19/05/2017 17h35

Zeca, Puccinelli e Reinaldo são citados por dono da JBS em esquema de propina


Gizele Almeida
 
Esquema no governo seria antigo e já teria passado por Zeca, Puccinelli e Azambuja- Foto: Divulgação Esquema no governo seria antigo e já teria passado por Zeca, Puccinelli e Azambuja- Foto: Divulgação

Wesley Batista, um dos donos da JBS, relatou suposto esquema de corrupção no Governo de Mato Grosso do Sul com pagamento de propinas em troca de isenção fiscal à empresa. Conforme depoimento dele em delação premiada, a situação ocorre desde o governo do Zeca do PT, passando por André Puccinelli e seguindo com Reinaldo Azambuja.

No depoimento prestado em 4 de maio de 2017, ele fala sobre notas fiscais frias, pagamento de doleiro, pagamento em espécie aos representantes, entre outras situações.

No trecho que se refere exclusivamente ao Mato Grosso do Sul, Batista conta que os valores milionários repassados aos gestores tinha como intuito a redução da alíquota do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

"É um esquema de benefícios fiscais para redução da alíquota do ICMS. Esse esquema começou quando o Zeca do PT foi eleito como governador. O esquema conosco era de acerto de pagamento de propina em troca de redução de pagamento de ICMS no Estado", diz.

Ele comenta ainda que outro responsável pela empresa cuidava das negociações anteriormente e explica que já não é possível precisar os valores ‘empenhados’ a Zeca do PT, sendo que este também ‘faturou’ durante a campanha a deputado federal.

"Na época, o responsável era o Joesley também aonde em 2003 foi acertado 20% do benefício de redução de ICMS em contrapartida a pagamento de propina. Como o fato é de 2003 não temos mais os registros de quanto foi pago de propina. Em 2010, nós fizemos um pagamento para o Zeca (ele já não era mais governador, era candidato a deputado) aonde foram pagos R$ 3 mi, do qual foi R$ 1 milhão em doação oficial e R$ 2 milhões em espécie", conta.

Ele cita que o esquema foi sendo "herdado" pelos gestores e conta as várias formas de benefícios.

"Essa forma de operação no MS permaneceu até agora no ano passado e isso foi ‘passando’ do Zeca do PT para o Puccinelli (nessa época era o Joesley que tratava com o próprio governador e com a pessoa que operacionalizava todos os acertos para o governador Puccinelli, identificado como Ivanildo, que seria pecuarista). Foram pagos por várias modalidades, sendo notas fiscais frias, pagamento de doleiro a terceiros e pagamento em espécie", comenta.

Durante o depoimento, Batista apresenta um documento com empresas e pessoas beneficiadas com o esquema e comenta sobre algumas destas e sobre os valores.

"Na tabela temos "R$ 5 mi para Ivanildo, R$ 9,5 mi para a Proteco Construções, R$ 980 mil para a Gráfica do Mirched Jafar, MP Produções Cinematográficas, empresa de propaganda, Ibope Pesquisa e Consultoria com R$ 2,8 mi, Apamil Taxi Aéreo, Instituto Ícone de Ensino Jurídico com R$ 1,2 mi, R$ 22 mil de uma empresa de pesquisa de mercado e tem R$ 2,9 mi para Gráfica e Editora Alvorada. Fora essas notas fiscais aqui, no período do governador André Puccinelli foram pagos ao redor de R$ 30 mi em dinheiro em espécie e mais R$ 60 mi via doleiro para terceiros", destaca.

O delator afirma que no atual governo, o próprio Azambuja seria o cuidador dos trâmites do esquema e dá mais detalhes sobre as negociações com citação de que o governador teria recebido um "intermediador" situação.

"Já no governo atual do Reinaldo Azambuja fui eu que passei a tratar. Esses pagamentos que são os mais recentes R$ de 12,9 milhões para a empresa Buriti, todos esses pagamentos aqui que são pessoas físicas que são produtores que emitiram notas fiscais contra nós mais pagamento em dinheiro em espécie de ao redor de R$ 10 milhões para o então governador era tratado direto comigo. Reinaldo Azambuja tratava comigo, o ‘Boni’ ia lá no palácio do governo em Campo Grande, pegava as notas em mãos com o governador e processava o pagamento e a mesma coisa incentivos fiscais para redução de ICMS. Vários incentivos são legítimos e um dos termos de acordo não foi cumprido, foi simplesmente para reduzir o pagamento, só conseguia o termo de acordo se pagasse, se não pagasse não conseguia", cita.

Ele ainda realiza apontamentos de que o esquema no setor teria alcance geral no Estado.

"No MS temos conhecimento que é um negócio generalizado no nosso setor de frigorífico essa modalidade, não era só nós que tínhamos. De frigorífico pequeno a grande temos informação de que é uma prática recorrente", comenta.

Recebimentos indevidos durante campanha eleitoral, com troca de favores entre os então na época postulantes ao Governo, também são pontuados pelo delator.

"Na campanha quando Reinaldo Azambuja e Delcídio do Amaral foram candidatos, o Joesley autorizou adiantamento para campanha do Delcídio para ser descontado se ele fosse governador, nesse esquema. Ficou em conta corrente que o Joesley negociou com o Delcídio e com o Reinaldo e que se o Reinaldo ganhasse um ia pagar a conta do outro. O Delcídio chegou a receber R$ 12 mi e tem várias notas fiscais frias, dinheiro em espécie [...]", diz.

As afirmações foram prestadas aos membros da Procuradoria-Geral da República Fernando Antonio Oliveira e Sergio Bruno Fernandes.

Posicionamentos

O Dourados News buscou contato com os representantes políticos citados nos apontamentos para eventuais esclarecimentos sobre os fatos.

A assessoria de comunicação do governador Reinaldo Azambuja informou que enviaria um posicionamento via e-mail sobre o fato, o que até o fechamento desta reportagem não aconteceu.

Em nota, a assessoria do deputado federal Zeca do PT, cita que ele "não tem o menor temor da alardeada delação dos executivos do grupo JBS, já que na condição de ex-governador do Estado, nunca pediu e nem tomou conhecimento de que alguém tenha pedido propina ao referido grupo em seu nome ou em nome do seu governo".

No texto, a afirmação ainda quanto ao aguardo de provas.

"Resta desafiado que seja apresentado qualquer prova ou indício do fato aludido na referida delação". A nota é finalizada com o seguinte apontamento: "O Deputado Zeca do PT confia que o poder judiciário ao final da apuração saberá distinguir as verdadeiras imputações daquelas que tem um único propósito: Obter benefício com uso indevido da delação premiada".

Em contato com a assessoria de André Puccinelli, o Dourados News foi informado que o mesmo não está se posicionando sobre o assunto.

O Dourados News não conseguiu contato com a assessoria de Delcídio do Amaral.

Veja o vídeo do depoimento na íntegra:

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