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ESTUDO

Pesquisas tratam de línguas indígenas e de recursos hídricos em Dourados

23 agosto 2019 - 09h18Por Da Redação

No Campus Dourados do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMS) o foco das pesquisas do ciclo 2018-2019 da iniciação científica da iniciação cientifica se concentra na resolução de questões do cotidiano. Entre os temas abordados estão a comunicação com a população indígena, preservação ambiental e a busca de informações para viagens internacionais.

Um dos projetos é o “Guaruak”, que se destina ao desenvolvimento de uma aplicação para dispositivos móveis e internet capaz de traduzir termos das línguas guarani e terena para o português, e vice-versa. Cerca de 1,7 mil termos da língua guarani e outros 570 da terena já foram cadastrados nas fases anteriores do projeto, que teve início em 2016.

Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena do Brasil com mais de 73 mil pessoas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – atrás apenas do Amazonas. Dourados possui 20% desse total, com os povos Guarani (Kaiowá e Ñandeva) e Terena. Atualmente, o guarani é a segunda língua mais utilizada pelos indígenas brasileiros, com 26,5 mil falantes no país. 

O projeto surgiu da necessidade de preservar as línguas nativas por meio da tecnologia. O nome deriva dos léxicos Guarani e Aruak e busca contribuir para o fortalecimento de identidades individuais e coletivas. Além disso, facilitará o acesso de pesquisadores às traduções entre o português e as línguas nativas. 

A pesquisa – que teve sua quarta versão aprovada recentemente, para o ciclo 2019-2020 da iniciação científica – acumula diversos prêmios na Feira de Ciência e Tecnologia da Região da Grande Dourados (Fecigran), Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências do MS (FetecMS) e Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace). 

Trabalho de campo – A pesquisa é coordenada pela professora de Sociologia do Campus Dourados do IFMS, Carmem Rocha, tendo como orientadores os docentes Evandro Falleiros e Karina Vicelli, das áreas de Informática e Língua Portuguesa, respectivamente.

Entre as atividades do projeto estão visitas às aldeias que compõe a reserva indígena do município, com o objetivo de captar junto aos falantes nativos termos para inserção no banco de dados da aplicação. A pesquisa também visa promover uma reflexão sobre a preservação identitária dos povos.

“Constatamos um descaso em relação às políticas públicas quanto à manutenção das línguas e dos povos indígenas. Sabemos que quando uma língua morre, a possibilidade desse povo e da cultura dele desaparecer é imensa. O primeiro passo para destruição de uma comunidade é a perda identitária da língua e seus elementos culturais”, explica Karina. 

A professora complementa que o não uso das línguas nativas também está ligado à questão do preconceito. "Muitos indígenas não ensinam a língua da sua etnia porque eles sabem que os filhos sofrerão preconceito pelo jeito de falar. É uma prática muito comum, que o projeto tenta combater a medida que tentamos democratizar as línguas”.

Atualmente participam do “Guaruak” os bolsistas Ana Paula Balbuena, Isaias Avila e Vitor Hugo da Silva, todos estudantes do curso técnico integrado em Informática para Internet. 

“A pesquisa acrescenta conhecimento e modifica a maneira como você observa o mundo. Depois de integrar o projeto  passei a questionar: como as pessoas não dão valor às línguas indígenas? Elas fazem parte da nossa história, do que nós somos. É um valor cultural que não dá pra medir”, comenta Ana Paula, que integra o projeto desde o ano passado. 

“Temos muitas cidades e nomes que utilizamos no dia a dia que possuem origem guarani ou terena. Popularizar essas línguas contribui para abrirmos novas possibilidades de linguagem, o que faz uma grande diferença na valorização dessas culturas”, complementa a estudante.

Preservação ambiental – A água da chuva no município de Dourados é o objeto de estudo de outra pesquisa desenvolvida pelo IFMS. Intitulado “Investigação e monitoramento da água da chuva na região da Grande Dourados”, a pesquisa se debruça sobre a distribuição das precipitações na segunda maior cidade do estado. 

“A despeito da popularidade do assunto e dos inúmeros trabalhos disponíveis, ainda são escassas as pesquisas científicas sobre as chuvas em Mato Grosso do Sul, principalmente da região da Grande Dourados”, observa o responsável pelo projeto, Danilo Teles, docente de Física no campus.

A iniciativa permitirá o monitoramento da quantidade e os parâmetros físico-químicos da precipitação pluviométrica, inclusive nas lagoas da região. O pano de fundo do projeto é a discussão de fenômenos físicos relacionados a questões ambientais. Os dados poderão auxiliar e orientar o uso de recursos no acompanhamento e solução dos problemas relacionados à dinâmica pluviométrica brasileira. 

O desenvolvimento da pesquisa se baseia na distribuição de pluviômetros em diferentes pontos da cidade, locais de fácil acesso para que a quantidade de água seja medida logo após a precipitação. 

As amostras são armazenadas e identificadas e, posteriormente, enviadas aos laboratórios do campus. São analisados fatores como volume, densidade e massa, além de características químicas como potencial hidrogênico e sais totais dissolvidos, permitindo uma avaliação de influências dos efeitos sazonais sobre a precipitação pluviométrica. 

“Avaliamos o volume de chuva em Dourados durante um ano, verificando a ocorrência com as probabilidades apresentadas no site do Inmet [Instituto Nacional de Meteorologia]. Também estudamos a precipitação e a evaporação em relação às estações do ano. Com o estudo, foi possível verificar o volume precipitado e a evaporação, o que possibilita a obtenção de um balanço hídrico dos reservatórios da região”, detalha Danilo. 

Também participam da pesquisa o professor de Física, Rafael dos Santos, e o técnico de laboratório Manoel Almeida, e os bolsistas Gabriel Trovato e Carolina Rodrigues, do curso técnico em Informática para Internet. 

A partir do desenvolvimento deste trabalho, espera-se aumentar a quantidade, qualidade e a disponibilidade de dados pluviométricos locais o que permitirá, agregado a estudos futuros, ampliar a compreensão do clima e do ciclo hidrológico da região. O resultado da pesquisa será apresentado na edição 2019 da Fecigran. 

Planejamento – Já a pesquisa “Infotrips” pretende reduzir os transtornos causados pela desinformação no planejamento de viagens internacionais, por meio da criação de um site informativo.

O ponto de partida para o projeto foi o aumento recente do número de embarques de brasileiros para o exterior, conforme apontam dados da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), e o uso da internet como forma de obtenção de informações básicas.

Foram procedimentos da pesquisa a definição dos países que serviram como objeto de estudo; a realização de entrevistas junto a professores e estudantes que já realizaram viagens ao exterior; e o levantamento de dados sobre a entrada de estrangeiros nos países selecionados, com base em informações coletadas nos sites das embaixadas, consulados e outras instituições governamentais.

O coordenador, Yuri Tomas, docente da área de Informática, destaca que o projeto foi idealizado pelo estudante Eduardo Henrique Custódio, que atuou como bolsista e utilizará a pesquisa como trabalho de conclusão do curso técnico integrado em Informática para Internet. 

“O Eduardo percebeu a falta de um site com todas as informações legais sobre os requisitos para se visitar outros países. O Portal Consular e as páginas específicas para cada país possuem parte dessa informação, mas, por cada um deles conter um fragmento da informação, isso se torna confuso”, explica o professor.

Dessa forma, buscou-se descobrir um padrão nas informações e documentos disponíveis, o que possibilitou a criação do banco de dados responsável por alimentar o sistema no qual o site se baseia. 

“Buscamos reunir informações relacionadas a visto, passaporte, vacinas, língua, moeda, fuso horário, entre outras. Decidi criar o site para diminuir transtornos e até mesmo evitar que os turistas precisem retornar ao Brasil devido a contratempos”, detalha Eduardo. 

O "Infotrips" teve a coorientação da professora de Administração, Mary Fernanda de Melo. Com o banco de dados criado, a expectativa é que o site fique pronto nos próximos meses. Além de ser apresentado como TCC, o trabalho será exposto na edição 2019 da Fecigran.

Investimentos – No ciclo 2018-2019 da iniciação científica foram investidos quase R$ 17 mil nos projetos do Campus Dourados, em recursos próprios do IFMS e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No total, 14 estudantes foram contemplados com bolsas de iniciação científica. 

Desde 2016, foram desenvolvidos no campus 31 projetos de iniciação científica, que envolveram 74 estudantes entre bolsistas e voluntários. No mesmo período, os projetos da unidade receberam R$ 5,5 mil como apoio e incentivo à pesquisa e inovação, para o custeio de despesas com os projetos. 

Feiras – As últimas três edições da Fecigran reuniram 91 trabalhos de estudantes do ensino fundamental, médio e técnico integrado, de escolas públicas e privadas, de Dourados e municípios da região, que fazem parte da área de abrangência do campus. 

As inscrições para a edição 2019 foram prorrogadas e seguem abertas até dia 2 de setembro. Podem participar estudantes das escolas de Caarapó, Deodápolis, Douradina, Dourados, Fátima do Sul, Glória de Dourados, Itaporã, Jateí, Maracaju, Rio Brilhante e Vicentina. A feira será realizada nos dias 3 e 4 de outubro, no Campus Dourados do IFMS. 

As pesquisas desenvolvidas por estudantes e docentes da unidade acumulam 19 participações e cinco prêmios em eventos estaduais e nacionais, como a Feira de Tecnologias, Ciências e Engenharias de MS (FetecMS) e Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace).

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