14/07/2012 10h45

Prefeitos Estadistas, existem?

 

Por Mário Cezar Tompes da Silva(*)

Raros, mas, sim, existem! E, melhor, há meios de identificá-los. Aliás, ter a capacidade de reconhecê-los é um exercício útil, sobretudo em um momento como o que nos encontramos agora - início de mais uma maratona para escolha de novos gestores municipais. Há uma diversidade de atributos para a definição de um estadista, mas nos restringiremos a três características que são reiteradas com muita frequência quando se tenta identificar um homem de estado.

Um primeiro atributo importante desse tipo especial de liderança é sua capacidade admirável de sobrepor os projetos de longo prazo ao imediatismo da visão de curto prazo. Prefeito estadista é o que possui a capacidade de vislumbrar o futuro, de pavimentar o caminho para sua realização, mesmo que no percurso tenha que contrariar o interesse de muitos, inclusive de alguns de seus próprios seguidores.

Sua prioridade é o projeto de futuro e não hesita em tomar decisões impopulares no curto prazo, não aceitando subordinar-se aos ganhos imediatos de suas ações, sobretudo se eles minam o projeto de longo prazo. Já tive oportunidade de ler em algum texto uma síntese lapidar do que estou tentando expressar aqui: “o estadista se preocupa com a próxima geração e o político com as próximas eleições”.

Uma segunda característica do prefeito estadista é sua peculiar capacidade de transformar sua convicção pessoal, suas ideias e propostas em convicções e ideias que passam a ser abraçadas pela maioria dos cidadãos de sua comunidade. E aqui o importante é não só o líder possuir o dom de persuadir os cidadãos e arrebanhá-los para sua causa, mas fazer isso, introjetando entusiasmo genuíno em seus seguidores o que é fator necessário para viabilizar e, por vezes, abreviar a concretização do projeto almejado.

O terceiro predicado do prefeito estadista é a capacidade de entrar em sintonia com as ideias emergentes e captar os novos paradigmas de seu tempo. Isso significa ter coragem de descartar os modelos de gestão e de desenvolvimento de cidades que funcionaram no passado, mas que caducaram nas condições do presente.

Na atualidade isso significa perceber que o motor do desenvolvimento deixa de alicerçar-se na produção industrial para assentar-se na produção do saber, na promoção do conhecimento. As boas universidades e as instituições de pesquisa fazem hoje o papel que as indústrias desempenharam no século passado.

Entre outras coisas, significa também compreender que o desenvolvimento das cidades deve conjugar o desempenho econômico desejável com a sustentabilidade do meio ambiente urbano e a promoção da qualidade de vida dos munícipes. Sem esquecer que em cidades de países com uma desoladora dívida social, como é o nosso caso, qualidade de vida significa, sobretudo, qualidade de vida para os de baixo.

A tradução concreta disso se expressa não apenas por mais e melhores empregos, educação de qualidade e saúde condizente, mas também por menos prioridade para os carros particulares e mais atenção ao transporte coletivo, menos canalização de córregos e implantação de vias marginais para uso do automóvel e mais parques lineares e ciclovias, menos descaso com o pedestre e mais praças e calçadas decentes.

Para que o leitor não imagine que prefeitos estadistas que atendam o perfil exposto acima habitam apenas o plano do imaginário e também para demonstrar o que afirmei no início deste texto, ao sustentar que de fato eles possuem existência real, recordo aqui os casos exemplares de Enrique Penãlhosa, prefeito de Bogota/Colômbia entre 1998 a 2001, Pasqual Maragall o prefeito que preparou Barcelona/Espanha para as olimpíadas de 1992 e Jaime Lerner prefeito por três vezes de Curitiba no período de 1971 a 1992.

Como resultado da tenacidade com que implementaram seus projetos de futuro, promoveram suas respectivas cidades a novos patamares de importância. Na atualidade, Bogotá, Curitiba e Barcelona são referências em inovações urbanas, reconhecidas e copiadas mundo afora. Isso porque o legado deixado por aquelas lideranças funcionaram como máquinas eficazes de promoção de qualidade de vida para suas populações.

(*) Professor de Planejamento Urbano da UFGD.

(4) Comentários

Agradeço a paciência e boa vontade dos leitores em lerem e se manifestarem sobre as ideias expostas no artigo. Com relação às críticas realizadas pelo leitor Areovaldo Ramos quero esclarecer que o objetivo do artigo não é julgar nossos governantes do passado, mas aproveitar o momento presente onde teremos a oportunidade de escolha nosso próximo prefeito e apresentar alguns parâmetros do que poderia ser um governo municipal a altura dos desafios de nosso tempo.
No entanto, caro Areovaldo, acredito que você esteja fazendo um julgamento injusto do governo Tetila. É verdade que aquela gestão teve deficiências e limitações, aliás como a maior parte das administrações municipais. Porém, afirmar que “hoje não lembramos de nada que tenha a marca do seu ex-prefeito” é um evidente exagero. Seria cansativo aqui elencar a maior parte das ações daquele governo que representaram ganhos efetivos para a comunidade.
Entretanto, como esquecer, em tão pouco tempo, a implantação de um aterro sanitário que livrou nosso município da verdadeira chaga que era o antigo lixão que contaminava nosso lençol freático com enormes volumes de chorume? A luta para a implantação do shopping, assim como do Atacadão, em nossa cidade e o papel que eles representaram para consolidar Dourados como o polo regional que ele é hoje? A organização dos catadores de rua de materiais recicláveis em uma cooperativa – a AGCOLD – que persiste existindo até hoje? O cercamento das áreas de proteção ambiental do Arnulpho Fioravanti, Antenor Martins e do Água Boa, com a transformação do segundo em parque que hoje é usufruído pela população do Flórida e adjacências? A transferência de mais de 400 famílias de áreas de fundo de vales onde residiam em barracos precários que sofriam regularmente com inundações periódicas e hoje habitam residências de alvenaria em áreas elevadas livre do risco de inundações com escola, posto de saúde, creche e núcleo de geração de renda? A implantação de uma rede de ciclofaixas e ciclovias que totalizavam mais de 30 Km de extensão e que infelizmente foi em sua maior parte eliminada pela mentalidade rodoviarista das administrações posteriores? O mutirão político que foi realizado, com o forte engajamento da Prefeitura, juntamente com diversas outras forças políticas para a implantação da UFGD e todos os benefícios que isso representou e continua a representar para nossa cidade até nossos dias?
Poderia aqui continuar elencando outras ações de longo alcance, mas não vou abusar de sua paciência. Por último, gostaria de enfatizar que em nenhum momento em meu artigo afirmei que prefeito A ou B de Dourados fosse exemplo de estadista. É preciso recordar que nossos governantes, sem exceção, movimentam-se dentro de uma cultura e um contexto político já dados que os leva a supervalorizar a permanência no poder. Para romper essa cultura que, volto a insistir, tem afetado todos os nossos líderes municipais até a presente data, vamos necessitar de tempo para aperfeiçoar a cultura política de nosso povo e consequentemente a qualidade de nosso sistema democrático de forma a aumentar a chance de, no futuro, produzirmos prefeitos com perfil de estadistas.

 
Mário Tompes em 15 de julho de 2012 - domingo às 13:58

Muito bom Professor. Com certeza, qualquer ente publico que queira ser reconhecido como estadista deve por primeiro interferir no processo segundo sua própria fala: Pensar nas futuras gerações e não nas próximas eleições".
É uma pena que somente agora o senhor se atente para isso, pois durante os oito anos de mandato do Prefeito Tetila no qual o senhor teve muita importância, a proposta era outra.
Como sempre pensaram nas próximas eleições não sobrando tempo de pensar nas gerações futuras. Hoje não lembramos de nada que tenha a marca do seu ex-prefeito, claro, a não ser o rastro da corrupção na saúde, na educação, no lazer e em outros tantos setores, e na preocupação com mais e mais eleições para manter seu grupo político no poder.
SUSTENTABILIDADE mesmo somente nos itens levantados acima, no mais nem mesma a tal economia solidária com loja no shopping Center ou o pacto municipal na discutível proposta de transferência de responsabilidade do orçamento participativo permaneceram para a geração da nova década.
De qualquer forma obrigado pela colaboração, pois é com estes gestos que misturam o que "eu realmente penso e o que realmente faço" que vamos construir um muro intransponível para os oportunistas da vez.

 
Areovaldo Ramos em 15 de julho de 2012 - domingo às 09:30

Enquanto isso na terra de Marcelino Pires se destrói uma “matinha” para a construção de casas populares, um prefeito implanta ciclovias e o outro simplesmente arranca estas ciclovias (sem apresentar nenhuma alternativa para os ciclistas), os parques são abandonados e depredados por inoperância das administrações (parque da rua coronel ponciano, ao lado do IMAM), obriga-se o contribuinte a fazer calçadas acessíveis (piso tátil) e de uma hora para outra não precisa fazer mais!!! A saúde de Dourados era pública, agora é privada (Hospital Evangélico). Descobrimos que o nosso “aeroporto” com placa e tudo não é aeroporto e sim “aeródromo”!!! Mãe, abre a porta que eu quero descer....
Mário Tompes, parabéns pelo artigo.

 
santos em 15 de julho de 2012 - domingo às 00:54

De acordo com o artigo do professor Mário Cezar, nossa Dourados, ao longo de sua história nunca teve a felicidade, ou sorte, de ter um estadista como prefeito e, pelo andar da carruagem, onde a cidade não tem vida política própria, as decisões até de candidaturas são determinadas por políticos de Campo Grande, vai demorar um bocado para conseguir um. Professor Ribeiro Arce. E-mail: ribeiroarce@gmail.com

 
Ribeiro Arce em 14 de julho de 2012 - sábado às 18:20

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