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Menos inspirado, "O Mecanismo" retorna tentando equilibrar ideologias

14 maio 2019 - 10h15Por IG Gente

Logo na largada da 2ª temporada de “O Mecanismo”, série da Netflix sobre os bastidores da Operação Lava Jato, o ex-policial Marco Ruffo (Selton Mello), que é o narrador da produção, diz que é chamado de “fascista” se aponta corrupção na esquerda e de “esquerda caviar” se faz o mesmo na direita. Mais tarde ele reforça: “Ideologia é uma merda”.

Este é o signo do segundo ano da comentada produção criada e assinada por José Padilha em parceria com expoentes da produção do audiovisual nacional como Daniel Rezende e Elena Soarez. Tal qual o segundo “Tropa de Elite” está para o primeiro, o segundo ano de “O Mecanismo” está para seu anterior.

Ainda no primeiro episódio – são oito a compor o segundo ciclo – a frase “estancar a sangria” que detonou fortes reações no primeiro ano ao ser atribuída ao ex-presidente Higino (Arthur Kohl) é posta na boca do personagem inspirado em Aécio Neves, o senador e candidato derrotado nas urnas em 2014 Lucio Lemos (Michel Bercovicht).

O segundo ano da série é muito mais engessado no discurso, preocupado em não pisar em calos ideológicos, do que comprometido com o vigor narrativo do primeiro ano – que tinha suas falhas, mas era mais independente criativamente.

Aqui há diálogos pensados para evitar cara feia e até mesmo uma metáfora visual desnecessária – Ruffo chega a criar um castelo de cartas e usar o jogo canastra para explicar a longeva sistemática de corrupção em vigor no País. De toda forma, o aspecto primordial da série – a visão dantesca de José Padilha para o jogo político no Brasil – segue como norte absoluto da trama.

“O inimigo agora é outro”

Na segunda temporada os investigadores da Lava-Jato se deparam com a politização da operação e muitos não sabem exatamente como lidar com isso. Os conflitos pessoais desses personagens, intrínsecos à complexidade da operação ou extemporâneos a ela, são alguns dos bons valores desenvolvidos pelo segundo ciclo. Especial atenção para a ciranda amorosa envolvendo a delegada Verena (Carol Abranches), o agente Vander (Jonathan Haagensen), o procurador Claudio (Lee Taylor) e sua esposa e também procuradora Renata (Karla Tenório).

A série abraça a tese de que o PT “dormiu com o inimigo” e que o PMDB, hoje MDB, percebeu a cisão na base do governo e patrocinou a queda de Janete Ruscov (Sura Berditchevsky) e a prisão de Higino em uma manobra para preservar o mecanismo e entregar algum resultado para a operação mais ampla de combate à corrupção no País.

É uma boa tese, mas que a série alinha com pouca imaginação devido às tantas amarras ideológicas que precisa dar conta para não envergar. É um flagelo autoimposto. Outro problema é o personagem de Selton Mello. Totalmente deslocado da ação, a série precisa achar meios de inseri-lo narrativamente no que está acontecendo e isso nem sempre funciona bem, ainda que o episódio dedicado a sua ação na tríplice fronteira seja isoladamente bastante satisfatório.

A face menos oculta da lei


Um dos pontos mais interessantes do novo ano, que corre mais com os eventos do que no primeiro ciclo, é a maneira como Padilha trabalha a figura de Moro, aqui na pele do juiz Rigo e vivido pelo ator Otto Jr. Padilha vê um juiz seduzido pela notoriedade e que aceita o antagonismo com a figura de Higino e até mesmo se compraz dele.

É um arco interessante, e ainda que Padilha pese a mão algumas vezes, fornece boas possibilidades para o futuro da série, caso a terceira temporada seja confirmada.

Como "O Mecanismo" é uma série cara e complexa e de interesse muito regional, o terceiro ano pode não vir. De todo modo, o desfecho dessa temporada funciona como um series finale digno e compatível com o discurso político do cineasta.

 

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