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Crônica em retalhos: renda de cidadania, por Wilson Valentim Biasotto

04 junho 2011 - 07h39

Conformismo: “Nasci pelado e sem dentes, portanto o que vier é lucro”. Não sei exatamente quem inventou essa expressão, mas já a ouvi muitas vezes e não acho que seja correta, quer dizer, que seja lucro o que adquirimos após o nascimento. Ocorre que somos seres inacabados, em contínua construção, portanto como haveríamos de nascer prontos? Logo, a frase encerra muito mais conformismo que verdade propriamente dita.

A construção do ser: O nascimento expressa uma fase da construção do ser humano, depois nascem os primeiros dentes, damos os primeiros passos, aprendemos as primeiras noções do mundo. E assim vamos sendo construídos tanto física quanto intelectualmente, primeiro pelos nossos pais, pelos tios, parentes, depois pelos professores, pelos colegas e, concomitantemente pela escola da vida.

O mais dependente dos seres: o humano é o mais dependente dos seres quando do nascimento e nos primeiros anos de vida. Nenhum outro animal precisa de tantos cuidados. Essa nossa fragilidade, no entanto, implica em um compromisso da sociedade em relação à nossa formação e na nossa responsabilidade em relação à sociedade que nos formou.

Laços de pertencimento: Significa dizer que algumas nações africanas estão certas ao afirmarem que só existo porque pertenço (à família, à sociedade): “pertenço, logo existo”. Ou seja, não é possível ao ser humano existir sem pertencer. Quando entrei na faculdade estranhei um pouco que o professor de sociologia nos tivesse mandado ler dois romances: Tarzan (de Edgar Rice Burroughs) e Robson Cruzoé (de Daniel Defoe). Ele somente tencionava ensinar-nos que é impossível viver fora da sociedade. Só a partir daí é que fomos estudando a organização da sociedade e o comportamento social, principiando com clássicos como Émile Durkhein Karl e Mannhein.

Pensamento Ocidental: essa máxima do pertenço logo existo, não foi incorporada ao pensamento Ocidental que prefere o ensinamento cartesiano de que “penso, logo existo”. A diferença é gritante. Se existo porque penso, e não porque pertenço, perco de certa forma, os laços de solidariedade com a família e com a sociedade que me cria, me ensina, me constrói como um ser, desde recém-nascido. Passo a ser muito mais egoísta do que deveria.

Glauber Rocha: essa ausência do sentimento de pertencimento e de responsabilidade com o próximo foi aprofundada pelo sistema capitalista, o mais cruel dos deuses que a humanidade já criou e que levou Glauber Rocha a dizer que “Deus criou o mundo e o diabo o arame farpado” (Deus e o Diabo na Terra do Sol).

Sentido figurado: o arame no caso, divide, separa, promove a expropriação. Mas até esse sentido figurado o arame já perdeu. As Leis, promovidas pela classe dominante, passaram a assegurar a propriedade e a desigualdade muito mais que a existência do arame.

Desmancha prazeres: vez ou outra aparecem alguns desmancha prazeres, como Jesus Cristo que pregou que quem tivesse duas mantas desse uma a quem não tivesse, ou Marx que estabeleceu a máxima: “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um de acordo com suas necessidades".

Renda de cidadania: esse é o título do livro escrito pelo senador Eduardo Matarazzo Suplicy, publicado pela Editora Cortês em 2002. Na obra o autor defende a criação de uma renda mínima para todo o cidadão brasileiro.

Grosso modo é o seguinte: no final do mês o governo depositaria na conta de cada cidadão brasileiro uma determinada importância. Digamos que se estabelecesse que fossem duzentos reais. Nesse sentido quem ganha muito não teria do que reclamar e quem vive com um mísero real por dia sairia da condição de miséria absoluta para ser ao menos considerado pobre, o que já seria uma luz no fundo do túnel.

Subtítulo do livro: “a saída é pela porta”. Infelizmente falta vontade política, falta solidariedade, falta humildade, falta consciência cidadã. Falta acima de tudo inteligência para se perceber que uma sociedade justa faria bem a todos.

Sociedade em construção: o resumo da crônica é que da mesma forma que o ser humano é um ser em construção, a sociedade também o é. Caminhamos, já almoçamos nossos pais (Roy Lewis: 1993: porque almocei meu pai) e seguimos adiante, com rupturas, é verdade, mas buscamos a perfeição.

Suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br

Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

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