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Catherine Deneuve : ''Sou uma mulher, não sou o mito''

29 maio 2011 - 12h01

Passaram-se os anos - as décadas -, mas o tempo continua respeitando a bela da tarde. Catherine Deneuve é uma senhora, mas prescinde das plásticas e do botox para continuar impressionando. Se recorreu ao bisturi, foi com muita parcimônia. A silhueta é que está mais pesada. Ela não é mais a loira delgada que cantava e dançava com a irmã, Françoise Dorléac, em Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort), de Jacques Demy. Mas canta no novo Christophe Honoré, Les Bien-Aimés, Os Bem-Amados, que encerrou o Festival de Cannes, no domingo passado.

No início da tarde daquele dia, Catherine recebeu um reduzido grupo de jornalistas - quatro, incluindo o repórter do Estado, mas um ficou mudo, decerto pelo choque provocado por estar diante do mito - para falar do filme e de sua extraordinária carreira. Ela fumou muito, mas sempre com o cuidado de não despejar a fumaça na cara dos interlocutores (não havia nenhuma mulher). Catherine prepara-se para viajar para o Brasil. Estará aqui nos próximos dias, como convidada especial do Festival Varilux do Cinema Francês que também vai homenagear, com uma retrospectiva, outra estrela, Sandrine Bonnaire.

Como curiosidade, vale destacar o que disse depois, em outra entrevista, Honoré: Catherine pode representar a França, como Dostoievski representa a Rússia e Oscar Niemeyer, o Brasil. Mas, para ele, Catherine não é nem o mito nem o ícone - é a mãe de sua amiga Chiara (Mastroianni, filha da belle toujours com outro gênio da representação, Marcello Mastroianni).

Como é voltar a cantar diante das câmeras?

Não sou do tipo que tenta construir uma carreira de cantora, mas quando as circunstâncias se apresentam e o papel exige, canto com o maior prazer. Christophe (Honoré) diz que sou muito afinada, mas o curioso é que Les Bien-Aimés não nasceu com a proposta de ser um musical. Ele encomendou uma música para o compositor Alex Beaupain, com quem havia trabalhado em Canções de Amor. Uma canção puxou a outra e, de repente, o filme virou musical, com 12 canções e 40 minutos de diálogo cantado.

É impossível não se lembrar de Jacques Demy. Que lembranças guarda de Os Guarda-Chuvas do Amor e de Duas Garotas Românticas?

Mas o importante não é a minha lembrança e sim, a sua. Para milhões de espectadores ao redor do mundo, esses filmes viraram obras encantadas. A reputação de Jacques é daquelas que não cessa de crescer. Filmes que, na época, foram mal recebidos hoje viraram referência. Ele amava as comédias musicais. O melhor é que, sob uma aparência de refinamento e frivolidade, ele conseguiu criar todo um universo crítico. Esse era o seu gênio.

São filmes dos anos 1960, quando você fez filmes transgressores, trabalhando com grandes diretores - Demy, Polanski, Truffaut, Buñuel, principalmente. O que a impulsionava a transgredir?

Mas era normal! Surgi com a nouvelle vague. Éramos todos jovens e aqueles diretores, que queriam ser autores, iam contra as regras estabelecidas. Tive a sorte de trabalhar com alguns, em filmes bem-sucedidos. Digamos que, naquela época, eu fui escolhida, mas, depois, quando pude escolher, segui com Don Luis (Buñuel) e agreguei (Marco) Ferreri, (Jean-Paul) Rappeneau, André (Téchiné). Minha carreira foi construída de encontros, não como uma estratégia, mas momentos de felicidade. Tenho muito orgulho do que fiz e continuo fazendo.

Justamente, a felicidade. Existe uma frase em Les Bien-Aimés, "Não existem casamentos felizes." O que você pensa disso?

Que não vou lhe falar dos meus casamentos (risos). Mas acho uma bobagem buscar a felicidade como um estado permanente. Seria um tédio terrível. Nós precisamos desses instantes de euforia, de plenitude, justamente para equilibrar os outros. A vida é injusta, cruel. Não se pode passar por ela sem perdas. O importante é o equilíbrio.

Gostei muito de outra frase. "Você pode acabar comigo, mas não me impedir de seguir te amando..."

(Ela cantarola para recuperar na lembrança a frase completa da canção) É uma concepção romântica, sem dúvida, mas que faz parte do conceito do filme. François (Truffaut) desconfiava do romantismo. Fez grandes filmes sobre pessoas que amam, a despeito da rejeição. O amor é sempre exigente, pode nos pregar peças. O importante é não se fechar para as emoções da vida.

Para ser a mulher que você se tornou, teve algum modelo?

Sou produto de uma era de mudanças, para a qual contribuí, mas se alguma vez tive uma modelo foi Louise Brooks a estrela de (G. W.) Pabst. Aquela foi uma mulher adiante de sua época.

Você se tornou uma espécie de madrinha do novo cinema francês, trabalhando com Honoré, François Ozon (Potiche) e outros jovens realizadores. Não é intimidante trabalhar com um mito?

Você teria de perguntar a eles, mas não sou um mito, sou uma mulher. No set, sou uma atriz como as outras e, às vezes, sou até a mais preocupada. Em Les Bien-Aimés represento com minha filha, Chiara. Fazemos mãe e filha. Eu tinha de cuidar para que os gestos e olhares, as palavras fossem da personagem, não meus. Mas é natural que eu trabalhe com jovens. O cinema renova-se, os autores da minha geração estão parando ou desaparecendo. Eles se renovam, eu me renovo como posso. Depois das mães, começo a fazer as avós. O importante é seguir com o prazer que o cinema me dá.

Você trabalhou com Milos Forman em Les Bien-Aimés. Como foi?

Já o conhecia. Ele é encantador, além de grande artista. E é um gourmet. Christophe (Honoré) me disse que nem precisou fazer força para contratá-lo. Bastou dizer que Milos teria todos os restaurantes de Paris à sua disposição e ainda estaria casado comigo. Milos foi galante - disse que, se era a única forma de se casar comigo, ele aceitava, com certeza (risos).

Você está indo ao Brasil para participar de um festival do cinema francês no Rio e em São Paulo. Será sua primeira vez?

Não, já estive algumas vezes, mas não o suficiente para ter uma ideia do País. O Rio é um dos lugares mais belos do mundo. Ouço que o Brasil mudou, evoluiu muito. Vocês têm uma presidente. O problema é que essas estadas são curtas. Quase não temos tempo de ver nem conhecer nada. Vou tentar fugir um pouco ao circuito fechado dos compromissos.

Para concluir, você trabalha com sua filha em Les Bien-Aimés. Chiara se tornou uma verdadeira atriz. E está linda...

É gentil de sua parte me dizer isso. Mas concordo. Estou muito orgulhosa do que Chiara conseguiu, na vida e na carreira.

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