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Leia: Crônica em retalhos, por Biasoto

29 maio 2011 - 09h16

Morrendo e aprendendo: naqueles tempos em que se costumava colocar uma vela acessa na mão dos moribundos (eita! coisa mais fúnebre) num sítio distante estava um homem no leito de morte. Os filhos percebendo que seriam os últimos suspiros do pai, puseram-se às pressas a procurar uma vela. E nada de acharem. Então, o filho mais velho correu ao fogão, atiçou um graveto, reacendeu a brasa, e colou-o entre as mãos do pai, que ainda teve tempo de exclamar: “vivendo e aprendendo, quando não se tem vela o tição mesmo serve para nos iluminar o caminho”.

Velho mas não desgastado: esse velho ensinamento apesar de antigo, do tempo do fogão de lenha, não se desgastou, tanto é verdade que é mais ou menos isso que defende até hoje a Associação Internacional das Cidades Educadoras: que o aprendizado não se resume à escola, mas que todos nós somos ao mesmo tempo mestres e aprendizes e que não há limite de idade para aprendermos.
Eterno aprendiz: E me vem repentinamente à cabeça a música de Gonzaguinha: Viver! E não ter a vergonha / De ser feliz / Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser / Um eterno aprendiz...”

Exemplo a ser seguido: meses atrás fui à casa de meu padrinho de casamento, o professor Kiyoshi Rachi, uma das inteligências mais brilhantes que temos em Dourados, pedir-lhe que prefaciasse um livro que pretendo lançar ainda este ano. E eis que o encontro fazendo o que? Aprendendo japonês! E olha que o Kiyoshi é um pouco mais idoso que eu que já passei dos 63.

Estou tentando: De minha parte estou tentando ser esse eterno aprendiz de quem nos fala Gonzaguinha, mas não é nada fácil. Antes de mais é preciso ser humilde, e a humildade é coisa dos sábios. De qualquer forma, hoje já compreendo um ensinamento de meu pai que dizia-me sempre que não bastava ver, era preciso enxergar as coisas. Ou seja, para ele, enxergar era ter um olhar mais profundo, um olhar de compreensão daquilo que se está vendo. Nesse sentido, hoje, já sei que tenho muito a aprender.

Oportunidades: antigamente, as mudanças nos hábitos e comportamentos eram muito mais lentas do que na atualidade. E quando digo antigamente refiro-me a cinquenta anos atrás, ou seja, a rapidez com que se muda as coisas nesses últimos cinquenta anos é sem precedentes na história da humanidade.

Comportamento: Então o caro leitor haverá de comparar comigo: se o moribundo do início dessa crônica surpreendeu-se em estar aprendendo coisas novas ao morrer na época do fogão de lenha, imagine hoje, com tantas transformações? Com certeza a expressão morrendo e aprendendo torna-se ainda muito mais adequada.

Muito burra: dia desses uma senhora disse-me que precisava fazer um curso de computação, pois onde já se viu, sua netinha de dez anos chamou-a de burra por não saber lidar com o computador. Ora, ora, em primeiro lugar, anos atrás ninguém imaginaria uma neta chamando a avó de burra e, em segundo, não haveria como uma menina de dez anos saber mais que uma avó.

Choque de gerações: nos anos de 1960, quando se falava em choque de gerações, fazia-se referência às mudanças comportamentais. A juventude da época desligava-se de velhos tabus para construir uma existência mais livre, mais solta, menos preconceituosa. As mulheres passaram a fumar, a dirigir, a usar roupas mais confortáveis. Os rapazes, a exemplo das garotas, buscavam formas alternativas de vida, e nos anos 70 já queriam ser além de “metamorfoses ambulantes” desejavam o velo de mercúrio (Zé Ramalho) ou serem levados pelo moço do disco voador fosse ele para onde fosse (Raul Seixas).

Ainda se estranha muito: Não obstante tanta luta pela liberação dos costumes e do próprio corpo, ainda hoje muita gente abomina certos comportamentos, como o casamento de homem com homem, mulher com mulher. É difícil conceber!
Sociedade conservadora: a grande verdade é que a sociedade é conservadora e quando o Ministério da Educação propõe, por exemplo, que se tenha um kit nas escolas para preparar educadores e educandos em relação a comportamentos homoafetivos, alguns seguimentos se manifestam e impedem que isso ocorra.
Ainda o conservadorismo: da mesma forma quando o mesmo Ministério permite a publicação de obras didáticas que fogem às normas estabelecidas nas gramáticas tradicionais, a reação da maioria é pela consevação da norma culta.

Memória: Certa vez veio um jornalista para Dourados e aqui permaneceu tão pouco tempo que nem a lembrança de seu nome deixou, mas deixou uma polêmica: o vereador Nóia, em 1978, se não me falha a memória, fez um requerimento ao prefeito José Elias, para “que fossem jogadas algumas caminhãozadas de cascalho para arrumar uma rua”. E não é que o tal jornalista fez chacota da expressão caminhãozada dizendo que isso nem existia no dicionário. E na sessão seguinte não é que o vereador queria enviar uma moção de protesto para o jornalista? Suspendeu-se a sessão, fechados na sala da presidência da casa os vereadores convenceram Nóia a retirar a moção embora ele estivesse coberto de razão. O próprio professor Lins, que estava na sessão nesse dia é que afirmara em alto e em bom tom que caminhãozada era linguagem coloquial perfeitamente compreensível e de uso corrente.

Resumo da crônica: tenho sérias dúvidas se algum estudante de Letras, mesmo universitários conseguiriam ler no original as crônicas de Fernão Lopes, os Luzíadas ou mesmo a Carta de Pero Vaz de Caminha. A língua é viva, se transforma com o passar o tempo, o que era Vossa Mercê, passou a ser Voismencê, depois, você, depois ocê e assim vamos caminhando. Da mesma forma acontece com os costumes. O remédio é procurarmos nos atualizar, estudar, procurar acompanhar, embora seja difícil, essas vertiginosas transformações que estamos vivendo.


Suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br
* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

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