outro fator diferencia Pereira de Abreu. "Uma pessoa lê as falas pra mim e eu as reproduzo, sem delay. Prefiro assim", diz. "Uso ponto eletrônico porque é uma forma de me sentir ganhando mais. Já que não ganho mais, eu trabalho menos", cutuca o ator, que está há 40 anos na Globo, com apenas uma interrupção, em 1991, quando foi para a Manchete. Na Globo, interpretou os inesquecíveis Zé Carneiro, do Sítio do Picapau Amarelo (de 1977 a 1985) e Mendonça de A Grande Família (2002 a 2014). Ele não revela seu salário.

Além de usar o ponto, o ator se entope de chá, guaraná e água quando está gravando a novela, já que seu personagem está sempre com uma garrafa de bebida alcoólica nas mãos. "Bebo litros e litros porque o Ascânio não larga a garrafinha, mas é tranquilo", diz.

Na trama, o malandro é chamado jocosamente pelo filho de criação, Romero (Alexandre Nero), de Terreno Baldio. Em um lugar assim nasce qualquer coisa. Além de alcoólatra, preguiçoso e dono de um humor ácido, Ascânio não tem problemas com o travesseiro. Na semana passada, matou a sangue frio a personagem de Paula Burlamaquy, a mando de Tio (Jackson Antunes), chefe da facção criminosa da qual faz parte.

"Sempre trabalho com uma linha tragicômica porque o ser humano é assim. Acho que ninguém vira vagabundo porque quer. Excetuando-se os políticos, é pela sobrevivência mesmo. A bandidagem é quase uma salvação. Essas coisas estão dentro da gente, por isso não faço laboratório. Não preciso ir a um prostíbulo para saber como é ser uma prostituta ou frequentar a bandidagem para interpretar um bandido", comenta.

Pereira diz que não sabe para onde Ascânio vai em A Regra do Jogo, mas torce por um final épico. "Pra mim, o Ascânio tem de ser o verdadeiro chefe da facção e criar uma igreja evangélica para lavar dinheiro. Ele colocaria uma prótese peniana e assim conquistaria Atena [Giovanna Antonelli]. Os dois viajariam em lua-de-mel e aplicariam golpes pelo caminho. Na volta, ele se candidaria a deputado federal, ganharia e seria eleito o presidente da Câmara de Deputados", conta.

Isso não vai contra regras básicas do folhetim? Para Pereira, não. "É isso mesmo. Esse negócio de mocinho terminar bem já era. O malandro tem que se dar bem. Ou terminarei a novela pleno como ator ou frustrado", sentencia.

Nos bastidores, Pereira se dá muito bem com Alexandre Nero, a quem chama de Comendador, adora Giovanna Antonelli e admira o talento de Vanessa Giácomo. Sem falar de Tony Ramos, a quem considera "uma maravilha da natureza". "Nunca estudei teatro. Sempre fui muito empírico. Então, às vezes, existem algumas diferenças escolares e só".

O artista diz que se encontrou com João Emanuel Carneiro, autor da novela, apenas uma vez e que não se lembra do rosto dele. "Se o encontrar na rua, não saberei quem é, mas gosto de sua novela. Assisto, vejo erros e acertos, muitos mais acertos. Adoro a dicotomia dos personagens, porque ninguém é apenas bom ou mal na vida real. Quem diz que é bom está mentindo", afirma.

Pereira se confessa analfabeto digital. Seria incapaz de recorrer ao Google para achar uma foto de Carneiro. "Nunca sentei na frente de um computador. A única máquina que me adaptei foi o carro".

Mesmo assim, ele publica vídeos em redes sociais. Em um deles, que faz bastante sucesso na web, crítica uma lei que multa em R$ 510 quem for pego urinando nas ruas do Rio de Janeiro.

"Primeiro, tenho ajuda para postar esses vídeos na internet. Segunda coisa, sou idoso, sofro de incontinência urinária. Quem fez essa lei não pensou em pessoas como eu. Claro, não dá para urinar em qualquer lugar, temos de ser discretos, mas ninguém vai multar uma criança, por exemplo. Criaram a lei, então, deveriam colocar muitos mais banheiros químicos na cidade", discursa.




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