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Leia: Uma só verdade, uma só forma de usar a terra, por Thiago Ca

31 maio 2011 - 08h22

Na última semana o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) promoveu em Dourados um seminário sobre a questão fundiária indígena em Mato Grosso do Sul.

Lideranças indígenas guarani, kaiowa e terena, assim como ruralistas estiveram presentes no auditório da UNIGRAN para expor seus pontos de vista sobre a questão. O fortíssimo aparato de segurança revelava a tensão que o tema carrega. As confortáveis caminhonetes com que chegavam os ruralistas e os ônibus fretados com que chegavam os indígenas revelavam a desigualdade de condições para atender ao convite do CNJ.

Das muitas falas equivocadas e preconceituosas abertamente propagadas pelos ruralistas e seus aliados, quero destacar duas. Além da característica truculência, o que chamou atenção na fala do governador André Puccinelli foi a afirmação de que a verdade é uma só. Também chamou atenção o diluído discurso da improdutividade das terras indígenas e de que as novas áreas que podem vir a ser demarcadas também serão improdutivas.

Essas duas falas revelam o ranço etnocêntrico com o qual as elites estaduais pensam a questão indígena e a de suas terras em especial. Não é preciso ser historiador, antropólogo, advogado ou qualquer outro profissional para saber que a verdade é relativa, para isso basta ter um mínimo de bom senso e sensibilidade. A verdade é relativa a quem a sustenta. Por tanto, a verdade para os indígenas certamente não é a mesma verdade defendida pelo governador.

Da mesma forma que não há uma única verdade, também não há uma única forma de se aproveitar a terra. De fato, falta assistência técnica e condições para que os indígenas cultivem mais alimentos em suas terras. No entanto, é pouco provável que eles queiram transformá-las em latifúndios monocultores, como é o caso da maioria das terras tradicionais em posse dos ruralistas. A relação que os indígenas mantêm com a terra não se limita à extração de meios para a sobrevivência física, vai além, a terra também é fonte de reprodução cultural e social, é morada de seres espirituais e muito mais.

As duas visões aqui criticadas têm suas raízes no etnocentrismo colonialista que ainda domina em Mato Grosso do Sul. Enquanto as pessoas envolvidas na questão fundiária indígena não se esforçarem para compreender e respeitar a alteridade será difícil imaginar que se pode chegar a uma solução pela via do diálogo, como propunha o CNJ.

Os ruralistas e seus aliados ganhariam muito se debatessem a questão de forma qualificada, apostando no diálogo e abandonando o discurso do bandeirante ressentido. Hoje de tão frágeis, seus discursos são facilmente desconstruídos, tanto é que no judiciário as causas indígenas têm prevalecido, principalmente na esfera dos egrégios tribunais.

Doutorando em História pela UNESP de Assis-SP.

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