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Ana Cavalheiro

Lovely Golden(s) City!

24 junho 2024 - 07h23

Era uma vez, uma menina que se lembra de uma Dourados brilhante, com
um enorme céu azul e nuvens muito brancas. As ruas eram largas, a enxurrada de barro
escorria pelas laterais. As carroças, os cavalos e o moderno corcel 73 se misturavam
na rua. Numa esquina, ficava o meu cantinho abandonado, o Douradão, o Colégio
Educandário.

Quando criança, eu andava na frente dos meus pais. Não gostava que
pegassem na minha mão. Assim, meu pai mantinha dignamente dois passos atrás de
mim, como um bom súdito à sua rainha, enquanto minha mãe queria mais é me agarrar
pelos cabelos.

É claro que eu sempre me perdia, pois gostava de conversar com
desconhecidos e esquecia a direção.

Cresci nessa poeira. Quando escurecia, voltávamos para casa – de
Dourados para a Chácara Santo Antônio – e, algumas vezes, presenciamos acidentes
horríveis. Lembro-me, uma vez, de um caminhão sem freio que atropelou uma
carroça, matando toda uma família: pai, mãe, filho e cavalo agonizando no meio da
escuridão. Era a imagem do inferno. Uma tragédia se passava naquele local, uma
família destruída – e nada poderia ser feito a não ser olhar e seguir. Lembro-me do
silêncio e do suspiro profundo do meu pai ao passarmos pelo caminhão sujo, da carroça
miserável e dos olhos do cavalo na escuridão.

Eu tinha medo desse lugar, dessa cidade, dessa escuridão, das histórias que
contavam. Medo de violência contra as mulheres na fronteira e de famílias cujos pais
foram assassinados. As histórias continuavam com as desquitadas, que não mereciam
respeito por terem se separado do marido. Elas não prestavam. Eu não conseguia me
imaginar sobrevivendo num lugar desses.

Meu padrinho de batismo foi prefeito da cidade, homem simpático e meio
louco. Diziam que tinha neurose de guerra, mas era carinhoso, comprava sorvetes para
mim quando eu estava com meu pai. Depois, quando eu já estava grandinha, ele não
me reconhecia mais, mas eu me apresentava:

– Bom dia, padrinho Napoleão!

Ele reagia imediatamente e me oferecia um sorvete, como se fosse uma
obrigação. Era o jeito dele e eu gostava disso. Meu pai o considerava um bom homem
e amigo. E, geralmente, meu pai não se enganava quanto a homens de caráter.

Assim, ficou claro para mim que homens de confiança são somente os que
estão do lado do bem: homens bons, protetores e verdadeiros, de fala mansa e olhar
discreto.

Lembro-me de que ele tinha uma camionete vermelha que dirigia em
disparada, na estrada de terra e cheia de buracos que passava na frente da Chácara,
nossa atual BR-163. Deixava um rastro de poeira.

– Lá vai o Napoleão! – dizia meu pai, da nossa varanda empoeirada.

Quando meu padrinho estava na Beneficência Portuguesa, fui visitá-lo –
ele ficou um bom tempo lá antes de morrer – e ele estava bem, muito simpático e
amável como sempre foi. Ele vestia seu pijama de listras, parecido com o uniforme
dos prisioneiros do Holocausto, contra o qual ele lutou na Itália. Foi a última vez que
o vi.

Em algum momento da minha vida, encontrei o passaporte que me levaria
para longe daquelas lembranças assustadoras. Com a Stipendium de uma renomada
instituição do governo alemão na carteira, parti com uma pequena mala para Köln,
cidade de que nunca tinha ouvido falar, para fazer Mestrado por três anos na área de
Meio Ambiente. Mal sabia que nunca mais voltaria. Sou mestra em Sustentabilidade e
assuntos correlatos por uma escola técnica superior alemã e, até hoje, não sei como
consegui – devido ao alto grau de dificuldade para uma menina que mal falava meia
dúzia de palavras em inglês – enfrentar outra língua, além dos estudos.

Minha irmã ofereceu seus casacos de frio e marcou uma visita, na
Germânia, a pedido de meu pai que queria saber de tudo.

– Vá ver sua irmã – ordenou.

Senti-me à vontade na Alemanha, onde os cumprimentos eram, no
máximo, um estender de mãos, sem abraços e beijos. Dessa parte eu gostei. Nunca
apreciei o contato próximo demais, beijinhos e essa coisarada toda que nem sempre
está dentro do protocolo. Com a pandemia, na Alemanha, foi abolido de vez o aperto
de mãos, embora ainda resista em lugares mais conservadores.

O caso é que eu entendi que ali, debaixo daquele céu azul e daquele calorão
do solo amado, nada existia para mim. Saí, então, pelo mundo procurando um lugar
onde a minha autoestima encontrasse expansão.

Não poderia viver na queridíssima Dourados e, apesar da dor da despedida
familiar, fui para bem longe, viver numa sociedade onde meninas são meninas,
meninos são meninos, simplesmente crianças!

Ana Cavalheiro
Arquiteta, Cronista, Mulher.
Vila São Pedro - MS, Brasil
Grevenstein - Alemanha
Junho de 2024
anacavalheiro23@gmail.com
Glossário:
Stipendium: bolsa de estudos
Lovely Golden(s) City: Adorável Cidade de Dourados

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