Menu
Busca sábado, 23 de março de 2019
(67) 9860-3221

Crônica em retalhos: renda de cidadania, por Wilson Valentim Biasotto

04 junho 2011 - 07h39

Conformismo: “Nasci pelado e sem dentes, portanto o que vier é lucro”. Não sei exatamente quem inventou essa expressão, mas já a ouvi muitas vezes e não acho que seja correta, quer dizer, que seja lucro o que adquirimos após o nascimento. Ocorre que somos seres inacabados, em contínua construção, portanto como haveríamos de nascer prontos? Logo, a frase encerra muito mais conformismo que verdade propriamente dita.

A construção do ser: O nascimento expressa uma fase da construção do ser humano, depois nascem os primeiros dentes, damos os primeiros passos, aprendemos as primeiras noções do mundo. E assim vamos sendo construídos tanto física quanto intelectualmente, primeiro pelos nossos pais, pelos tios, parentes, depois pelos professores, pelos colegas e, concomitantemente pela escola da vida.

O mais dependente dos seres: o humano é o mais dependente dos seres quando do nascimento e nos primeiros anos de vida. Nenhum outro animal precisa de tantos cuidados. Essa nossa fragilidade, no entanto, implica em um compromisso da sociedade em relação à nossa formação e na nossa responsabilidade em relação à sociedade que nos formou.

Laços de pertencimento: Significa dizer que algumas nações africanas estão certas ao afirmarem que só existo porque pertenço (à família, à sociedade): “pertenço, logo existo”. Ou seja, não é possível ao ser humano existir sem pertencer. Quando entrei na faculdade estranhei um pouco que o professor de sociologia nos tivesse mandado ler dois romances: Tarzan (de Edgar Rice Burroughs) e Robson Cruzoé (de Daniel Defoe). Ele somente tencionava ensinar-nos que é impossível viver fora da sociedade. Só a partir daí é que fomos estudando a organização da sociedade e o comportamento social, principiando com clássicos como Émile Durkhein Karl e Mannhein.

Pensamento Ocidental: essa máxima do pertenço logo existo, não foi incorporada ao pensamento Ocidental que prefere o ensinamento cartesiano de que “penso, logo existo”. A diferença é gritante. Se existo porque penso, e não porque pertenço, perco de certa forma, os laços de solidariedade com a família e com a sociedade que me cria, me ensina, me constrói como um ser, desde recém-nascido. Passo a ser muito mais egoísta do que deveria.

Glauber Rocha: essa ausência do sentimento de pertencimento e de responsabilidade com o próximo foi aprofundada pelo sistema capitalista, o mais cruel dos deuses que a humanidade já criou e que levou Glauber Rocha a dizer que “Deus criou o mundo e o diabo o arame farpado” (Deus e o Diabo na Terra do Sol).

Sentido figurado: o arame no caso, divide, separa, promove a expropriação. Mas até esse sentido figurado o arame já perdeu. As Leis, promovidas pela classe dominante, passaram a assegurar a propriedade e a desigualdade muito mais que a existência do arame.

Desmancha prazeres: vez ou outra aparecem alguns desmancha prazeres, como Jesus Cristo que pregou que quem tivesse duas mantas desse uma a quem não tivesse, ou Marx que estabeleceu a máxima: “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um de acordo com suas necessidades".

Renda de cidadania: esse é o título do livro escrito pelo senador Eduardo Matarazzo Suplicy, publicado pela Editora Cortês em 2002. Na obra o autor defende a criação de uma renda mínima para todo o cidadão brasileiro.

Grosso modo é o seguinte: no final do mês o governo depositaria na conta de cada cidadão brasileiro uma determinada importância. Digamos que se estabelecesse que fossem duzentos reais. Nesse sentido quem ganha muito não teria do que reclamar e quem vive com um mísero real por dia sairia da condição de miséria absoluta para ser ao menos considerado pobre, o que já seria uma luz no fundo do túnel.

Subtítulo do livro: “a saída é pela porta”. Infelizmente falta vontade política, falta solidariedade, falta humildade, falta consciência cidadã. Falta acima de tudo inteligência para se perceber que uma sociedade justa faria bem a todos.

Sociedade em construção: o resumo da crônica é que da mesma forma que o ser humano é um ser em construção, a sociedade também o é. Caminhamos, já almoçamos nossos pais (Roy Lewis: 1993: porque almocei meu pai) e seguimos adiante, com rupturas, é verdade, mas buscamos a perfeição.

Suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br

Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

Deixe seu Comentário

Leia Também

SHOWBIZZ
Após cirurgia, Cleo Pires exibe corpão, faz dancinha e rebate seguidor
TRÊS LAGOAS
Mulher que entrou em briga de casal e matou homem diz que foi acidente
FUTEBOL
Aquidauanense vence o Operário na abertura das quartas do Estadual
DOURADOS
Agehab vai aos bairros para regularização de loteamentos sociais
PONTA PORÃ
Adolescente é apreendida com maconha que levaria para São Paulo
LUTO
Ator e diretor Domingos Oliveira morre aos 83 ans no Rio de Janeiro
FUTEBOL
Paquetá marca, mas Brasil só empata com Panamá em amistoso
BRASIL
Caminhoneiros se mobilizam para nova paralisação, mostra monitoramento
IVINHEMA
Médico veterinário morre em acidente de moto na MS-276
CICLISMO
Desafio das Araras de Mountain Bike abre inscrições para 2ª etapa

Mais Lidas

HU
Dengue hemorrágica causa morte de menino de 11 anos em Dourados
LUTO
Fundadora da ADL, Ruth Hellman morre em Dourados
DOURADOS
Protesto contra a Reforma da Previdência leva centenas ao Centro
DOURADOS
Trio que matou e roubou cabeleireiro é condenado a 62 anos de cadeia