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Ana Cavalheiro

Seo Perciliano e Deus

10 junho 2024 - 07h15

Seo Perciliano tinha profundo amor pela vida. Gostava de plantar árvores e, depois, sentar-se para comer as frutas, em baldes cheios de laranjas ou jabuticabas. Era um homem de hábitos simples e muito generoso. Chegou a Dourados em abril de 1953.

Tocou alguns acordes de violão na juventude e sempre gostou de música. Ele vinha de uma família numerosa, de oito irmãos, trabalhadora e abastada. Perdeu a mãe muito cedo e, aos 3 anos, perdeu o pai. Cresceu órfão e viveu com parentes, aqui e ali. Os bens, deixados pelos pais, desapareceram. Mas os irmãos cresceram unidos e os inúmeros encontros os rejuvenesciam, enquanto lembravam-se da Fazenda Curralinho, onde nasceram e que pertencera ao meu avô Emiliano. Eram já homens feitos e falavam do passado como se tivesse
sido ontem. Eles tinham fascínio pela vida, por quem as deviam e pelas pessoas que participavam dela.

Meu pai sempre amou viver, e eu sentia, desde tenra idade, a felicidade da vida em sua companhia. Falávamos do porquê o céu era azul e as nuvens eram brancas e, à noite, procurávamos satélites no céu da chácara.

Nada nos faltava. Eu sabia reconhecer seu vulto na sombra e sentia por ele uma absoluta confiança. Em nenhum momento da minha vida, essa confiança faltou e, com certeza, isso teve influência no desenrolar da minha existência. Terapeutas me classificariam como edipiana, mas a mitologia não me impressiona muito. Gosto do sagrado que contém a vida.

Quando criança, eu me sentia soberana no meu universo infantil. Eu tinha meu cachorro Duquinho, que estava convencida que ensinaria a falar, e um Deus do qual eu desconfiava da autenticidade e com o qual rompi secretamente depois de inúmeras cartas enviadas, das quais não obtive respostas. Isso tudo aconteceu com Deus, mas não com meu pai. Meu pai estava sempre presente para escutar minhas histórias. Qual não foi minha alegria ao, depois da aula de Religião, no Educandário Santo Antônio – quando eu estava me sentindo cheia de pecados, pois já havia rompido com Deus devido ao seu silêncio infindo –, ouvir do meu pai que “Aquele que tudo perdoa” era ele mesmo, Seo Perciliano.

Ele me explicou que, devido à inocência das criancinhas – inocência esta que eu poderia usufruir até os oito anos de idade –, Deus, em sua infinita misericórdia, concedia o poder ao próprio pai para punir ou inocentar o filho. Mas eu não deveria esquecer que, a partir dos oito anos, teria que ser muito criteriosa em minhas atitudes e procurar não ofender Deus e respeitar muito minha mãe – sabedor meu pai da minha dificuldade infantil em ouvir e obedecer.

Fiquei muito feliz.

Fiquei ainda mais feliz em saber que minha irmã já não podia usufruir desse benefício, dada a avançada idade de oito anos indo para nove.
“Coitada”, pensei.

Apesar da pouca idade, entendi muito bem o privilégio de ter Deus como companhia.

Tudo que lembra meu pai é alegria e amor. Ele era um feminista. Lembro-me de ele resmungar sobre os “homens de bem”, que queriam casar seus filhos com separação de bens, visto que a noiva era pobre e o machinho muito novo, deixando assim a prole, já a caminho,
desprotegida.

Cresci vendo noivas arrastando aquele vestido enorme, dando o maior trabalho por causa do pó da nossa região. Isso me levou a desconfiar que aquele negócio, com aquele vestido e um homem do lado, era algo trabalhoso demais para o qual eu não tinha talento. Acabei por carregar comigo uma certa compaixão por noivas e nunca nem sequer provei aquele vestidão.

No chão do cartório de meu pai, onde brincava de boneca, eu compreendi a sociedade que ele lutava para transformar em algo humano para os seus.

Viva esse grande homem em sua generosidade!

Esse amor que tenho à vida vem de meu pai. Ele era um entusiasta e não queria morrer. Ele gostava de repetir as palavras religiosas “não há mal que não se transforme num bem maior”.

Completam-se hoje 89 anos que meu pai nasceu, mas certamente seu espírito é muito mais velho. Seu espírito permeia a humanidade e enriquece aqueles que o conheceram e aqueles que com ele conviveram.

Não me esqueço de lembrar: que sorte a minha!

Hamburgo,14 de junho de 2008
Ana Cavalheiro
Arquiteta, Cronista, Mulher.
Grevenstein - Alemanha
Vila São Pedro - Brasil
anacavalheiro23@gmail.com

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