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Harpa Paraguaia um instrumento transculturado, por Elizeu Rodriguez Cristaldo

17 Agosto 2011 - 13h46

Permita-me caro leitor (a) discorrer de um tema que considero de muita importância para toda a coletividade paraguaia da região da Grande Dourados e de todo o Mato Grosso do Sul, e para alguns outros que têm interesse em saber por que se diz HARPA PARAGUAIA.

A harpa é um dos instrumentos musicais mais antigos da história da humanidade. Consta na sagrada escritura, que o rei Davi já tocava este instrumento. Segundo pesquisas, existiam dois tipos principais: A harpa angular, originária do Egito, e a harpa arqueada ou combada, da África. Lembra ainda as literaturas de remotas épocas que algumas tinham 22 cordas e, durante o ano 600, foram feitas muitas tentativas para o aperfeiçoamento do seu mecanismo. Depois de um longo processo, tanto no lugar de origem como na Europa, especialmente na Irlanda, Alemanha e Itália, foi aperfeiçoando-se, na caixa de ressonância, nos acordoamentos e nos mecanismos de execução.

A harpa chegou à América com os espanhóis que se instalaram em distintas regiões do continente, uma das quais a República do Paraguai, que nessa época era povoada pelos índios Carios. As crônicas da época lembram que entre os que acompanhavam a comitiva dos “conquistadores” conduzida por Sebastián Gavoto pelo rio da prata, no ano de 1526, estava um talhador de harpa de nome Martin Niño. Mas, segundo o padre Estrobel, foi o padre Sepp, no ano de 1691, quem introduziu este instrumento na localidade denominada de Yapeyú. Esta cidade era uma das reduções jesuítica no Paraguai. Hoje esta localidade pertença à Argentina.

Em pouco tempo de convivência dos espanhóis e os índios Carios, produziu-se o cruzamento de dois grupos étnicos de culturas diferentes. Dessa fusão surgiu uma estirpe nova, que é a paraguaia. Por incrível que pareça nesse momento o idioma guarani também sofreu um fenômeno parecido, ou seja, houve um choque de mudança cultural.

Reconhecidamente, o Paraguai é um país bilíngüe. Lá se fala obrigatoriamente o guarani e o espanhol. No entanto, o idioma dos índios Carios, com o passar do tempo, foi minado pelo hispanismo e deixou de ser castiço; fruto dessa interferência e que atualmente no Paraguai se escreve algumas poesias no guarani puro, mas o povo fala em guarani hispanizado, porém, sem perder a sua essência telúrica americana.

Podemos afirmar que a HARPA PARAGUAIA originou-se pela fusão destas duas civilizações, onde este instrumento foi adotado pelos nativos, que a aperfeiçoou à sua maneira, construindo-a de madeira americana, logrando uma notável estilização e criando seu próprio repertório.

A estilização deste novo instrumento significa um aporte muito grande para a arte musical. Pode-se dizer que é um valor representativo pelo fato de que no crisol de América, a união de duas culturas deu nascimento ao mestiço, que deixou de ser índio e espanhol, para ser paraguaio. Nesta eclosão americana, o bíblico instrumento foi remodelado para converter-se em HARPA PARAGUAIA, graças ao engenho das pessoas e aos elementos nativos.
São muitos os artifícios deste instrumento. Para termos uma idéia, em 1710, o luthier Hochbrücker de Donawöt, inventou um mecanismo a pedal que permitia trocar os acordes sem ocupar as mãos. Logo, outro luthier de Paris, chamado Cossineau, construiu outro mecanismo e com a ideia deste inventor, no ano de 1808, Sebastián Erard, conseguiu aperfeiçoar a sua estilização universalizando-a como harpa clássica.

É bom lembrarmos que este instrumento que tinha chegado à América com os europeus com a sua forma de construção muito simples, impressionou vivamente os mestiços. Este, com a sua disposição inata para a arte musical, reconhecida especialmente pelos missioneiros jesuítas e franciscanos, a construiu com madeira da nossa região. Portanto, a evolução da harpa clássica não afetou em grande parte a harpa paraguaia, pois este tomou outro rumo, levando-o a um progressivo avanço, e melhorando cada vez mais a sua estilização.

Apesar da sua afinação diatônica, os seus cultores fazem maravilhas ao executar transferindo esse aprendizado de geração em geração, criando uma técnica própria, executando a melodia com a mão direita, e o acompanhamento com a mão esquerda, usando sempre as unhas no lugar das gemas dos dedos.
A harpa que chegou da Europa recebeu praticamente a carta de cidadania na América. Dessa forma pode-se apreciar sua presença no México, Venezuela, Peru, Chile, Brasil, Argentina, entre outras. No Paraguai surgiram brilhantes cultores da harpa, impossível de citá-los a todos, mas podemos lembrar-nos de alguns que mais se destacaram: as famílias Billasboa (pai e filhos), José Del Rosário Diarte, Conché Ramirez, Tani Bordon, Luiz Bordon, entre outros.

Na atualidade os cultores da harpa paraguaia têm proliferado de maneira exaustiva. Esses artistas têm percorrido o mundo numa lírica peregrinação, levando consigo a boa música paraguaia. Quero citar o célebre Feliz Perez Cardoso, verdadeiro pioneiro deste instrumento, artista extraordinário que semeou toda uma escola de como executar a harpa paraguaia e, ademais, agregou mais quatros cordas, que são as bordonas, elevando-a de 32 cordas tradicionais para 36. Criou várias composições que passaram a fazer parte permanente do repertório de todos os harpistas paraguaios, como a polca LLegada, Tren Lechero, Angela Rosa, El Sueño de Angelita, Mi Despedida, Maria Elza, entre outras.

A harpa paraguaia tem compenetrado no espírito do artista paraguaio e hoje em dia faz parte do seu cotidiano. Devo citar que foi o compositor FELIZ PEREZ CARDOSO que imortalizou na harpa paraguaia a música Pássaro Campana (guyra pu, ou guyra campana, em guarani), uma das páginas musicais mais folclóricas e representativas do Paraguai justamente a que dá mais brilhantismo ao harpista ao interpretá-la.

Esta polca paraguaia já faz muito tempo que ultrapassou nossas fronteiras, levando consigo os acentos e latidos telúricos de América que simboliza este pássaro que voa repartindo harmonia do nosso continente, para todas as latitudes do nosso planeta.

É Bacharel em Ciências Sociais, radialista, professor da língua guarani e presidente da Associação da Colônia Paraguaia de Dourados

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