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Os riscos do novo grande negócio da China: exportação de alimentos

04 Dezembro 2012 - 20h30

Invasão de comida asiática faz países da Europa dispararem alerta. No Brasil, consumo ainda é pequeno.

Made in China. Estamos acostumados a ver esse selo em roupas, brinquedos, produtos eletrônicos e badulaques. Mas, agora, o país busca deixar a sua marca também no setor de alimentos, cujas exportações quase dobraram entre 2005 e 2010, chegando a US$ 41 bilhões. O mundo, no entanto, olha com ressalvas o movimento. Vozes de alerta surgiram na Europa por conta do nível de contaminação e pela falta de controle adequado.

No início de outubro, mais de 11 mil estudantes alemães tiveram diarreia e vômitos depois de ingerirem alguns morangos chineses contaminados com norovírus, um tipo vírus que pode ser transmitido através da ingestão de alimentos crus manipulados por mãos infectadas.

Até o mês passado, 262 avisos foram registrados em Bruxelas, onde são emitidos alertas para a toda Europa sobre produtos contaminados, relativos a produtos chineses. Entre eles estavam massas infestadas de vermes, camarões contaminados com antibióticos, amendoins com mau cheiro e frutas cristalizadas contendo enxofre em excesso.

Fabricantes chineses já venderam ervilhas tingidas de verde que perdem a cor quando cozinham, orelhas de porco falsificadas e azeite usado de restaurantes, coletado em drenos de reprocessamento e reengarrafados. O jornal estatal “China Daily” informou até mesmo a existência de ovos de galinha falsificados. Difícil é imaginar o que isso quer dizer.

Mas, o maior problema envolvendo produtos alimentícios chineses é mesmo a carga de substâncias tóxicas devido ao uso de pesticidas ou de doses excessivas de antibióticos na criação de animais. Em 2008, um produto químico, a melamina, prejudicou a saúde de 300 mil crianças. O composto – que, entre outras coisas, causa danos aos rins – foi encontrado no leite, em pó e líquido. A substância foi acrescentada ilegalmente para disfarçar a diluição em água e elevar o nível de proteína da bebida.

Foi por conta desse episódio que, conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explicou ao Opinião e Notícia, naquele ano foi feita uma restrição aos alimentos chineses de origem láctea que continua valendo até hoje.

De acordo com o Ministério da Agricultura, a pauta de importações de alimentos do Brasil oriundos da China é variada, porém envolve quantidades módicas ou pequenas. Segundo um relatório do ministério, o montante mais que duplicou entre 2009 e 2010, passando de US$ 239 milhões para US$ 481,9 milhões. “O robusto crescimento nas aquisições de produtos agrícolas chineses ocorreu, principalmente, em função da elevação das importações de alho, que passaram de US$ 61,7 milhões para US$ 140,8 milhões, e filés de peixe congelados, que subiram de US$ 11,4 milhões para US$ 65,3 milhões”, diz o estudo, que explica, no entanto, que o que se observa é que houve um forte aumento do preço do alho chinês, pois a quantidade importada só aumentou 5,74%. O relatório aponta ainda na pauta de importações de produtos agrícolas chineses, rações para animais domésticos (US$ 53,8 milhões), feijões secos (US$ 28,8 milhões); produtos hortícolas, leguminosas, raízes (US$ 27,1 milhões) e bacalhau (US$ 20,1 milhões).

A Food and Water Watch, uma ONG com sede nos Estados Unidos, publicou um relatório sobre os impactos de uma década de importação de alimentos chineses nos EUA. Os dados mostram que, por exemplo, em 2009, 70% do suco de maçã, 43% dos cogumelos processados e 78% das tilápias que os americanos consumiam eram da China. Segundo o estudo, entre 2007 e 2008, 14% de toda a rejeição do FDA (o órgão dos Estados Unidos responsável pelo controle dos alimentos) a importados chineses foi devido a níveis elevados de resíduos de drogas veterinárias em pescado e frutos do mar. Mesmo drogas veterinárias banidas pelo governo chinês, como clembuterol, administrado para os animais apresentarem carne mais macia e pele mais rosada, ainda são usadas. Em 2007, o FDA baniu a importação de camarão, enguias, bagres e carpas da China após ser detectada nesses produtos, por várias vezes, a presença de antibióticos não autorizados e drogas veterinárias e químicas.

Na Europa, a supervisão de alimentos vegetais é considerada frouxa. Na maioria das vezes, produtos importados entram na União Europeia sem ter qualquer controle, exceto por um pequeno número de itens especiais que foram problemáticos no passado ou estão atualmente sob suspeita, como amendoim, soja, arroz e massas.

A China se adaptou rapidamente às necessidades do mercado, fornecendo ingredientes processados, como o salmão defumado, e pré-embalados, tais como os 10 quilos de morangos picados que foram para as cantinas escolares alemãs. No ano passado, o país importou mais de 31 mil toneladas de morangos processados da China a um preço médio de 1,10 euros por quilo. E o que faz o valor ser tão atrativo? As fazendas chinesas são imensas, além, é claro, da grande oferta de mão de obra barata.

Fora isso, a variedade de mercadorias parece quase ilimitada. O país tornou-se o maior exportador de mel do mundo. O alho chinês também já é consumido nos cinco continentes. E até pizzas congeladas já chegam ao mercado mundial.

Apesar dos problemas, a lei chinesa é dura e contempla até a pena de morte para casos que afetem a saúde nacional. Em 2009, o governo chinês introduziu uma nova lei de segurança alimentar e em 2010 criou uma comissão exclusiva para tratar do assunto. E ainda há uma proposta para que, no futuro, os consumidores que denunciarem práticas ilegais recebam uma recompensa.

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